domingo, março 16, 2008

A hora do cansaço



As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Piotr Kowalik

4 comentários:

Menina_marota disse...

"...Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar."

É verdade!

Bela escolha

Bj

Special K disse...

Se é bom não me canso :)
Bjks

Lola disse...

Wind,

Infinito enquanto dura...

Beijinhos

Paula Raposo disse...

Concordo...