Sexta-feira, Julho 17, 2009

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"Cigarros são a forma perfeita de prazer: elegantes e insatisfatórios."

Oscar Wilde

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Quinta-feira, Julho 16, 2009

Amor



A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vide do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.

E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.

Miguel Torga

Foto:George Portz

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Quarta-feira, Julho 15, 2009

Se um dia...



Se um dia me sentar
Num tamborete
Numa almofada
Num tapete
O corpo sobre a terra quente
Vermelha
Sem telha que me cubra
Nada mais que a lua
Enorme
Uma lua fugindo para sul
E eu
A dormir um sono
Na terra ainda quente do sol-posto
A lua derramando odores
E eu
Enrolada em tecidos cor da fruta
Doce
Sumo a escorrer-me pelos braços
Peganhento
A deslizar-me pelos seios
Pelo ventre

Se eu um dia me sentar
Como descrevo
Posso deixar-me ir
E deixar dito que
Morri no paraíso

Maria de Fátima

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Terça-feira, Julho 14, 2009

Árvores



São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde

no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende

na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu

que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado

Gastão Cruz

Foto retirada do Google

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Segunda-feira, Julho 13, 2009

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"Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada."

Carlos Drummond de Andrade

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Domingo, Julho 12, 2009

Saudade



Pairam ascendentes seduções
Nas formas cor de purpura
Da mística brisa distante.

Suaves recordações
Invisíveis fontes puras
Acordam na memória viajante.

Saudade,
Aquele calor sensível
Que se esconde no forro íntimo do sentimento

Aquela onda suave
Que refresca os horizontes da verdade

Aquele arrepio simples
Que se estende pelos sentidos da memória

Aquela fita silenciosa
Que se projecta no interior do peito

Aquele ardor nostálgico
Que se instala na serenidade do horizonte

Aquele murmúrio terno
Que ilumina a canção do olhar

Aquela seiva melancólica
Que alimenta os rios intermináveis do corpo

Há muito que não vejo
Aquele olhar radiante
Sorvendo a sensualidade do ar.

Jorge Viegas

Imagem retirada do Google

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Sábado, Julho 11, 2009

Rosas não falam



Apesar de testemunhar
as histórias tantas que povoam o mundo
as rosas guardam nossos segredos
como se fossem delas mesmo.

Mas não é por acaso que isso acontece
todas as rosas, um dia foram mulheres.
Diz a lenda que era o mais belo povoado
quem nele chegava, dificilmente saía.

Ali viviam, em completa harmonia
as mais belas mulheres, cúmplices
daquela natureza em magia:
ninguém era escolhido ou escolhia.

Até que um dia, a morena de encantos mil
sentiu pela primeira vez no coração, o vazio
de perder seu homem, seu parceiro tão amado
não soube perdoar e fugiu.

Revolveu céus e terras para contar a sua dor
perdeu a paz e tirou a paz do seu amor
espalhando no mundo, antes tão sereno
o ciúme que exalava, tão cruel veneno.

Os deuses empertigados, todos apavorados
criaram a lei, a mais cruel talvez
de transformar todas as mulheres em rosas
que perfumam, encantam, inebriam...

Mas cumprem com rigor a lei do senhorio
que cobriu de silêncio toda a antiga harmonia
com o decreto irrevogável que dizia:
- Rosas não falam...

Tere Penhabe

Foto:Eli

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Sexta-feira, Julho 10, 2009

Quanto mais amada mais desisto



De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

Foto retirada vdo Google

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Quinta-feira, Julho 09, 2009

Os índios da meia praia-Dulce Pontes & Júlio Pereira




Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe vê peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Nao traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Autor:Zeca Afonso

Fabulosa interpretação:Dulce Pontes

PS:Desligar o som do blog no lado direito

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Quarta-feira, Julho 08, 2009

X e W



O Xisto era o carioca mais feio que ainda se viu.

Não tinha defeitos físicos, não o deformavam aleijões nem protuberâncias: era naturalmente feio, de uma fealdade legítima, resultante do conjunto infeliz de todas as partes do corpo, e não de quaisquer incidentes ou particularidades.

Tinha os olhos esbugalhados, o nariz chato, o cabelo espeta-goiaba, a boca rasgada quase até as orelhas, que eram enormes.

Quando abria as mandíbulas para falar, mostrava as gengivas em que se incrustavam alguns fragmentos negros da dentadura de outrora.

Vestia-se mal. Não havia roupa que lhe assentasse, - e não andava sem bambolear ridiculamente os quadris desengonçados.

As mulheres bonitas fugiam dele como o diabo da cruz, e era isto o que mais o desconsolava. As feias, levadas não pelo amor mas por uma espécie de solidariedade, não o repeliam; mas o pobre Xisto não as podia aturar. Era feio, muito feio, mas tinha o sentimento do belo, e sonhava com mulheres divinas, excepcionalmente formosas.

* * *
Defronte da casa dele morava uma viúva de trinta anos, lindíssima, de quem se dizia mal. Havia na vizinhança quem afirmasse que ela sofria da mesma doença de Messalina e Catarina II; mas isso bem podia ser calúnia.

Xisto, coitado, adorava em silêncio a encantadora vizinha, sem que tão desairosa reputação fizesse mossa nos seus sentimentos. Não podia vê-la à janela sem frêmitos de amor; considerava-se, porém, como Ruy Blas, insignificante minhoca apaixonada por uma estrela, e não ousava dizer nem a si próprio que a amava.

* * *
Imagine-se que sensação, que sobressalto, quando certa manhã, chegando à janela, e olhando para a viúva, o Xisto foi recebido com um sorriso inefável.

Ele sorriu também, contraindo os lábios para não mostrar os dentes e as gengivas, e este esforço muscular produziu uma careta medonha.

A viúva não se mostrou horrorizada. Retirou-se da janela, e, colocando-se no meio da sala, de modo que não pudesse ser vista senão pelo vizinho, mostrou-lhe um papel que tinha na mão.

Ele estupefato, saiu também da janela, e bateu no peito, perguntando, por mímica, se era para si aquele bilhete. A viúva respondeu afirmativamente, e, voltando para a janela, fez do papel uma bola, e atirou-a à rua, tendo o cuidado de, com um volver d'olhos, recomendar ao Xisto que a apanhasse.

O moço desceu à rua, olhou para todos os lados, e verificando que ninguém o via, apanhou a bola, voltou para casa, e leu sofregamente o seguinte:

"Hoje, à meia-noite, espero-o em minha casa. A porta estará apenas encostada. Tenha a maior cautela para que ninguém o veja entrar."

O que durante esse dia se passou na alma e no cérebro do Xisto, daria para um longo capítulo de romance.

O pobre diabo perdia-se em suposições e conjecturas, sem acreditar que se tratasse de uma aventura amorosa. Entretanto, barbeou-se, aparou o cabelo, meteu-se num banho perfumado, vestiu roupa nova, e esperou, febricitante, a meia-noite, contando os minutos, que lhe pareciam séculos.

* * *
Quando, à primeira badalada da meia-noite, ele empurrou a porta e entrou no corredor da viúva, esta, que o esperava, disse-lhe à meia voz:

- Entre para o meu quarto.. - devagarinho para não despertar os criados...

Pie obedeceu trêmulo e ofegante.

- Disseram-me ontem que o senhor chama-se Xisto; é verdade?

- Sim, senhora.

- Escreve o seu nome com X?

- Naturalmente.

- Bom.

* * *
Na manhã seguinte, o Xisto abriu a janela na esperança de ver a sua amante, mas nem nesse dia, nem nos imediatos lhe pôs a vista em cima.

Afinal, depois de uma semana inteira, conseguiu vê-la; mas a viúva olhou para ele com indiferença, como se o não conhecesse; nem sequer o cumprimentou.

O mísero ficou magoado, e muito convencido de que, sem saber como, susceptibilizara a viúva; entretanto, não teve anseios nem saudades, porque da singular entrevista lhe ficara uma impressão muito desagradável, e a vizinha perdera consideravelmente na sua estima. Ele tinha estado, não com uma mulher, mas com um autômato, uma boneca mecânica, tão fria, tão inconsciente lhe parecera.

A visível repugnância com que ela se esquivara a um beijo na despedida e a insistência com que lhe pedira se fosse embora, depois de uma entrevista que não durara mais de quinze minutos, abateram cinqüenta por cento do seu entusiasmo.

E nunca mais o Xisto se encontrou a sós com aquela mulher, aquela esfinge, que fora sua, absolutamente sua durante um quarto de hora!

* * *
Um ano depois, ele teve a explicação de tudo, e quem lha deu foi o Wladimir, seu amigo intimo e colega de repartição, que lhe contou o seguinte:

"Achando-me num bonde de Botafogo, sentado junto a uma senhora desconhecida, esta, ouvindo pronunciar o meu nome por um amigo que se apeara, imediatamente me perguntou:

- O senhor chama-se Wladimir?

- Sim, senhora.

- Escreve o seu nome com W?

- Sim.

- É um bonito nome!

- Acha?

- Diz muito bem com a pessoa.

- Favores seus.

- É solteiro?

- Sim, senhora.

- Aceita uma chávena de chá em nossa casa?

- Com mil vontades.

- Nesse caso, espero-o hoje à meia-noite.

E disse-me onde morava.

Vi então que se tratava do teu autômato.

Fiz-lhe ver que a meia-noite era uma hora muito esquisita para tomar chá em casa de uma senhora, ao que ela respondeu com um delicioso sorriso:

- Pois tomará outra coisa.

Fui pontual.

Reproduziu-se a mesma cena que se passou contigo, tal qual ma contaste. Mas diante do seu automatismo não tive a tua passividade: revoltei-me, fingi-me deveras zangado, e ameacei-a com um escândalo inaudito, àquela hora, se me não explicasse a razão por que te dera a ti uma entrevista, e outra a mim, sem nos amar, sem sequer nos conhecer. A explicação foi difícil, mas arranquei-lha!

- E então? perguntou o Xisto, mostrando as gengivas. Que te disse aquela cínica?

- Não é cínica, é doida.

- Deveras?

- Sim, é um caso patológico. Imagina que ela organizou um índice alfabético de todos os seus amantes, e estava aflita porque lhe faltavam o X e o W. O X foste tu; o W fui eu!

- Ora esta!

- Ainda lhe faltam o K e o Y, mas creio que não os arranjará, a menos que recorra ao estrangeiro.

- Só assim poderia eu, com a cara que tenho..

- Ela encontrou em ti o X que procurava. Se fosses um monstro, seria a mesma coisa. Vê tu aonde pode conduzir a mania de colecionar!

Artur Azevedo

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Terça-feira, Julho 07, 2009

Julgam que já viram tudo?:)))


video


:)

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Segunda-feira, Julho 06, 2009

***



Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Márquez,(Memórias de Minhas Putas Tristes - Pg. 74),visto aqui

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Domingo, Julho 05, 2009

7IM



1. Muitos amores começam pelo fim.
O meu começou pelo e-mail...

2. Aquele teria sido o sono mais longo de sua vida... não tivesse acordado dentro de um caixão a sete palmos da terra!

3. Todas as noites, antes de dormir, dava corda ao despertador.
Uma noite esqueceu-se do hábito.
Nunca mais acordou.

4. Só vivia para acumular dinheiro. De fato, um grande porco capitalista!
Seu fim, porém, foi triste.
Por conta de suas moedas, reduziram-no a cacos.

5. Atingira o fundo do poço. Desde então recusa as mãos estendidas em seu socorro.
O medo de uma nova queda lhe suplanta a vontade de se levantar.

6. Do medo do fogo, nasceu sua atração pela água; do desprezo pela vida, o interesse pela morte. Atração e interesse que explicam perfeitamente seu afogamento suicida.

7. O lugar era ermo; o buraco, fundo e escorregadio.
Sobrevivera à queda, mas era certo que ali morreria.
“Ao menos, não será de fome”, consolou-se, depois de constatar a companhia dos ratos.

Wilson Gorj, visto na Minguante

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Sábado, Julho 04, 2009

Amo-te como um planeta em rotação difusa



Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.

Daniel Faria

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

Poema da buganvília



Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra a vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso.

António Gedeão

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Quinta-feira, Julho 02, 2009

A felicidade



Aquele que abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Vi uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas que posso eu fazer com
uma palavra e uma mitologia.
As árvores metem-me um pouco de medo. São tão belas.
Os tranquilos animais aproximam-se para que eu lhes diga o seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro irrompem.
Ao folhear o atlas projecto a forma de Samatra.
Aquele que acende um fósforo no escuro está a inventar o fogo.
No espelho há um outro que espreita.
Aquele que olha o mar vê Inglaterra.
Aquele que profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas em que ambos
se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.
Aquele que desce um rio desce o Ganges.
Aquele que contempla uma ampulheta vê a dissolução de um império.
Aquele que brinca com um punhal pressagia a morte de César.
Aquele que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de construir.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, mas de maneira eterna.
Aquele que lê as minhas palavras está a inventá las.

Jorge Luís Borges, visto no Palavras D'Ouro

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Quarta-feira, Julho 01, 2009

Haiku LXXXV



Nevoeiro na praia-
lento expirar da espuma
de navios invisíveis.

Manuel Filipe, in"O Sol nos Olhos", pág.36, Apenas Livros Lda

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Terça-feira, Junho 30, 2009

Maresia



Sabes-me a maresia
Algas que se entrelaçam
Nos meus tornozelos
Búzios e conchas
Na areia húmida
Murmuram-me
Sons desfeitos
No ritmo da maré
Vazante cálida
Enquanto caminho
Sem saber por onde
Sem saber porquê
Gaivotas esvoaçam
São gritos que ecoam
Suplicantes doridos
Gotas em compassos
Salpicam-me
E afogo-me em ti
Um sabor salgado
Tão doce na minha boca
Como a ternura
Em que caminho.

Paula Raposo, in"II Antologia das Noites de Poesia em Vermoim", pág.86, J.F.V.

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Segunda-feira, Junho 29, 2009

Grita



Amor, quando chegares à minha fonte distante,
cuida para que não me morda tua voz de ilusão:
que minha dor obscura não morra nas tuas asas,
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro.

Quando chegares, Amor
à minha fonte distante,
sê chuva que estiola,
sê baixio que rompe.

Desfaz, Amor, o ritmo
destas águas tranquilas:
sabe ser a dor que estremece e que sofre,
sabe ser a angústia que se grita e retorce.

Não me dês o olvido.
Não me dês a ilusão.
Porque todas as folhas que na terra caíram
me deixaram de ouro aceso o coração.

Quando chegares, Amor
à minha fonte distante,
desvia-me as vertentes,
aperta-me as entranhas.

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -,
ajoelhado, eu te darei graças.

Pablo Neruda

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Domingo, Junho 28, 2009

***



"Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança."

Victor Hugo

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