sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Rasgo o Melancólico



Rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades

por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos

mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal

partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade

Al Berto

Foto:Piotr Kowalik

4 comentários:

Mocho Falante disse...

Querida Wind,

este é puxadote, quer na compreensão, quer na força, confesso que tive de o ler mais que uma vez para lhe retirar algum sentido, e acho que apenas o interpretei à minha maneira...só mesmo Al berto para escrever assim

Beijos doces

pikinina disse...

o Alberto é fodido, escreve bem mas td na escrita dele dói...n o leias mt qd tiveres em baixo...

bjinhuuu boooom amiigaaa

Paula Raposo disse...

Sublime poema de Al Berto!! Se eu soubesse escrever eu diria o que ele aqui diz...beijos.

Special K disse...

Bem melancólico mas mesmo sublime este poema do aAl Berto.
Bjks