terça-feira, novembro 30, 2010

Caleidoscópio



Tu e o Mundo
caleidoscópio
onde perscruto
enquanto posso
o que é fecundo
por trás do óbvio
Atrai-me o fluido
mais do que o sólido
Só me seduzem
na praia as rochas
na terra os muros
se acaso escorrem
de mar ou chuva
Que vale o bosque
sem o sussurro
das altas copas
De vulto a vulto
o que me empolga
é ver o fluxo
sentir as trocas
ou os conluios
do que se evola
E sobretudo
na luz nos olhos
de quem se busca
Assim tu própria
perante o Mundo
caleidoscópio
em que mergulho
Oh turva glória
Trago do fundo
pedras informes
cristais avulsos
Só te constroem
quando os destruo
Então de sólida
tornas-te fluida
Tal como a 'stória
do próprio Mundo
Divagas Vogas
em mar em chuva
líquido bosque
sob o sussurro
das altas copas
toda lacustre
enfim tão próxima
do que procuro
e me renova

David Mourão Ferreira

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segunda-feira, novembro 29, 2010

Beijo



Diz-me que o beijo
Exprime toda a essência viva e profunda
Da manhã
E diz-me que me queres assim
Planalto e mar
Dunas e luz
Diz-me do beijo que sentes de mim.

Paula Raposo, in"O Verbo Ser", pág.7, Apenas Livros Lda.

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domingo, novembro 28, 2010

Sting - Roxanne



PS:Desligar o som do blog no lado direito.

sábado, novembro 27, 2010

A filha mais velha dos evangelistas



Pergunto-me se a nossa também vai ser assim
(a biqueira rente aos lábios)
bota em cima da mesa
com pouco mais de dois anos já
pede águas minerais para
entornar
sobre a mesa. Pergunto-me se
a nossa também vai lograr atenção (os
dedos untando o casaco)
se vai rir dessas asneiras

vai parar de chorar quando o empregado trouxer
rebuçados de limão. E
têm
mesmo de ser de limão. Agora
que a içamos
entre mãos pela galeria e
a mãe se deixa atardar
tropeçando num suspiro
pergunto-me mais seriamente se a nossa
vai ser assim
se vai rir e chorar no tempo dos olhares certos
(se vai ser de fazer caras)
ou vai responder com piada e caretas impossíveis
às perguntas impossíveis.
Agora que
a mãe se atrasou e ficamos nós com a miúda
peço-te:
mais devagar. Espera pela primavera. Não
queria que os vizinhos nos vissem
sós
com a miúda que
nos dissessem sinceros que bem vamos com ela
( ou nos
chamassem de tolos por ter chegado tão cedo)
sobretudo que pensassem que
esta
que aqui levamos
entre nãos
já é nossa.

João Luís Barreto Guimarães

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sexta-feira, novembro 26, 2010

Axis of Awesome - 4 Four Chord Song (with song titles)



Que espectáculo!
Na Austrália, o grupo de humoristas Axis of Awesome provou, na base do gozo,
que quase todos os sucessos da música pop têm os mesmos quatro acordes musicais.
Com a mesma sequência, cantaram Beatles, Michael Jackson, U2, Lady Gaga, Bob
Marley e muitos outros.

PS:Recebido por email.

PS2:Desligar o som do blog no lado direito.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Chuva



Ergue-te ó chuva
nos olhos das manhãs
inquietantes de deus

reflexo indecifrável
esculpido no tempo
estala entre
o imenso consolo
das nossas poderosas emoções
e o pavor que trazemos
aos gritos no crepúsculo
de ti debruçada
sobre os campos
sobre a fome

ergue-te
acende no olhar
a carícia das flores
encantada janela de deuses
voltada às estrelas
de onde caem nenúfares
camélias flores de papel...

sentes-te só
miraculosamente viva
corajosa recordas em silêncio
a piedade que resta
aos espíritos da água
misteriosos como pingos
preciosos cintilantes
na angústia humilde
da transformação

deixai falar a alma
transfigurada adormece a chuva
nos olhos inquietantes de deus

vulto cinzento de sombras
a tua valiosa máscara
esconde no nevoeiro pálido
o martírio a graça o corpo
de quem se despe de vida

ergue-te ó chuva
em gemidos
escavas e beijas as fontes
buscas os olhos de deus
indo sozinho anseia
em teus braços molhados adormecer...

redimido em
cristalinas lágrimas
onde navegaram
ensombrados os meus sonhos
de rir de cruzes de batalhas

és a sombra desenhada
pelas águas tuas
num jardim desfeito
de tanta ilusão incompleto
ergue-te ó chuva!

Henrique Levy

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quarta-feira, novembro 24, 2010

A recusa das imagens evidentes



I

Rosa que só tens nexo
Fora da tua imagem:
Aqui és só reflexo
Do universo unido
No instante florido
Que ofereces aos que te olham,
Sem te ver, de passagem.

II

Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.
.
Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.

III

É um outono que não é outono.
Tampouco a estação por que se espera
Na dor de nos deixarern ao abandono
As ninfas que são flores na primavera.
.
No entanto nas coisas o segredo
De uma só alma põe a sabedoria
Dando à terra repouso no arvoredo
De que o cedro é a sagrada biografia.

IV

Há noites que são feitas dos rneus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca forarn feitas.

Há noites que levarnos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
A mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.

V

Há um cipreste que se dissimula
No dia que nos leva pela mão.
E entre brasas de sol que ardem na rua
Uma pomba que faz de coração.
.
Voa: uma linha recta para a lua
Em sonhos que nos levam de balão.
Perversidade de uma paz futura
Onde só chegaremos de caixão?

E nada nos recorda esse futuro
Escondido atrás das nuvens que trouxeram
Ao nosso rosto os olhos prematuros
Das órbitas reais que nos esperam.

Natália Correia

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terça-feira, novembro 23, 2010

Se o vento é a ignição



Se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina.

Valter Hugo Mãe

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segunda-feira, novembro 22, 2010

Ode ao burguês



Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar... _ Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

Mário de Andrade

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domingo, novembro 21, 2010

sábado, novembro 20, 2010

Pequenas coisas



Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins

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sexta-feira, novembro 19, 2010

O amor



É uma coisa que desliza
por cima das lagoas
que corre pelos campos sem sentido
que empurra o vento
e apruma o sol no solstício
que derruba a bruma e fecha o horizonte
que nos faz ver de noite e de dia cegos
tacteando o ar sem provimento
que dá o movimento aos astros
e às sombras infinitas
que abre o mar por onde os escravos passam
e ficam livres sem saber
é a cascata que nos dilui
e lança na corrente sem perfídia
até ao oceano dos sentidos
é o iceberg que se funde
e derrota os titanics
que passam solitários pelas albas
é o assombro da manhã
o cantar dos ralos nas searas
o despertar das aves e rebanhos
o charco onde crescem amarelo e roxo
as flores da primavera

é só eu e tu
como nas novelas

Henrique Ruivo

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quinta-feira, novembro 18, 2010

Como as espigas



Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-lhes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.

Albano Martins

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quarta-feira, novembro 17, 2010

Quem és tu



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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terça-feira, novembro 16, 2010

Dardos:)



A Maria de Fátima ofereceu-me este selo e estou-lhe bastante agradecida.

Vou oferecê-lo a:

Fatyly

Observador

Xanax

As minhas romãs

Itinerário

E a quem o quiser pegar.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Não é música



Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.

José Agostinho Baptista

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domingo, novembro 14, 2010

Cascatas



São cascatas azuis
fabris
Desejos e sonhos
Cumpridos

A minha distãncia
Algures na planície
Ondula no vento
E sorri-te

Magnífica
E deslumbrante
Cativando
Sempre um pouco mais
O teu olhar

Sobre nós as flores.

Paula Raposo, in"O Verbo Ser", pág.35, Apenas Livros Lda.

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sábado, novembro 13, 2010

Aconteceu-me



Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros

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quinta-feira, novembro 11, 2010

Um cigarro



Um cigarro
ninguém tem
um cigarro?
um copo de vinho
um amor perdido
uma causa iludida
uma angústia a mais?
alguém quer trocar
de veias
de sangue
de coração
de pulmões?
um cigarro
ao menos
ninguém tem
um cigarro?

Carlos Alberto Machado

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quarta-feira, novembro 10, 2010

Sobre a pintura de um ramo florido:"Primavera Precoce" de Wang



Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?

Su Dong Po

Pintura:Zhao Chang (Séc.XI)

terça-feira, novembro 09, 2010

Submersa



Vesti um iceberg
E camuflei-me
Misturando-me no mar.
Fui búzio e concha,
Ostra e alga.
Mergulhei num mundo
Submerso,
Sob uma maquilhagem
Insuficiente e desastrosa,
Penando dilúvios
E afogando-me no temporal.

Paula Raposo, in"O Verbo Ser", pág.24, Apenas Livros Lda

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segunda-feira, novembro 08, 2010

Um Amigo



Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

Eduardo Bettencourt Pinto

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sábado, novembro 06, 2010

Descobrimento



Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados

Sophia de Mello Breyner Andresen

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sexta-feira, novembro 05, 2010

Coração Polar



Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre

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quinta-feira, novembro 04, 2010

O valioso tempo dos maduros



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário Pinto de Andrade (Angola)

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quarta-feira, novembro 03, 2010

Estou escondido na cor amarga do fim da tarde



Estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento.

Valter Hugo Mãe

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terça-feira, novembro 02, 2010

Estrelas



Encosta a cabeça
a estas nuvens
acariciadoras
em seguida
dorme
deixa a tua melancolia opaca
de planeta
bailar na praça do sonho.
Deixa as estrelas desta noite
serem só
o antigo
cântico dos bosques
e os teus versos
os rios
que atrás ficaram a brilhar.

João Martim

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segunda-feira, novembro 01, 2010

Sistema socializado de saude




PS:Desligar o som do blog no lado direito.