quinta-feira, novembro 04, 2010

O valioso tempo dos maduros



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário Pinto de Andrade (Angola)

Imagem retirada do Google

7 comentários:

Paula Raposo disse...

Como eu concordo! Também já me faltam muito poucas cerejas...
Beijos.

Amélia disse...

Fiquei com dúvidas- este Mário de Andrade é o poeta brasileiro do Modernismo, autor, entre outros, de Macunaíma? É que pela linguagem e assunto parece-me de um outro Mário de Andrade. Terei razão ou estarei errada?Pode esclarecer-me?

Amélia disse...

Não precisa já de responder, pois sei já que é de outro -fiz busca pelo título no google -Mário Coelho Pinto de Andrade,angolano( e líder nacionalista)

Recolhi esta informação em http://forum.angolaxyami.com/angola/8210-pequena-biografia-de-mario-coelho-pinto-de-andrade-um-dos-fundadores-do-mpla.html

Observador disse...

Está tudo dito.

Cerejas?
Hummm, venham elas!

Bj

Fatyly disse...

Identifiquei-me com esta prosa poética, não fosse eu angolana, descomplicada, optimista e sempre fiz da minha vida um:

"Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"

Um grande poeta e escritor, embora não fosse e não sou concordante com as suas ideologias políticas, embora saiba que o MPLA de agora não é o mesmo de há 30/40 anos:)

ADOREI!

Beijocas e um bom serão

wind disse...

Quando coloquei este poema, que me foi enviado por email por uma amiga, não sabia qual a ideologia política do poeta.
Só depois fui pesquisar.
Mas isso não me interessa.
Gosto do poema e só isso é que importa:)

Fatyly disse...

Wind
Tal e qual mas sendo eu "dos terra dêre" pensei logo nos seus ideais políticos:):):)