quarta-feira, abril 06, 2011

Eu vinha por um pouco de vida



Eu vinha pela frescura da seda,
pela promessa da água na tua boca
limpa como um alvéolo, como uma fonte.
Eu vinha pela hospitalidade dos teus braços
abertos sobre as dunas, sobre as camas,
sobre a areia macia das paixões furtivas.
Eu vinha pela sede e pela aventura,
com a desabrida idade dos corsários,
dos animais enleantes ziguezagueando
pelo meio dos juncos e das pedras.
Eu vinha pela desordem dos planetas
no meu livro dos mistérios do céu,
no meu mapa dos assombros da alma.
Eu vinha pelo doce veneno de uma língua
semeando no meu corpo os sinais da perdição.
Eu vinha com o sal nos olhos, ardendo
com o lume a queimar-me a fala
e pedia à água para ser chuva
e à chuva, num repente, para ser mar.
Eu vinha por um pouco de vida, só um pouco,
no tumulto da minha existência de papel.

José Jorge Letria

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Fatyly disse...

Um tumulto de emoções apelativas na conjugação do verbo vir! Ilusão...papel!

Não conhecia!

Beijocas e um bom dia

Observador disse...

Lindo!

Grande José Jorge Letria.

Paula Raposo disse...

Este poema é absolutamente fascinante!! Adorei!
Beijinhos.

Naty e Carlos disse...

Milagre é tudo aquilo que enche o nosso coração de paz.
Paulo Coelho
Bjs com carinho Naty