segunda-feira, novembro 26, 2007

Soneto



Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

Foto:Elena Vasilieva

PS:O Soneto é repetido, mas apeteceu-me:)

1 comentário:

Paula Raposo disse...

Ary dos Santos podes repetir. Jamais cansa. Eu leio-o como se fosse sempre a primeira vez. Beijos.