segunda-feira, outubro 30, 2006

Tarde Em Itapuã



Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-iris no ar
Depois na praia Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E uma esteira de vime
Beber uma água de côco

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doura
Com uma cacha de rolha
E com olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda a rodar

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
É o diz-que-diz-que macio
Que brota dos coqueirais
E nos espaços serenos
Sem ontem nem amanhã
Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Vinicius de Moraes / Toquinho

Imagem daqui

A day and a day



Dois ou três cancros de que
vais sabendo «há pouco a fazer»),
o amigo maior de um amigo
brutalmente esmagado debaixo
de um camião. Não, não está a ser
propriamente um Inverno de contentamento.

O corpo já quase não responde
a tanta tristeza. E a casa, devagar,
fecha-se para dentro, implode. Parece
um coração, uma metáfora que te deixa
nos ombros um irrepetível cheiro a merda
e a sombra de um gato que vai morrer.

(«É a vida», deve pensar sem cérebro
- mais feliz - o teu companheiro
de jantar. Já lhe chamaste silêncio,
mas ninguém se chama assim,
ferindo o preto e branco da memória.
Assoa-se, pelo contrário, ao guardanapo
sujo de tinto da casa e acena-te com caspa
da sua vaga imortalidade. Na outra mesa, dois
corpos sussurram o inevitável calão do amor,
Muita gente, afinal, cabe neste mundo.

Da porta do bar saem depois alguns
engates e avós calcinadas
à terceira caipirinha. Um preto de óculos
que bebeu de mais acaba espancado
no passeio, sob o fervor policial do costume.

Custa ver - a vida, outro bar vazio,
sem quadros, onde beijas a ausência,
tudo o que perdidamente desamas
e não vale a pena e se dissipa sem pressa
no copo de cicuta cuja razão desconheces.)

É possível que Joachim Bernhard Hagen
tenha sido um exímio tocador do instrumento
que às vezes preferes. É um modo de acordar,
no fundo, e de perceber na pele a inutilidade
da manhã, os gestos que não serão ainda
esse amplo terreno de morte
- que depois
circunscreves a um poema
e não voltas a dormir. Odeio-te.

Manuel de Freitas

Foto: Andrzej Dragan

O camelo e a música



Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando
o crepúsculo, às vezes, choram.
Mas agora está aí esse filme "Camelos também choram".
A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos
soltam gemidos e berros dilacerantes.
Mas quem mata galinha no interior nunca relatou ter visto
lágrimas nos olhos delas.
Contudo, esse filme feito sobre uma comunidade
de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia,
mostra que os camelos choram, mas choram não diante
da morte, mas em certa circunstância que faria chorar
qualquer ser humano.
E na platéia, eu vi, os não camelos também choravam.
Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza
do asfalto e a indiferença dos muros e vitrinas;
para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais,
e, por conseqüência, conosco mesmos,
testemunhar com aquela bela família de mongóis o nascimento
de um filhote de camelo e sua relação com a mãe
é uma forma de reencontrar a nossa própria e
destroçada humanidade.
É isto: eles vivem num deserto.Terra árida, pedregosa.
Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira,
que podem ser montadas e desmontadas.
Lá fora um vento permanente ou o assombro do silêncio
e da escuridão.
E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem
e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil
de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita.
O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas,
querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar
outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe
na seca paisagem. A família mongol e vizinhos tentam forçar
a mãe camela a alimentar o filho. Em vão.
Só há uma solução, diz alguém da família,
mandar chamar o músico.
Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar
um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão
a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre,
mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e,
na escola de música, dentro daquele deserto,
jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte
brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia
chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento
de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna.
Chega.E ali no descampado, primeiro coloca o instrumento
com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela.
A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger
as cordas do instrumento. A natureza por si mesma harpeja
sua harmônica sabedoria. A camela percebe.
Todos os camelos percebem uma música
reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça,
aguçam os ouvidos, e esperam. A seguir, o músico retoma
seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela
afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam,
a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente
para suas tetas. E o filhote antes rejeitado e infeliz,
vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz.
E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra
em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras
dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza
se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada,
o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na platéia, olhamos aquilo estarrecidos.
Maravilhados.
Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício
de sua milenar sabedoria. E nós que perdemos o contato
com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa
ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical.
Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez,
a hipocondria e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida
se consubstancia no universo com o primeiro som audível
-um Ré bemol e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que
o universo era uma partitura musical,
que o intervalo musical entre a Terra e a Lua
era de um tom e que o cosmos era regido
pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto.
Os camelos também.
Mas nós, os pós-modernos cultivamos a rejeição,
a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto:Francisco Castelo

domingo, outubro 29, 2006

Namoro



Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim

Viriato Cruz (Angola)

Imagem daqui

PS:Este post foi feito propositadamente por causa de um comentário do meu "Vizinho" Claudynius:)

PS2: Quem estiver interessado pode ver aqui autores africanos.

Poemas para a Amiga (Fragmento 4)



As vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste
e nunca o saberias.

Sozinho a sós contigo
em mim mesmo eu te criava,
em mim te possuía

De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei
e nunca o saberias

Contudo, em paz
eu recebia o carinho,
compungindo o recebia,
tranquilo em meu silêncio
e tão tranquilo e tão sozinho
que calmamente eu consentia:
- que ainda que muito me tardasse
mais ainda, um outro tanto, eu sempre esperaria.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto:Paul Bolk

sábado, outubro 28, 2006

Valsinha



Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.

Vinícius de Moraes/Chico Buarque

Imagem retirada daqui

PS:Este poema já aqui foi editado, mas hoje deu-me uma saudade:)

O insecto



Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centímetros queimados,
pálidas perspectivas.

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

Pablo Neruda

Foto:Stanmarek

sexta-feira, outubro 27, 2006

Perfume da Rosa



Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?
— Ninguém? — Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem te pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem te pintou?
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada...
— Era de prazer ou dor? –
Mentiste, rosa, és amada,
E tu também tu amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.

Almeida Garrett

Foto:Stanmarek

Soneto de Áspera Resignação



Não me digas segredos nessa voz
em que dizes também o que não dizes.
Fica o silêncio ainda mais atroz
depois de entremostradas as raízes.

Prefiro que não digas nada, nada.
Que não sejas arbusto nem canção,
mas sombra entreaberta, recortada
por um lívido e breve coração.

Já que não podes dar-me o que eu sonhara
- inteireza de ramos e raiz -,
ao menos dá-me, intacta, a sombra clara
onde se esbatam vultos e perfis.

Pois nesta solidão melhor é ter
a sombra que um segredo de mulher.

David Mourão-Ferreira

Foto:Elena Vasileva

quinta-feira, outubro 26, 2006

O Amor e o Mar-2



Contemplar o mar é contemplar uma longuíssima censura,
humedecer os olhos com palavras que o tempo não destrua
e dispor-se a suportar o peso amargo dos anos.
Ouvir o mar é ouvir uma antiquíssima linguagem.
A sua espuma é a vertigem, a vã transparência
que enlouquece de amor os amantes.
Deste-me os olhos para ver a transparência
porque o mar é também uma longuíssima carícia.
Soube-o em prolongadas tardes de silêncio e dilacerante abandono,
tardes em que o amor e a solidão não eram apenas duas palavras
mas sim uma vasta paisagem que só admitia a tua presença.

Para chegar a ti tropecei muitas vezes.
Noites inteiras contando um a um os teus cabelos,
beijando com devoção a ponta dos pés, imaginando
o teu rosto no rosto de todas as mulheres, a tua voz
em centenas de bocas e lábios inúteis.
A tua voz é a voz do mar, a voz que me chama de dentro
com o seu abismo e as profundidades
com os seus peixes e as suas ondas e as suas ilhas desertas.
É o teu corpo
o que me chama e me redime do erro.

Para chegar a ti tropecei muitas vezes.
noites inteiras a pronunciar um nome, e era o teu.
Noites inteiras a acariciar um corpo, e era o teu.
Anos e anos a arrancar com paciência as penas de uma ave
para caminhar sem rumo até uma porta
sem saber que tu eras essa porta.
O antigo silêncio que ainda me fala entre as ondas.

Eduardo Chirinos

Foto:Stanmarek

Morreu ao amanhecer



Noite de quatro luas
e uma única árvore,
com uma única sombra
e um único pássaro.

Busco na minha carne as
pegadas de teus lábios.
Beija a nascente o vento
sem o tocar.

Levo o Não que me deste,
sobre a palma da mão,
como um limão de cera
quase branco.

Noite de quatro luas
e uma única árvore.
Na ponta de uma agulha
está meu amor – girando!

Frederico García Lorca

Foto:Zeca - The Knight of the Old Code

quarta-feira, outubro 25, 2006

Poemas para a amiga (Fragmento 3)



É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.

Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.

E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te,
e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto:Michael Vahle

terça-feira, outubro 24, 2006

Dá-me o tempo



Deita-te em mim,
Descobre onde estás,
Escuta o silêncio,
Que o meu corpo te traz.
Não me deixes partir,
Não me deixes voar,
Como um pássaro louco
Como a espuma do mar.

Sente a força da noite
Como facas no peito,
Como estrelas caídas
Que te cobrem o leito.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.

Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti, morrer por nós.

Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
Perdidos no quarto
Sem dizermos adeus.
Adiamos a noite,
Balançamos parados,
Pela última vez
Os nossos corpos colados.

Sente a força que temos
Quando estamos assim,
Um segundo é o mundo
Que nos separa do fim.
Porque tens de partir
Quando há tanto a dizer?
Eu não sei começar,
Não te quero perder.

Refrão

(Eu gosto das formas que tomas,
Como o toque do cristal,
E dos vidros, dos poemas,
Da febre do metal)

Pedro Abrunhosa

Foto:Stanmarek

Era o último amor



Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem adivinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi Verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Luís Filipe Castro Mendes

Dedico este post a todos os que já amaram alguém e foram pura e simplesmente abandonados, quando mais precisavam do(a) outro(a).
Aos que só pensaram neles e se borrifaram no outro(a), faço isto:



Fotos:Elena Vasileva

segunda-feira, outubro 23, 2006

Folhetim



Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim

E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis

Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim.

Chico Buarque

Foto:Andriete Paris Marques

poemas para a amiga (Fragmento 1)



Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.

Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.

Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.

Por isto é que te sinto
com tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.

Affonso Romano de Santa'Anna

Foto:~triss (Dobrochna Babijew), retirado daqui

domingo, outubro 22, 2006

Credo



Creio no Homem todo-poderoso
Inventor da pastilha elástica
Do Prozac, do soutien sem alças
Do colchão de água, do preservativo
Do silicone e do airbag.
Creio na Maria sempre virgem
Hímen reconstruído
Inseminação artificial
Cesariana com epidural
Mãe sem pecado
Virgem e original
Como se nunca fora tocada.
Creio no homem novo
Que nasceu Manel e é Maria
Pénis removido por cirurgia
Sexo novo e funcional
Implante mamário e labial
Tudo no sitio e operacional.
Creio no Homem
Criador de todas as coisas
Das maiores às mais pequenas
Das divinais às obscenas
Porque a todas o homem quer
Hoje e para sempre
Ámen.

Encandescente, daqui do seu Site

Foto:Éric Bottero

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

Foto:Yuri B

PS:Faz hoje dois anos que nasceu o Webclub. Iniciou-se com este poema, no ano passado comemorei com o mesmo e este ano aqui está ele de novo:)
Antes de criar o Webclub, dediquei-me só a comentar durante 8/9 meses, na altura, os blogs do sapo.
Só à custa de muita insistência de outros bloggers, criei coragem para finalmente ter o meu blog. Muitos deles já desapareceram, outros cortámos relações e alguns continuam.
Eu aqui continuo devagarinho, com altos e baixos. Quero agradecer publicamente a uma amiga, que foi a primeira pessoa a trazer-me para este mundo, onde culturalmente me enriqueci a ler belos poemas e a pesquisar durante horas nestes anos.
Para ela, que se ler sabe quem é, um grande abraço e um beijo enorme.


PS2:A Pandora nos comentários recordou como nasceu a ideia do Webclub:

"Bom dia!
E muitos parabéns pelo aniversário :)

Esqueceste contar como surgiu o nome, quando olhávamos para a porta do WC no restaurante, e toda a gente insistia imenso ctg para passares das tuas gargalhadas nos comentários para a escrita efectiva num blog de tua autoria... foi tão divertido esse jantar! E em muito boa hora insistimos :)

Beijos grandes pra ti, querida Isabel, da tua São. LoveU."

Este jantar foi o primeiro onde fui (de bloggers), realizado pelo ZecaTelhado, agora Zeca da Nau em Setembro de 2004.

sábado, outubro 21, 2006

Búzio



Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração enche-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.


Frederico García Lorca

Imagem daqui

Venha Acordar-me



Não me espere, amor,
venha buscar-me
pois que a aurora
em breve
pode se acabar.
A vida é curta
eu estou sozinha
cansada de sonhar.
Não me espere, amor,
venha acordar-me
quero correr na areia
viva e solta
o céu alcançar
em suas mãos
rejuvenescida
por seu olhar.
Não me espere, amor,
venha depressa
viver comigo
as noites
madrugadas e dias
pois que nosso tempo
deve ser vivido
feito de alegrias.

Célia Lamounier de Araújo

Foto:Elena Vasileva