segunda-feira, dezembro 11, 2006

Poetas Escolhidos-Acordar na Vida



Breve encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O nome das coisas", pág.37, Edições Caminho

O Deus da dança

Um deus da dança ergueu-se, num volteio,
Um fruto ao sol,
Entre gritos de alegria;
A luz na face,
Sem nuvens de permeio,
Desce do céu, renovando as cores do dia.

O turbilhão corre solto, na campina,
Um frémito sacode a haste das espigas…

No ar doirado, onde tudo se ilumina,
Voam fragmentos de flores,
De cantigas…

Manuel Filipe, in "Poemas de Manuel Filipe", pág.146, Edição de Manuel Filipe

Acordar

Quando o sol se levantou ainda eu dormia.
Um raio de sol ficou preso na persiana
E picou-me os olhos até eu acordar
Só por volta das dez me levantei e abri a janela
E soltos, raio e sol subiram alto no céu.
Se eu não acordasse às dez da manhã
As coisas do mundo não tomariam o seu lugar.

Encandescente, in "Palavras Mutantes", pág.33, Edições Polvo

In Sofrimento
2.


Uma palavra dorme em seu casulo
De saliva lavrada
Está viva porém muda
E anulada.

Uma palavra hiberna em seu conteúdo
Seu buraco de som seu palácio de letras:
Bela Adormecida à espera de que tudo
Volte a acordar nos poetas.

José Carlos Ary dos Santos, in "Obra poética", pág.202, Edições Avante

Foto:Maury Perseval

Agarra-me esta noite



Onde estiveres, eu estou
Onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres assim
Meu corpo é o teu mundo
E um beijo um segundo
És parte de mim

Para onde olhares, eu corro
Se me faltares, eu morro
Quando vieres, distante
Solto as amarras
E tocam guitarras
Por ti, como dantes

Refrão
Agarra-me esta noite
Sente o tempo que eu perdi
Agarra-me esta noite
Que amanhã não estou aqui.

Pedro Abrunhosa

Roubado descaradamente daqui do excelente blog do Porto Croft:)

Foto:Gabriele Rigon

Quando o luar caiu



Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.

As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.

Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.

As pedras crescem como ondas
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.

Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.

Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.

E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.

Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.

Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.

Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)

Foto:Howard Schatz

domingo, dezembro 10, 2006

"Cabron!"



Morreu mas não pagou pelos crimes que cometeu.
Os Deuses devem estar loucos!


Imagem daqui

Recebido por mail ( Ai este português...)



"O jogador da equipa visitada, "X", desmandou-se em velocidade
tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante.
Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio
à utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu. O jogador
"X" procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à
prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o
desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se,
destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior
direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe. Derivado a esta
atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva."*

*Extracto (verídico!) do relatório dum árbitro relativo à
apresentação do cartão amarelo ao jogador "X" do Clube "Y".

PS:É raro colocar textos recebidos por mail, mas este seja verdadeiro, ou não, é digno de se ler:)
Claro que no mail vinham os nomes, só que coloquei "X".


Imagem daqui

Envelhecer



Quanto mais envelhecia,
quanto mais insípidas me pareciam
as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia
onde eu deveria procurar a fonte
das alegrias da vida.

Aprendi que ser amado não é nada,
enquanto amar é tudo.

O dinheiro não era nada,
o poder não era nada.

Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder,
e mesmo assim era infeliz.

A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos,
infelizes, apesar de sua beleza.

Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.

Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam angustiados
pelo medo de sofrer.

A felicidade é amor, só isto.

Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

Hermann Hesse

Tela:René Magritte

Eu te amo?



O que digo quando digo que te amo
de que amor falo ao falar de amor assim
se no fundo nem sei mesmo se te amo
e em te amando temo não amar-te assim
o que existe atrás de um simples eu te amo
que transforma num segundo tudo assim
de que lume é feito um fátuo eu te amo
que ora é fogo ora é geleira dito assim
faz-se efêmero o dizer-te eu te amo
desprovido de sentido quando assim
proclamando o tempo inteiro que te amo
banalizo o verbo amar se o digo assim
e entretida a repetir quanto eu te amo
já não sei se esse eu te amo ama-te assim.

Poema:Márcia Maia

Foto:Maury Perseval

Asas



Asas servem para voar
para sonhar ou para planar
Visitar espreitar espiar
Mil casas do ar

As asas não se vão cortar
Asas são para combater
Num lugar infinito
para respirar o ar

As asas são
para proteger te pintar
Não te esquecer
Visitar espreitar-te
bem alto do ar

Só quando quiseres pousar
da paixão que te roer
É um amor que vês nascer
sem prazo, idade de acabar
Não há leis para te prender
aconteça o que acontecer.

GNR

Foto:Eric Richmond

sábado, dezembro 09, 2006

Poetas escolhidos-Tempo



Amanhã II

Espero sentada nas horas
Mas escondem-se nos minutos
As respostas.
E as perguntas adiadas
A que o tempo não responde
Todas juntas são o tempo
O futuro
Amanhã.

Encandescente, in "Palavras Mutantes", pág.9, Edições Polvo

Apesar

Apesar do lento olhar,
do andar lento,
fatalmente correremos,
contra o tempo.

Manuel Filipe, in "Poemas de Manuel Filipe", pág.97, Edição Manuel Filipe

Breve Encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve enconto com a vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome Das Coisas", pág.37, Edições Caminho

O Relógio

Pára-me um tempo por dentro
Passa-me um tempo para fora.

O tempo que foi constante
No meu contratempo estar
Passa-me agora adiante
Como se fosse parar.
Por cada relógio certo
No tempo que sou agora
Há um tempo descoberto
No tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
Passa-me o tempo para fora.

José Carlos Ary dos Santos, in "Obra Poética", pág.162, Edições Avante

Foto:Yuri B

A cidade



Dizes: "Vou para outra terra, vou para outro mar.
Noutro lugar, melhor cidade há­‑de haver certamente.
Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente
E - como morto - o coração sepultado aqui me jaz.
Por quanto tempo há­‑de ficar minh'alma em tão podre paz?
Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi
Ruínas negras desta minha vida aqui,
Que tantos anos eu gastei a estragar, a dissipar."

Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares.
Vai­‑te seguir esta cidade. Ruas vais percorrer,
serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás­‑de viver,
nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.
Hás­‑de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.
Para outro lugar não há navio ou caminho
e estragares a vida tu neste cantinho
é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.

Konstantinos Kavafis

Foto:Yuri B

Jacques Brel-Ne me quitte pas


Porque adoro esta música.
Porque ele cantava com a alma.
PS:Desliguem por favor o som do blog para ouvirem esta beleza:)

Mudo tudo



Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito com tantos
dias vagos.

Maria Teresa Horta

Foto:Gianni Candido

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Surpresa:)

E porque os amigos são importantes, apetece-me deixar aqui este pôr do sol da artista "poeta" da fotografia:)

Se eu pudesse guardar os teus sentidos



Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...

Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...

Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...

Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.

Reinaldo Ferreira

Foto:Stanmarek

Na hora em que o poente escurece as minhas pálpebras



Na hora em que o poente escurece as minhas pálpebras,
só um secreto rumor me diz, que o meu corpo principia
na inclinação do silêncio: íntimo, profundo, confissão
de si próprio, espaço onde, desamparadas, as pernas
se desinibem e guardam, inquietas, a rotação da lua
nos meus olhos.

Graça Pires

Foto:Maury Perseval

Beautiful



Every day is so wonderful
And suddenly, it's hard to breathe
Now and then, I get insecure
From all the pain, I'm so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can't bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can't bring me down
So don't you bring me down today

To all your friends, you're delirious
So consumed in all your doom
Trying hard to fell the emptyness
The peace is gone, left the puzzle undone
Is that the way it is?

You are beautiful no matter what they say
Words can't bring you down
You are beautiful in every single way
Yes, words can't bring you down
So don't you bring me down today...

No matter what we do
(no matter what we do)
No matter what we say
(no matter what we say)
We're the song inside the tune
Full of beautiful mistakes

And everywhere we go
(and everywhere we go)
The sun will always shine
(sun will always shine)
But tomorrow we might awake
On the other side

'Cause we are beautiful no matter what they say
Yes, words won't bring us down
We are beautiful in every single way
Yes, words can't bring us down
So, don't you bring me down today

Don't you bring me down today
Don't you bring me down today

Canta:Christina Aguilera

Foto:Wind

Porque me deu saudades...:)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Jogo



Eu, sabendo que te amo
E como as coisas do amor são difíceis
Preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice

Foto:Paul Bolk

Nua



Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...

Isabel Machado

Foto:Stanmarek

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Passemos, tu e eu, devagarinho



Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.

Reinaldo Ferreira

Foto:Joris Van Daele

PS:A Jacky fez anos no dia 4. Como na altura não lhe pude dar os parabéns, aqui estão:)





PS2:Peço desculpa mas devido a medicação ainda não consigo comentar todos, mas leio-vos:)

sábado, novembro 18, 2006

A descoberto

Estava tudo (aparentemente) bem.

De repente, abate-se a tempestade sobre a nossa casa e ela cai. Ficamos a descoberto, sem janelas por fechar, nem paredes que nos protejam do exterior. As gotas que caem do céu misturam-se com as lágrimas da nossa desolação. Os ventos do Norte enregelam uma alma que já habitava em pleno Inverno. Pedrinhas de saraiva (granizo para o pessoal do Sul ;)) martelam-nos a cabeça nas vozes daqueles que só sabem dizer: - Eu avisei-te!Uma casa caída demora a reerguer-se. Todos os dias, coloca-se um tijolo. Demora dias e dias, meses, às vezes, até anos. A casa já tinha brechas mas não tínhamos reparado. É preciso reconstruir, não do nada (isso é apanágio das casas novas); mas sim, por cima do velho, modificando o que estava errado, demorando o que for preciso para adaptar a experiência à crise.

Enquanto a casa vai crescendo, chega a Primavera. Ficamos deitados nas noites amenas, de barriga para cima, inventando histórias inspiradas sobre as formas das nuvens. Já há partes da casa com telhado provisório. Tijolo a tijolo, telha a telha, a vida vai-se construindo sobre uma nova realidade, um desejo novo de tranquilidade, sem brechas nem janelas fechadas.

Um dia, a casa estará pronta com a ajuda de quem esteve por perto, com a alegria própria do Verão com a porta ora aberta ora fechada. Não será jamais uma casa definitiva. Aprendemos a lição: eterno só mesmo o tempo…

Para a wind que ainda está na fase das pedrinhas de granizo (e vai estar uns dias sem escrever no webclub) e para todos aqueles que estão agora a reconstruir as suas casas, com um abraço de amorizade da Jacky!