terça-feira, março 22, 2011

Um ponto



Um ponto - talvez um centro
em permanência de tranquilidade
para a noite inteira. Um ponto
extremo interno. Um pequeníssimo ponto
invulnerável
de estabilidade total
- nascido como? - fruto do espaço limpo,
de aberta aderência livre, desocupada,
do descanso de ser até ao fundo simples,
de completa entrega?

Um ponto nu inabitado branco
de intocável serenidade,
fixo como um nervo e imponderável,
de fim inicial,
ponto de respiração,
clareira de estar,
abertura central viva,
praia de ser e nada
- mas apenas um ponto, um puro ponto
contra a noite inteira,
contra o frio,
contra a destruição.

Ponto de união
de paz coextensa à noite,
opaco e diáfano nó
de desenlace perfeito.

Nó de água
da água mais nua.
Ninho interno do espaço.
Pequena lua essencial
num horizonte de segura paz.

Ponto, em ti descanso,
certeza do mundo e de mim
em ti, dentro da noite,
atinjo o equilíbrio actual e puro.
Ponto, antes do início,
de ti a ti, em mim,
pulsação lisa e leve,
suave motor da terra,
a pacífica respiração do óasis.

Ponto
de universo fixado
onde atingi a consistência dócil
de permanecer entregue,
plenitude,
plenitude abrigada
na navegação nocturna.

Um ponto vazio,
plenamente vazio.

António Ramos Rosa

Imagem retirada do Google

3 comentários:

Observador disse...

Vou conhecendo António Ramos Rosa pelo teu blogue.
E tenho gostado.

Bj

Fatyly disse...

Bem escolhido e foi tão bom reler:)

Beijocas

Paula Raposo disse...

Muito belo! Sempre.