segunda-feira, março 14, 2011

Não desisti de habitar a arca azul



Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo,
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de lonquínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.

António Ramos Rosa

Imagem retirada do Google

2 comentários:

Fatyly disse...

A sensualidade deste poeta é deslumbrante. Gostei imenso!

Beijocas

Observador disse...

Um António Ramos Rosa de que tanto gostas e que tão mal conheço.

Leio e gosto.
Não será isso que se pretende?

;)