terça-feira, agosto 31, 2010

O Haiti somos nós



Todos os furacões açoitaram o Haiti!!
E o Haiti é o nosso paradigma de liberdade!
Todos os ditadores devastaram o Haiti!
E o Haiti é nosso exemplo de iluminismo!
Espelho de Bolivar e admiração de Washington!
Todos os terremotos abalaram o Haiti!
Alejo Carpentier sabia ser ali, sem dúvida,
"el reino de este mundo", a Bastilha da América!
Reflexos, vestígios de uma herança maldita.
Devemos manipular magicamente
os elementos, para exorcizá-los. Vudú.
Diante das imagens terríveis dos destroços,
vêm as perguntas de respostas já sabidas!
De horror, de indignidade, de indiferença.
Diante das imagens terríveis dos escombros,
a mesma pergunta que o Papa fez
quando visitou os campos de extermínio:
"Onde estava Deus?" Onde estamos nós?!

António Miranda

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segunda-feira, agosto 30, 2010

As andorinhas



Vi-as levantar
e partirem em direcção
ao Sul

molhadas apenas
por uma luz muito alta e límpida
essa água quase rasante
do amanhecer

Voltarão com a Primavera
com o pranto
das últimas chuvas
o cheiro das primeiras flores

quando o ar
se esclarece e é uma cortina aberta
transparente e lavada

quando já nada resta
senão a memória breve
da sua partida

porque só elas partem
e só elas regressam

só elas escrevem o tempo
que sem cessar
se escoa
irremediavelmente

Luís Serrano

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domingo, agosto 29, 2010

Fotografia



Pela janela aberta
a aragem
e o som de pássaros
e folhagem
na tarde que se evola

o sol toca-te a pele
suavemente

o olho da objectiva
percorre ângulos e círculos

procura o centro exacto
que não é o corpo
nem a cadeira
nem as arestas vivas da janela
por onde o sol e o som entram

detém-se

no exacto instante
em que tudo é exacto

eis a emoção
que a emulsão imprime
e os meus olhos fixam.

António Cardoso Pinto

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sábado, agosto 28, 2010

sexta-feira, agosto 27, 2010

Espelho de um momento



Dai-me uma varanda de ventos
Com um passadiço sobre
O atlântico
Dai-me o voo das gaivotas
Que trazem em seu bicos
A profundeza do luar

Deixai-me inverter os buracos
Da minha voz
Sobre as mós dos moinhos
De dom Quixote desenrolar
A inflexão dos rochedos
Arrancar os rostos das máscaras...

Dizer criança, dizer mulher
Dizer esperança, dizer amor
Trazer na cúpula dos dedos
As madrugadas ancestrais
Colher da macieira amoras
Colher das videiras cerejas

Fazer do movimento do teu corpo
Elástico, bailarina, um arco bem retesado
e do bico do cisne
Uma flecha
e nas grandes nuvens que passam
desenhar cavalos de água

Cavalgai! Cavalgai ! Cavalgai !
Cavalgai cavalos de água !
Cavalgai por mim adentro
Rasgai-me o peito inssurecto
Levai-me no trote da vossa
Cavalgada, nu, escalpado...

Deixai-me moldar a fúria do barro
selvagem, deixai-me morder
As veias dos astros, sem receio
Correr... correr por planícies
Por matagais, por praias, por desertos...
- até explodir em cor

Luís Costa

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quinta-feira, agosto 26, 2010

O encontro



Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor.

Natália Correia

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quarta-feira, agosto 25, 2010

O luar enche a terra de miragens



O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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segunda-feira, agosto 23, 2010

Mergulho



Ela corria pela ravina
quand’eu lhe gritei:
desce, amor, sou eu.

Ela me perguntou:
o que me trazes,
o que me ofereces?

Trago no meu corpo
o perfume da terra áspera,
o cheiro da terra
na primeira neblina,
para ti eu trago.

Nos meus olhos,
o fruto amanhecente
numa aurora de ouro,
às tuas narinas,
eu trago o fruto.

Trago também, só para ti eu trago
o furor da tempestade,
o tremor do vento do deserto,
que de dia é quente,
que de noite é frio,
e aos teus cabelos não negarei
o arrepio
nem o mergulho,
não negarei...

E na ponta dos meus dedos
um dedilhar suave,
uns tons de sol,
uns tons de lua:
esquadrinharei todo o teu rosto,
pétala a pétala,
numa manhã de rosa.

— Agora vem! Desce, amor!

Foi quand’ela saltou,
desequilibrou-se, nem sei,
de despenhadeiro abaixo,
e suavemente, pela cintura,
nos pousamos:
eram touceiras azuis
dos manjericões de cheiro.

Soares Feitosa

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domingo, agosto 22, 2010

Aves/Labaredas



Sobreviver na noite que aprisiona as aves / labaredas
é habitar o corpo vazio de nenúfares brancos.
Subir na água em espiral, nos veios túrgidos da água adolescente,
até encontrar, num reverso lento, a sombra das imagens,
a marca da lua e das serpentes,
como se o coração dançasse na escalada azul que urge
e penetrasse no reino secreto que se desdobra,
numa pedra alquímica, conchas, madrepérola.
Fendas, cicatrizes.

Lírios sinuosos, veias. Violoncelos transparentes.
No fulgor translúcido onde o todo se reinscreve.

No éter cinzelado dos goivos e dos astros,
num acto contínuo, extasiado,

de rumor e silêncio, onde escuto marcas na areia
de seres que vieram pela noite, pela súbita consciência.
Pelas raízes da água, velozes, sedentos,
pelos trilhos do vento, atravessando a sombra, os declives;
a crina ondulante, os cascos em ferida.
A garupa sedosa. A boca liberta pela noite do tempo.
O tempo fendido. As marcas na areia.

A indecifrável profecia seguindo os indícios da luz.
Na figura exacta da aurora
que recupera o corpo de algas e açucenas
nas sombras movediças,
dos cometas fosforescentes que se escoam,

na penumbra suavíssima, de corolas negras,
na noite acordada.

Maria do Sameiro Barroso

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sábado, agosto 21, 2010

sexta-feira, agosto 20, 2010

Epigrama



em cada verso de amor
há um naufrágio iminente
um tsunami descrente
seu imanente furor

e um campo de margaridas

o resto é tolice
(artifício de escrita)
acácia desflorida no verão

Márcia Maia

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quinta-feira, agosto 19, 2010

Mãos



Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender

Sophia de Mello Breyner Andresen

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quarta-feira, agosto 18, 2010

Ode ao Surrealismo por Conta Alheia



Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado
abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile pespontado a verde com que limpas o suor, o sémen, as fezes,
tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injectas, convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas
de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando
em por de baixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas, a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto?
Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida
pela chegada de uma pessoa conhecida)

Jorge de Sena

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terça-feira, agosto 17, 2010

Luz no círculo



Repousa no espaço da noite. Repousa.
Vê as estrelas
dançando nos pinheirais.
Vê os lagos que se recolhem ao vazio.
O vazio de todas as coisas:
o fundo milagroso onde o centro existe.
Porque tu ainda és uma flor submersa,
porque tu aprendes a língua dos sonhos.

Enigmas de obeliscos nos corpos das sombras,
projecções de encontro à parede...
por trás dos cortinados um hieróglifo carnal,
um silêncio,
o sangue do cântico nas águas do regato.
Deixa-te levar no fluxo do círculo polifónico,
deixa-te rolar pelo moinho das coisas.
Mais leve que a pena, desce a ti.

Febril como uma bailarina entre rosas,
a mão toca as coisas e ao tocá-las transforma-as.
Nada é o que já foi.
As palavras são espaços redondos, frutos que se
geram na luz dos sentidos...
Agora, aprendes que definir uma rosa é o mesmo
que definir o mundo.

Luís Costa

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segunda-feira, agosto 16, 2010

Meados de Maio



Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...

Irene Lisboa

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sábado, agosto 14, 2010

O mapa



Sempre senti a matemática como uma presença
Física; em relação a ela vejo-me
Como alguém que não consegue
Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado
Apertada nas mangas.
Perdoem-me a imagem: como
Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja
E provocar com a nossa indiferença o desejo
Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um
Mundo onde entro para me sentir excluído;
Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação
Aos números e aos seus cálculos, é um sistema,
Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever
Não é mais inteligente que resolver uma equação;
Porque optei por escrever?Não sei. Ou talvez saiba:
Entre a possibilidade de acertar muito, existente
Na matemática, e a possibilidade de errar muito,
Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar
Mais ou menos sem meta) optei instintivamente
Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.

Gonçalo M. Tavares

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sexta-feira, agosto 13, 2010

Os Paraísos Artificiais



Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas /
para desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena

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quarta-feira, agosto 11, 2010

Desencontro



Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentindo, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes aperto de mão,
passeio de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

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segunda-feira, agosto 09, 2010

Poema dos jardins ausentes



Hoje corri todos os jardins da terra
e estou ao pé de ti de mãos vazias meu amor,
os jardins só respiram esse fulgor desnudado
a rutilar caligrafias mesmo no centro da pedra.

Amanhã voltarei a correr todos os jardins
ao ritmo quase imóvel de um segredo,
num murmúrio que preserve o alento
para mergulhá-lo numa boca de mulher.

Hei-de correr todos os jardins sagrados
que habitam subtis e espessos labirintos,
e encontrar os vocábulos das pétalas da rosa
que unem o interdito ao centro das palavras.

E é como se as rosas nascessem dos dedos
como uma raiz imitando os frutos meu amor.

João Rasteiro

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domingo, agosto 08, 2010

sexta-feira, agosto 06, 2010

Interrupção de viagem

poupar-gasolina-bomba

Quando parei na bomba de gasolina em obras, à noite,
sem saber se havia alguém para atender, ou se tinha
de voltar para a estrada e parar na seguinte, que não sabia
onde era, nem se a gasolina dava para lá chegar, uma luz
acendeu-se no contentor que tapava a entrada do que
tinha sido um bar e um loja de tabaco e jornais, e alguém
me fez sinal que podia encher o depósito. Na solidão
das noites de Outono não é preciso muita coisa para
descobrir que a existência de alguém pode compensar
o silêncio e o vazio que nos rodeiam; e quando
acabei de meter a gasolina, fui ao contentor onde
um casal me esperava, para receber o dinheiro,
registando o pagamento com a distracção de quem
não precisava que outro alguém tivesse passado ali
para os interromper, procurando o pretexto da gasolina
para descobrir que o amor também pode encher um
contentor, no meio da noite, até alguém chegar.

Nuno Júdice

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quarta-feira, agosto 04, 2010

A verdade dividida



A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

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segunda-feira, agosto 02, 2010

Os melros



A tarde já está branca, e então os melros
voam de novo com os seus estalidos.
Gosto de vê-los, quase nunca falto,
a qualquer hora quando penso em mim.
Mas não me salta nunca cá de dentro
um ser de forma alada, tracejante,
ao gosto dos poetas competentes
e das mais gentes tidas nesse gosto.
Esta a surpresa repetida e calma
da liberdade no voar dos melros.
Que os melros são reais e são concretos
na sua zoologia – sem poetas.
Ainda que banal, não imagino
que se reparta o coração num pássaro
a saltitar disperso nas ramagens.
É meu dizer de mim que sempre tive
– mais homem que poeta, ambos vulgares,
vida e saber sem mais comparações.
Porque um poeta como eu, ingénuo,
não tem ideias nem pesquisas únicas,
é incapaz de conceber os pássaros,
limita-se a dizer que existem pássaros
quando o que vê são na verdade os pássaros.
Assim banal, disfarço a velha imagem
dos outros imitando um coração,
fingida a fantasia que há nos pássaros.

Agora com os melros, isso não!

Com estes melros não, porque são meus,
voam de novo à tarde com estalidos,
levam no bico um cibo do quintal,
e este quintal é meu – e destes melros.
Gosto de vê-los, quase nunca falto,
a qualquer hora quando penso em mim.

Mais homem que poeta, ambos vulgares,
o meu dizer dos melros já deixou
de ser um sentimento, é crueldade.
Passava bem sem eles no quintal,
mas tenho medo de os deixar de ver.

Quando será que um pássaro se alastra
para existir à tarde – com surpresa?

Agora tenho de pensar em mim.
Aos melros tanto faz, quando eu faltar.

Carlos Garcia de Castro

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