segunda-feira, agosto 23, 2010

Mergulho



Ela corria pela ravina
quand’eu lhe gritei:
desce, amor, sou eu.

Ela me perguntou:
o que me trazes,
o que me ofereces?

Trago no meu corpo
o perfume da terra áspera,
o cheiro da terra
na primeira neblina,
para ti eu trago.

Nos meus olhos,
o fruto amanhecente
numa aurora de ouro,
às tuas narinas,
eu trago o fruto.

Trago também, só para ti eu trago
o furor da tempestade,
o tremor do vento do deserto,
que de dia é quente,
que de noite é frio,
e aos teus cabelos não negarei
o arrepio
nem o mergulho,
não negarei...

E na ponta dos meus dedos
um dedilhar suave,
uns tons de sol,
uns tons de lua:
esquadrinharei todo o teu rosto,
pétala a pétala,
numa manhã de rosa.

— Agora vem! Desce, amor!

Foi quand’ela saltou,
desequilibrou-se, nem sei,
de despenhadeiro abaixo,
e suavemente, pela cintura,
nos pousamos:
eram touceiras azuis
dos manjericões de cheiro.

Soares Feitosa

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Observador disse...

Grande "mergulho" na mais bela das escritas, Wind.

Bj

Nilson Barcelli disse...

Gosto de muitos dos poemas do autor (já li bastantes), e também gostei deste.
Querida amiga, boa semana.
Um beijo.

Fatyly disse...

Já li bastantes de Feitosa, mas desconhecia este, que gostei bastante.
Como sempre uma bela escolha.

Beijocas

Paula Raposo disse...

Achei uma maravilha de poema!! Lindo!
Beijos.