sexta-feira, agosto 13, 2010

Os Paraísos Artificiais



Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas /
para desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena

Imagem retirada do Google

3 comentários:

Fatyly disse...

Tal e qual...e adorei!

Beijocas e um bom dia

Paula Raposo disse...

Excelente Jorge de Sena!
Beijinhos.

Observador disse...

Que texto tão giro, Wind.

Bj