quarta-feira, agosto 18, 2010

Ode ao Surrealismo por Conta Alheia



Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado
abomináveis trutas e outros preconceitos?
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile pespontado a verde com que limpas o suor, o sémen, as fezes,
tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injectas, convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas
de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando
em por de baixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas, a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos? Reivindicações? Um livro?
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto?
Um olhar? Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida
pela chegada de uma pessoa conhecida)

Jorge de Sena

Imagem retirada do Google

3 comentários:

Fatyly disse...

Muito interrogativo num pensamento tão...olha "interrompo" porque sinceramente não gostei:)

Beijocas

Observador disse...

Jorge Sena em dia não.

:(

Paula Raposo disse...

Espectacular lucidez!!
Beijos.