quinta-feira, outubro 31, 2013

Teu rosto de desastres e tormentas



Teu rosto de desastres e tormentas
e risos lágrimas e sol e vento
teu rosto de marés e vagas lentas
em que o prazer é quase sofrimento

e o sofrimento é como rosa roxa
florindo devagar em tua boca
se a minha mão te chicoteia a coxa
e no teu corpo há uma égua louca.

Começam então as tuas doces queixas
e vais para um país onde desmaias
quando o sol no teu rosto acende flechas.

E eu temo que te percas e não saias
do abismo em que te abres e te fechas
de cada vez que te levanto as saias.
Manuel Alegre
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terça-feira, outubro 29, 2013

A água



No café trazem-me um copo com água 
como se ele resolvesse todos os meus problemas. 
É ridículo – penso – não há saída. 
No entanto, depois de beber a água 
fico sem sede. 
E a sensação exclusiva do organismo 
acalma-me por momentos. 
Como eles sabem de filosofia – penso – 
e regresso, logo a seguir, à angústia.


Gonçalo M. Tavares

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segunda-feira, outubro 28, 2013

domingo, outubro 27, 2013

Se quiseres que eu me perca



Se quiseres que eu me perca
buscarei outra ilha.
Esperarei a sombra diante dos olhos,
o milhafre na ravina de crisântemos.
Ao longe, correndo para a primeira luz do dia,
estarei à tua espera,
acenando com a mão esquerda,
avançando sobre o mar.
Não te esqueças,
aprendi um dia como deus nos traz um sono
leve que nos cega.


Rui Coias

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quarta-feira, outubro 23, 2013

Cartão-Postal





v
avião
v
v

IO 
Rio                        lua 
DEJA 
NEIRO 
MEURIO 
ZINHODEJANEIRO!MINHASÃOSEBASTIÃODORIODEJANEIRO! 
CIDADEBEM-AMADA!AQUI ESTÁOTEUPOETAPARADIZER- TE 
QUETEAMODOMESMOANTIGOAMOREQUENADANOMUNDO NEMMESMOAMORTEPODERÁNOSSEPARAR. 
Aquiporeisssssssssssssssssssparafingirdomosaicodopasseio 
aquiporeiTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTparafingirdepalmeiras 
Emeponho eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu poraítudo 

Quero brincar com a minha cidade. 
Quero dizer bobagens e falar coisas de amor à minha cidade. 
Dentro em breve ficarei sério e digno. Provisoriamente 
Quero dizer à minha cidade que ela leva grande vantagem sobre todas as

[outras namoradas que tive
Não só em km2 como no que diz respeito a acidentes de terreno entre os
[quais o número de buracos não contitui fator desprezível.
Em vista do que pegarei meu violão e, para provar essa vantagem, sairei 
[pelas ruas e lhe cantarei a seguinte modinha : 

MODINHA 

Existe o mundo 
E no mundo uma cidade 
Na cidade existe um bairro 
Que se chama Botafogo 
No bairro existe 
Uma casa e dentro dela 
Já morou certa donzela 
Que quase me bota fogo. 

Por causa dela 
Que morava numa casa 
Que existia na cidade 
Cidade do meu amor 
Eu fui perjuro 
Fui traidor da humanidade 
Pois entre ela e a cidade 
Achei que ela era a maior! 

Loucura minha 
Cegueira, irrealidade 
Pois realmente a cidade 
Tinha, como é de supor 
Alguns milhares de km2 
E ela apenas, bem contados 
Metro e meio, por favor.


Vinícius de Moraes

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terça-feira, outubro 22, 2013

Parabéns

Este blog faz hoje 9 anos.

Parabéns para ele:)


Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa


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Icona Pop-I Love It

segunda-feira, outubro 21, 2013

Paisagem



Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.
Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.
Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.
Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.
Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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quinta-feira, outubro 17, 2013

Rua Suja



Caminhando perdido que nem um louco
Caminho perdido na rua sem ti
Também ela perdida,
Suja, sem nexo
Um espaço sem confins
O último recanto do mundo
Caminho sem saber para onde vou
Onde ficar e com quem estar
Caminho nebuloso me conduz ao destino
Sem ti, uma vez mais,
Para percorrer um caminho de mãos dadas
Até que as rosas se reduzam a cinzas
Que jazem no chão, brilhantes, na rua suja
Procurando a imagem que desvanecera
A tua imagem, o meu motivo,
A loucura, o sentido, a razão de viver
A caminhar sem fim
Nesta rua, enfim
Sozinho que nem um louco perdido
Sem ti, sem ninguém, cai a noite
Cai a chuva também
Molhando os meus moribundos passos
Empurrando-me para o outro lado
Da rua, a mesma
À porta da tua casa
Continuo perdido
E perdido continuarei até me encontrar
Fazendo diluir a tua falta
Quando isso finalmente acontecer
Terei encontrado o caminho para casa.


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sexta-feira, outubro 11, 2013

Onde os lábios


Os lábios.
Distante, arrefecida chama.
Não só os lábios, também as estrelas
são distantes.
E os bosques. E as nascentes.
Também as nascentes são distantes.
As nascentes onde os lábios,
onde as estrelas bebem..
Só o deserto é próximo, só
deserto.

Eugénio de Andrade

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quarta-feira, outubro 09, 2013

Tempo fluvial



Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.


Nuno Júdice retirado daqui

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segunda-feira, outubro 07, 2013

VI

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen

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sábado, outubro 05, 2013

Cada árvore é um ser para ser em nós


Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa

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quinta-feira, outubro 03, 2013

terça-feira, outubro 01, 2013

Sou o Espírito da treva

Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;
Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida
Refresca-me a alma de espuma...
Pra além do mar há a bruma...
pra aquém?  Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim...

Fernando Pessoa

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