terça-feira, janeiro 10, 2012

O Amor (Excerto)



(...)A olaia era a árvore maior do jardim. O meu pai sentava-se ao fim da tarde na cadeira de baloiço e contava-me sempre a história de como o pai do seu pai se tinha enforcado naquela olaia e de como os homens, no dia seguinte, antes do enterro, serraram o ramo onde a corda tinha sido pendurada, e contava-me sempre a história de como o seu pai tinha nascido debaixo daquela olaia no momento em que avó do meu pai podava as rosas, e contava-me sempre a história de como um amigo dele, que nunca cheguei a conhecer, se tinha apaixonado por uma escrava debaixo daquela olaia. Fora debaixo daquela árvore, tão grande e tão velha, que eu tinha sonhado coisas que nunca aconteceram. Na maior parte das vezes, tinha imaginado esses sonhos enquanto olhava para a estátua. A estátua estava no jardim desde o dia em que a olaia ganhou as primeiras folhas. Era uma mulher de pedra. O seu corpo branco de mármore tinha todas as formas alisadas pela chuva e pelo vento e pelas noites. Era uma mulher nua de pedra. Era uma mulher morta de pedra. Os seus olhos brancos e cegos viam apenas um mundo que era feito só de frio. Os seus lábios de mármore existiam para beijar um silêncio invisível. As suas mãos, pousadas sobre o peito, seguravam a tristeza. O mundo era tão longe de toda aquela beleza triste. O seu olhar piedoso e cego. Os seus lábios calados durante anos e, no entanto, a dizerem a sua voz de mármore. As suas mãos. Os dedos. Os cabelos sobre os ombros, como água de pedra a escorrer de uma fonte. Debaixo da olaia, eu olhava para a estátua e imaginava sonhos de mulheres de mármore que olhavam para mim e, nos meus olhos, viam aquele mundo maravilhoso e terrivel que a estátua via. (...)

José Luís Peixoto

Imagem retirada do Google

2 comentários:

Fatyly disse...

Julgo ser do livro Uma Casa na Escuridão...todo ele magnífico, aliás admiro muito José Luís Peixoto.

A foto está magnífica e adorei este post!

Beijos

Observador disse...

Mesmo sendo apenas um excerto, dá para perceber o encanto da obra.

Bj