quinta-feira, maio 19, 2011

Deriva (VIII)



Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

Sophia de Mello Breyner Andresen

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Mar Arável disse...

Bela memória
de sempre

Observador disse...

Tão intenso e bonito...

Paula Raposo disse...

Uma maravilha!!!

Fatyly disse...

Não conhecia e achei-o tão delicioso e sonante!

Beijocas