segunda-feira, setembro 20, 2010

Semântica Electrónica



Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

Vitorino Nemésio

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Fatyly disse...

Tu lá descobres estas pérolas e este não conhecia, mas tive que fazer várias paragens, destravar a língua e continuar. ADOREI!

Beijocas e um bom dia

Paula Raposo disse...

Mas que maravilha de fenomenal jogo de palavras!! Adorei!
Beijinhos.

Nilson Barcelli disse...

Soberbo.
Como tudo o que o autor escreveu.
Ainda me lembro dos programas de tv que ele fazia... se bem me lembro, acho que era esse o nome do programa.
Beijos, querida amiga.

Observador disse...

O sempre enorme Vitorino Nemésio.

Bj