segunda-feira, setembro 06, 2010

Devia morrer-se de outra maneira



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Imagem retirada do Google

5 comentários:

Su disse...

..tão lindo...

jocas maradas..sempre

Observador disse...

Seria uma bonita forma de dizer adeus...

Bj

Nilson Barcelli disse...

Os poetas são maquiavélicos... só um como o José Gomes Ferreira me poria a pensar numa morte destas, de tão implausível...
Mas são estas coisas que dão sal à poesia. No meu ponto de vista, claro...
Querida amiga, boa semana.
Um beijo.

Paula Raposo disse...

Assim deveria ser. Beijos.

Fatyly disse...

Este poema é um dos mais belos de Gomes Ferreira.

Beijocas