quarta-feira, junho 05, 2013

Sou



Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.


Jorge Luís Borges, in "A Rosa Profunda"


Imagem retirada do Google


2 comentários:

Fatyly disse...

Profundo e imensamente complexo! A imagem reflecte bem o poema.

Beijocas

Observador disse...

Bem visto por José Luís Borges.

Valor acrescentado: o texto inclui as palavras 'observador' e 'reflexos'.

Bj