terça-feira, junho 11, 2013

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Um vez dois palhaços se puseram a discutir. As pessoas paravam, divertidas, a vê-los.
É o quê?, perguntavam
Ora, são apenas dois palhaços discutindo.
Quem os podia levar a sério? Ridículos, os dois cómicos ripostavam. Os argumentos eram simples dis­parates, o tema era uma ninharice. E passou-se um in­teiro dia.
Na manhã seguinte, os dois permaneciam, excessi­vos e excedendo-se. Parecia que, entre eles, se azeda­va a mandioca. Na via pública, no entanto, os presentes se alegravam com a mascarada. Os bobos foram agra­vando os insultos, em afiadas e afinadas maldades. Acre­ditando tratar-se de um espectáculo, os transeuntes deixavam moedinhas no passeio.
No terceiro dia, porém, os palhaços chegavam a vias de facto. As chapadas se desajeitavam, os pontapés zumbiam mais no ar que nos corpos. A miudagem se di­vertia, imitando os golpes dos saltimbancos. E riam-se dos disparatados, os corpos em si mesmos se tropeçando. E os meninos queriam retribuir a gostosa bondade dos palhaços.
Pai, me dê as moedinhas para eu deitar no pas­seio.
No quarto dia, os golpes e murros se agravaram. Por baixo das pinturas, o rosto dos bobos começava a san­grar. Alguns meninos se assustaram. Aquilo era verda­deiro sangue?
Não é a sério, não se aflijam, sossegaram os pais.
Em falha de trajectória houve quem apanhasse um tabefe sem direcção. Mas era coisa ligeira, só servindo para aumentar os risos. Mais e mais gente se ia juntan­do.
O que se passa?
Nada. Um ligeiro desajuste de contas. Nem vale a pena separá-los. Eles se cansarão, não passa o caso de uma palhaçada.
No quinto dia, contudo, um dos palhaços se muniu de um pau. E avançando sobre o adversário lhe desfe­chou um golpe que lhe arrancou a cabeleira postiça. O outro, furioso, se apetrechou de simétrica matraca e respondeu na mesma desmedida. Os varapaus assobia­ram no ar, em tonturas e volteios. Um dos espectado­res, inadvertidamente, foi atingido.
O homem caiu, esparramorto.
Levantou-se certa confusão. Os ânimos se dividiram.
Aos poucos, dois campos de batalha se foram criando. Vários grupos cruzavam pancadarias. Mais uns tantos ficaram caídos.
Entrava-se na segunda semana e os bairros em re­dor ouviram dizer que uma tonta zaragata se instalara em redor de dois palhaços. E que a coisa escaramuçara toda a praça. E a vizinhança achou graça. Alguns foram visitar a praça para confirmar os ditos. Voltavam com contraditórias e acaloradas versões. A vizinhança se foi dividindo, em opostas opiniões. Em alguns bairros se iniciaram conflitos.
No vigésimo dia se começaram a escutar tiros. Nin­guém sabia exactamente de onde provinham. Podia ser de qualquer ponto da cidade. Aterrorizados, os habitan­tes se armaram. Qualquer movimento lhes parecia sus­peito. Os disparos se generalizaram. Corpos de gente morta começaram a se acumular nas ruas. O terror do­minava toda a cidade. Em breve, começaram os massa­cres.
No princípio do mês, todos os habitantes da cidade haviam morrido. Todos excepto os dois palhaços. Nes­sa manhã, os cómicos se sentaram cada um em seu canto e se livraram das vestes ridículas. Olharam-se, cansados. Depois, se levantaram e se abraçaram, rindo­-se a bandeiras despregadas. De braço dado, recolheram as moedas nas bermas do passeio. Juntos atravessaram a cidade destruída, cuidando não pisar os cadáveres. E foram à busca de uma outra cidade.

Mia Couto, “A guerra dos palhaços”, Estórias Abensonhadas. Lisboa, Caminho. 1994. pp. 135-137
Visto na Eli
Imagem retirada do Google

3 comentários:

Fatyly disse...

A triste realidade de cidades ou países onde a guerra pode começar por dois simples palhaços, que de simples nada têm...e quantos cenários são montados para dar nisso mesmo?

Beijocas

Nilson Barcelli disse...

Um escritor fabuloso.
Já tantos palhaços inventaram guerras...
Isabel, querida amiga, tem um bom resto de semana.
Beijo.

Observador disse...

Quando o terror domina, é muito complicado.

Bj