quarta-feira, agosto 22, 2007

Penélope*



Mais do que sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira

Foto:Yuri Bonder

*Acho que é repetido, mas apeteceu-me.

terça-feira, agosto 21, 2007

A Excepção e a Regra



Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

Bertolt Brecht

Foto:Elena Vasilieva

***



O desejo A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a

Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo

António Ramos Rosa

***Sem título, retirado daqui.

Foto:Victor Ivanovski

Pink Floyd-Live 8



28 minutos de música estectacular:)

Desligar o som do blog do lado direito, por favor.



Imagem daqui

segunda-feira, agosto 20, 2007

Evocação de Silves



Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava...
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.

Al Mu'Tamid

Foto:Stanmarek

Gostaria



Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento.

Boris Vian

Foto:Howard Schatz

Para ler de manhã e à noite



Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

Bertolt Brecht

Foto:Valery Lemberg

domingo, agosto 19, 2007

A canção de Lisboa



Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colções errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

Mamã, mamã
Onde estás tu mamã
Nós sem ti não sabemos mamã
Libertar-nos do mal

A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nos também temos mão na vida
Mesmo que seja a custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de Lisboa

As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de Lisboa

Jorge Palma

Foto:Ludo Dijckmans

Do campo dos mortos



Do campo dos mortos
Em terra estrangeira
Por onde passámos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a somente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
- Passado, passado -
O presente.

Reinaldo Ferreira

Foto:Frédéric Kerikese

The Beatles - The Long and Winding Road (LIVE - 90´s)



Linda música num espectacular vídeo onde montaram a imagem de John Lennon a tocar.

The long and winding road that leads to your door
Will never disappear.
I've seen that road before,
It always leads me here, lead me your door
Many times I've been alone
And many times I've cried
Anyway, you'll never know the many ways I've tried
But still they lead me back to the long and winding road.
You left me standing here
A long long time ago
Don't keep me waiting here,
Lead me to your door
Don't keep me waiting here,
Lead me to your door
The wild and windy night
That the rain washed away
Has left a pool of tears
Crying for the day
Don't leave me waiting here (don't keep me waiting)
Let me know the way



Foto:Hannu Makela

Na mesa do Santo Ofício



Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

Ary dos Santos

Foto:Ira Bordo

sábado, agosto 18, 2007

Fontes



Nasces, ferido de dor,
e para as fontes te obrigam a nascer,
elas trespassam tua sede de horizontes,
porqe fluem das nascentes do amor.

Pelas margens das dores, que te acicata,
pelo azul que não te desampara,
corres pela vida à desfilada,
pois ela é a corrida para as fontes.

Potro
esporeado nas ilhargas
do amor que une,
à dor, que separa,
as fontes são amargas.

Manuel Filipe, in "Tempo de Cinza", pág.44, Apenas Livros

Foto:Paul Dzik

Creio



Creio que já não entendo tudo aquilo que me dizes,
é porque tremem as linhas dos teus versos?

Creio que sopraram ventos infelizes.

Creio que os teus dedos criaram gelados universos,
onde estrelas frágeis vivem num sopro de ar.

Creio que, apenas subindo pelas sombras,
encontrarei, em repouso, o teu olhar.

Manuel Filipe, in "Tempo de Cinza", pág.53, Apenas Livros

Foto:Elena Vasileva

Deus que me fez e fizera



Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.

Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.

Reinaldo Ferreira

Foto:Ozgur Donmaz

sexta-feira, agosto 17, 2007

Canções de António Botto ( 3 )



Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

António Botto

Já foi colocado, mas como a Fatyly reclamou do último ser triste, este é-lhe dedicado:)

Foto:Victor Ivanovski

André Sardet & Mafalda Veiga - Hoje Vou Ficar



André Sardet:
Hoje eu vou ficar por aqui, não esperes por mim
Eu já te dei mais do que eu sei
Eu já fui, já andei, não esperes por mim
E tudo o que eu queria, um tempo pra mim, sabes bem que é inútil mudar
E o tempo faz parte de mim
Hoje vou ficar, hoje quero ir, ao fim desse olhar só para te sentir
Hoje vou ficar, hoje quero ir, ao fim desse olhar só para te sentir

Mafalda Veiga:
Hoje parei e pensei outra vez
Não esperes por mim
Eu já mudei mais do que eu sei
Eu já fui, já andei, não esperes por mim
E tudo o que eu queria
Um tempo para mim
Sabes bem que é inútil mudar
E o tempo faz parte de mim

Mafalda Veiga e André Sardet:
Hoje vou ficar, hoje quero ir, ao fim desse olhar, só para te sentir
Hoje vou ficar, hoje quero ir, ao fim desse olhar
Só para te sentir
Vou ficar...

Foto:Gabriele Rigon

Vento incerto



(...)
o vento incerto
levanta pó,
cavalo inquieto
girando só,
girando incerto
cavalo de pó,
o vento só
dança, inquieto,
(...)

Manuel Filipe,in "Tempo de Cinza", pág. 48, Apenas Livros

Foto:Paul Elliott

Humor - Definições do indefinível



· Nada mais humorístico do que o próprio humor, quando pretende definir-se (Friedrich Hebbel).

· Definir o humor é como pretender pregar a asa de uma borboleta usando como alfinete um poste de telégrafo (Enrique Jardiel Poncela).

· Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas (Monteiro Lobato).

· O humorismo é o inverso da ironia (Bergson).

· O humorismo é o único momento sério e sobretudo sincero da nossa quotidiana mentira (G. D. Leoni).

· O humor é o açucar da vida. Mas quanta sacarina na praça! (Trilussa).

· O humor é o único meio de não sermos tomados a sério, mesmo quando dizemos coisas sérias: que é o ideal do escritor (M. Bontempelli).

· O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada (Millôr Fernandes).

· O espírito ri das coisas. O humor ri com elas (Carlyle).

· A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a mágoa, a aflição, o sofrimento. Não há humor no céu (Mark Twain).

· O humor é uma caricatura da tristeza (Pierre Daninos).

· O humor é a vitória de quem não quer concorrer (Millôr Fernandes).

· A própria essência do humor é a completa, a absoluta ausência do espírito moralizador. Interessa-lhe pouco a pregação doutrinal e a edificação pedagógica. O humor não castiga, não ensina, não edifica, não doutrina (Sud Menucci).

· O humorismo é dom do coração e não do espírito (L. Boerne).

· O humorismo é a arte de virar no avesso, repentinamente, o manto da aparência para por à mostra o forro da verdade (L. Folgore).

· O humor tem não só algo de liberador, análogo nisso ao espirituoso e ao cômico, mas também algo de sublime e elevado (Freud).

· Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer (Leon Eliachar).

· O humorismo é a quintessência da seriedade (Millôr Fernandes).

· O humorista é um forte bom, vencido, mas sobranceiro à derrota (Alcides Maia).

· O humor é a polidez do desespero (Chris Marker).

PS:Segundo sem-se-ver o cartoon é da autoria de Quino.
Não sei se é pois não está assinada e retirei a imagem do google.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Pintura



Pinto de vermelho
O teu olhar de desejo
Em mim repousado...

Jacky (16.08.2007)

(wind, podes escolher uma foto para este haiku se fazes o favor)

Trabalho de casa feito, Jacky:)

Os cinco sentidos



São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!
Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!
Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!
Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
E só de ti - de ti!
Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!
A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett

Foto:Oleg Seleznev