domingo, fevereiro 11, 2007

Referendo

Já votei.
E vocês?
Seja qual for a vossa escolha vão votar, exerçam o vosso dever de cidadão para poderem reinvindicar depois direitos.
Não se abstenham!

wind

Do Outro Lado



Quando enfim abri os olhos
debruçado sobre ti, eu olhava teus cabelos finos
tão leves, como um tênue mistério em tua nuca...
E o pequenino lóbulo de tua orelha
onde pendurei o brinco do meu beijo.

E fiquei a pensar que estava ali, tão presente
em ti
e nem me vias...

...Tu estavas do outro lado,
em toda parte de minha vida,
e nem sabias...

J.G. de Araújo Jorge

Foto:Joris Van Daele

sábado, fevereiro 10, 2007

Ma Solitude



Pour avoir si souvent dormi avec ma solitude,
Je m'en suis fait presque une amie, une douce habitude.
Elle ne me quitte pas d'un pas, fidèle comme une ombre.
Elle m'a suivi ça et là, aux quatres coins du monde.

Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude.

Quand elle est au creux de mon lit, elle prend toute la place,
Et nous passons de longues nuits, tous les deux face à face.
Je ne sais vraiment pas jusqu'où ira cette complice,
Faudra-t-il que j'y prenne goût ou que je réagisse?

Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude.

Par elle, j'ai autant appris que j'ai versé de larmes.
Si parfois je la répudie, jamais elle ne désarme.
Et, si je préfère l'amour d'une autre courtisane,
Elle sera à mon dernier jour, ma dernière compagne.

Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude.
Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude.

Georges Moustaki

Foto:Maury Perseval

PS:Desculpem ser em francês, mas adoro esta música porque sinto uma grande identificação. Nunca estou só com a minha solidão(e com o Lucas).

Discurso



E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Cecília Meireles

Foto:Dennis Mecham

Ascensão



Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

João dos Sonhos

Foto: zet_ka aa(Zet)

Poesia Matemática



Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

Millôr Fernandes

Imagem daqui

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O ovo é uma galinha?

"Um ovo não é uma galinha porque não tem vida. Um feto tem vida? Penso que sim. Pessoalmente sou contra o aborto, mas ainda sou mais contra a penalização criminal das mulheres que o façam.
Não creio que, pelo facto de deixar de ser crime, o número de abortos aumente. Poderá sim melhorar as condições em que são feitos. Poderá minimizar o risco para as mulheres que decidirem fazê-lo.
Por isso, embora seja a favor da vida, o meu voto é SIM"


Opinião de Adolfo Luxúria Canibal (vocalista dos Mão Morta), enviada para a mailling-list dos Mão Morta.:

Ena, que grande confusão vai por aí!...

Um feto é um ser humano? E um girino, é uma rã? E um ovo, é uma galinha? E o
pai natal existe? Podes acreditar no que quiseres e actuar em consonância
com o que acreditas, não obrigues é os outros a acreditar no que tu
acreditas. A idade média e a inquisição já eram (espero eu)...

Uma vitória do sim não vai obrigar ninguém a fazer abortos, pelo contrário
vai dar a possibilidade a toda a gente de actuar livremente segundo a sua
consciência. Vai possibilitar que uns não sejam penalizados pelo
fundamentalismo de outros. Achas que um feto é um ser humano: tens toda a
legitimidade para achar isso e para actuares em conformidade, não tens é
legitimidade para me impores que eu ache a mesma coisa e para que eu actue
conforme tu achas - e isso é o não, uma forma de uma crença particular
continuar a impor-se sobre toda uma sociedade!

Nunca conheci ninguém que gostasse de abortar (e conheci muita gente que o
fez...), é das decisões mais terríveis e dolorosas que se pode tomar.
Acrescentar à dor dessa decisão a clandestinidade, com o inerente perigo de
vida (conheci várias pessoas, incluindo amigas, que morreram por sequelas de
aborto) e a ameaça de prisão, para si ou para quem a ajude (também conto
entre os meus amigos pessoas que passaram anos na prisão por terem, de
alguma forma, ajudado na prática de aborto, e eu próprio incorri várias
vezes nesse crime, inclusivé com participação directa no acto abortivo -
havendo falta de dinheiro para recorrer a clínicas clandestinas mais
sofisticadas, improvisava-se a clínica no quarto - é isto o sórdido da
clandestinidade), é, no mínimo, uma crueldade gratuita e malévola. É
inquisição no seu pior! É, mais uma vez, mandar a mulher-bruxa-demónio para
a fogueira.

Deixemo-nos de jogos de semântica! O que está em causa é se devemos ou não
continuar a castigar penalmente e fisicamente aquelas (e aqueles) que, por
qualquer motivo - doloroso, sem dúvida - tiverem que recorrer a uma
interrupção da gravidez. E a minha resposta é não! Não temos o direito de
castigar essas pessoas.

O meu voto é sim, e seria sempre sim fosse qual fosse a pergunta a referendo
desde que possibilitasse qualquer avanço civilizacional na liberalização do
aborto.

Adolfo LC


PS:Recebi por mail, coloquei porque conheço e fui com amigas assistir a alguns abortos clandestinos. Sei perfeitamente como são feitos, como acordam e como ficam fisica e psicologicamente.

Não quero amar-te



Não!! Não quero amar-te.
Não posso amar-te!
Mas és sol
do meu pensamento,
em ti a cada momento.

Lua das frias noites,
abraço
na minha solidão
de todos acompanhada,
sem norte, sem sul,
sem nada,
básicos seres
nesta imensidão
sem fim.

Não quero amar-te!
Seria o meu holocausto
na ara do teu corpo,
tua alma.
Meu ser no teu absorto,
ali, em êxtase, subjugado,
à espera, num soluço,
do teu beijo desejado.

Não! Não quero amar-te!
Mas a minha fantasia
segue os teus passos
no cumprir do dia a dia,
despe-te a roupa
suga-te o sexo
lambe-te o beijo,
colhe-te o abraço
como um pedaço
de mim!!

Helena Guimarães

Foto:Joris Van Daele

Desalinhamentos



Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou ausência
tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar–o carro não obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos
já me acostumei, mesmo sem rádio ou toca-fitas
já me acostumei
a ensaiar um enfarte no meio da avenida
a temer um desmaio em horas impróprias
me acostumei com o sal ao redor dos lábios salvando a pressão
que costuma baixar no calor
me acostumei mesmo com o carro a cena os desastres
rompendo o concreto pela manhã
mas mesmo assim não suporto
não suporto a visão dos acidentes que se distribuem
nem mesmo o acúmulo de justificativas
desculpas
por mais um atraso
mais uma ausência uma falta
enquanto um cão se debate no asfalto
e algumas pessoas se reúnem para assistir.

Annita Costa

Foto:Paweł Dzik

Eu em Descartes



Choro,
existo, logo, choro

E minhas lágrimas
se confundem
com a chuva, lá fora

Choro,
existo, logo, choro

Observo
o flamboyant florido
em meio à avenida
no entardecer
e carros
trespassantes

Observo mesmo
minhas veias
em fuligens
chamando de cór
meu coração

Choro,
existo, logo, choro

Lá,
aos longes,
um ipê todo roxo
em meio a prédios
insistente
- natural das
camadas e do

ozônio,
elo perdido
da natureza

Choro,
existo, logo, choro
Nos prédios
tantos,
solidões,
solidões compartilhadas
e ninguém,
no vazio

Choro,
existo, logo, choro

A noite me
cobre
com seu véu
de verdade:

Eu, meu copo e meu cigarro.

Minha música
minhas contas
meus papéis
minhas cartas
- que dizia
não esperar resposta
e meus gestos
transviados
no olhar alheio
Existo, logo.

Minhas lágrimas
dissolvem-se
por dentro
confundidas
nas veias
com a fuligem

Existo logus,
logo,
Bem locus.
Locus moralis minimus.

Locus ethos,
logo,
ethos sum.

Ergo...

Carlos Alberto de Almeida Dias

Foto:Oleg Gedevani

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Subitamente surge. Tem o teu rosto



O paraíso terrestre é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.
O que é sucessivo perde-se.
Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada
uma folha branca à transparencia da lâmpada.
Soam então os barulhos. Soam
de dentro das janelas,
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas meias de café.
É tarde e és tu,
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.

Nuno Júdice

Foto:Yuri B

A Máscara



Quem de nós tem a coragem
de aceitar a sua imagem,
aquela imagem sem graça,
sem rasgos, imagem baça
que o espelho teima em reflectir?

Quem de nós tem a ousadia,
no viver do dia a dia,
de retirar a mordaça
gritando ao vento que passa
o seu interno sentir?

Quem deixa cair a máscara?
Fantasia construída
de cada um para si.
Máscara de Rei, de Profeta,
de intelectual, de poeta,
de homem muito importante
que não esquece a cada instante
o gesto, o sorrir conveniente,
a vénia subserviente,
que nunca o desmascara.

Quem deixa cair a máscara?

Helena Guimarães

Imagem daqui

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Haiku


Ontem à noite
sonhei de corpo inteiro
— acordei com teu cheiro

Alonso Alvarez

Foto:zet_ka aa(Zet)

Número da paixão



Na corda bamba quero ser teu contrapeso
no número das facas assoviar nos teus ouvidos
no globo da morte quero ser teu copiloto
no vai e vem do trapézio quero ser quem te segura

quero te acompanhar pelas ruas do rio sorrindo ou chorando
quero me molhar todinho só pra te deixar sequinha nesse temporal
quero te abraçar apaixonado sentir teu coração pulsar
quero te beijar do oiapoque ao chuí, bem te vi

porque eu sei que teus cabelos são tempestades que me alucinam
que despencarei cada vez que subir nos teus andaimes
que me esfaquearei transtornado com suas sutis insinuações sobre o
tempo

que me transmutarei em nêspera cada vez que me disseres:
hasta luego, luz del fuego
que vagarei sem esperanças quando não mais fizeres parte
dos meus próximos capítulos
que capitularei enfim, com a cabeça espatifada nos escombros
do meu próprio coração.

Chacal

Foto:Eric Kellerman

Precisão



O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Foto:Howard Schatz

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Que Loucura



Que loucura é a vida!
Turbilhão de sensações,
de existências
que se estiolam
lentas,
em inerte engano.
Vidas tão cinzentas!
Os sonhos desfeitos dia a dia,
a renascer, límpidos
na mesma utopia.
Que loucura é a vida!

Onde estamos nós?
Somos ou não somos?

Alacres gnomos,
nesta imensidão,
cada vez mais sós.
Nos abstraímos.
Vivemos?
Não. Só existimos!

Helena Guimarães

Foto:zet_ka aa(Zet )

Fragmentos de um Diário

Amo
as águas no instante em que não são do rio
Nem pertencem ainda ao mar.....
.....árduas planícies rosto incendiado pesando-me
nos ombros
hirto....tatuado no entardecer de magoada cocaína.....

.....leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
nocturna sombra de corpo embriagado
fogos por descuido acesos no húmido leito dos juncos...
...altíssima margem....inacessível noite de Florbela

e o soneto dizia: Sou aquela que passa e ninguém vê
sou a que chamam triste sem o ser
sou a que chora sem saber porquê

...apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
dos reduzidos seres marinhos esmagados
na pressa do mar...possuo este resíduo de vida estelar
gravada na pele está a cabeça de medusa loura....dói
nas comissuras penumbrosas das falésias
que me evocam
os ternos lábios das grandes bocas fluviais.....

...sinto o rigor das plantas erectas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias....
...junto á foz de meu inseguro desaguar...continuo sentado
escrevo a desordem urgente das horas...medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir....
.... espero o cortante sal-gema das ilhas.....a ilusão
conseguir prolongar-me na secreta noite dos peixes....
...adormeço enfim
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar....

Al Berto

Sobre o referendo



Há cerca de 20 anos andava eu no curso e tive uma disciplina de Antropologia, onde a professora que era um génio, nos ensinou que foram os artistas que sempre mudaram as sociedades.
Não vou aprofundar isso aqui, mas se pensarmos bem é verdade. Nenhum político faz nada de bom, quem anda para a frente são os movimentos de artistas, como por exemplo: os músicos, os escritores, os pintores.
Não é por acaso que não acredito em políticos e sempre me dei com artistas, (mesmo sem antes saber que o eram), fazendo eles profissão disso, ou não.
Tive amigos que tocavam, cantavam, escreviam e desenhavam, estes mais raros, talvez porque eu nem um risco direito sei fazer.
Ainda hoje das poucas amizades que tenho, são artistas, embora não façam disso profissão.
E este parlapiet todo para quê?
Porque já estou farta de fundamentalismos sobre o referendo, de ouvir tanto disparate junto, mas como disso já escreveram outros blogs, limito-me a deixar aqui uma preciosidade de Natália Correia dita na Assembleia da República em 5 de Abril de 1982 em resposta ao então deputado do CDS João Morgado autor desta célebre frase: "O acto sexual é para ter filhos", no dia 2 de Abril do mesmo ano.

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração!
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Natália Correia/3 Abril 1982

Já conhecia, mas foi mandado por email pela Pink

Foto:Victor Ivanovski

Corpo adentro



Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.

Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.

Teu corpo é pele exata para o meu
pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.

Marina Colasanti

Foto:Joris Van Daele

Pesadelo



Eu tenho muito,
muito medo,
muito medo de você!
Você é o meu fantasma predileto,
o meu espectro familiar,
que me apavora no sono
e de quem rio ao despertar.
Eu vivo por você num sonho antigo,
um sonho de antanho,
maluco, extemporâneo,
um sonho que já nem é sonho,
pois é quase de manhã.
Da noite alta que se desfez,
surgem palavras bêbadas,
tontas de sono,
ecoando pela casa,
junto aos passos do sonâmbulo.
Surgem de abismos profundos,
mas os abismos do sono
têm a altura da cama
(felizmente!)
E, lentamente, se recompõem
velhas estórias mal contadas,
"buenas dichas", vagos presságios,
frágeis linhas mal traçadas
da minha mão e da tua
entrelaçadas e entrelaçadas...

Mauro Mendes

Foto:Kirill Arsenjev