sábado, janeiro 06, 2007

Plano



Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

Foto:Stanmarek

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Controlar a raiva



Era uma vez um rapazinho que tinha um temperamento muito explosivo. Um dia, o
pai deu-lhe um saco cheio de pregos e uma tábua de madeira.
Disse-lhe que martelasse um prego na tábua cada vez que perdesse a paciência
com alguém.
No primeiro dia o rapaz pregou 37 pregos na tábua. Já nos dias seguintes,
enquanto ia aprendendo a controlar a ira, o número de pregos martelados por dia
foram diminuindo gradualmente.

Ele foi descobrindo que dava menos trabalho controlar a ira do que ter que ir todos
os dias pregar vários pregos na tábua...

Finalmente, chegou o dia em que não perdeu a paciência uma vez que fosse.
Falou com o pai sobre seu sucesso e sobre como se sentia melhor por não explodir
com os outros.

O pai sugeriu-lhe que retirasse todos os pregos da tábua e que lha trouxesse.
O rapaz trouxe então a tábua, já sem os pregos, e entregou-a ao pai.

Este disse-lhe:

"Estás de parabéns, filho! Mas repara nos buracos que os pregos deixaram na
tábua.
Nunca mais ela será como antes. Quando falas enquanto estás com raiva, as
tuas palavras deixam marcas como essas."


"Podes enfiar uma navalha em alguém e depois retirá-la, que não importa quantas vezes peças desculpa, a cicatriz continuará lá.

Uma agressão verbal é tão violenta como uma agressão física."


Amigos são jóias raras, cada vez mais raras. Eles fazem-te sorrir e encorajam-te a
alcançar o sucesso. Eles emprestam-te o ombro, compartilham os teus momentos de
alegria, e têm sempre o coração aberto para ti.

PS:Recebido por mail e enfiei a carapuça!

Imagem daqui

Problema de expressão



Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.

Clã

Foto:Dorota Pawiłowska

PS:Quem quiser pode ver aqui o vídeo

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Concerto em Ré menor,Para Piano e Orquestra, de Mozart, K 466



Finíssima amargura recatada,
que exasperadamente se contém
de gritos e lamentos mas devém
doçura tensa tão dialogada
que nas mesuras fica disfarçada
a dor de ser-se, que sabemos bem
não ser este sorriso mas além
a dura soledade condenada
à morte e à desgraça. Nada mais
que o esgar tranquilo, insólito e discreto
a despontar entre insistências tais
que é como triunfo de um rigor disperso
em salpicado som órfão de afecto,
morto do amor em que flutua imerso.

Jorge de Sena

Foto:Yuri B

Citadinos



Como os buracos de um crivo, apertadas,
As filas de janelas; empurrando se,
As casas tocam se de perto, erguendo se
Pardas e inchadas como estranguladas.

Engalfinhadas umas nas outras vejo
No carro eléctrico as duas fachadas
De gente, descarregando olhares, caladas,
E cresce o emaranhado do desejo.

As paredes são finas como a pele,
Todos me ouvem quando choro, ou então
É como um berro a conversa ciciada:

Emudecidos, em caverna fechada,
Sem ninguém que lhes toque, olhe para eles,
Todos estão longe e sentem: solidão.

Alfred Wolfenstein 1914 (tradução de João Barrento)

Foto:Maury Perseval

O poema de um louco



I

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo
Crestou-lhe o peito, devorou seus dias
E a febre ardente desbotou-lhe a fronte
Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta: cantou, sonhou: a vida
Canto e sonhos lhe foi. Amor e glória
Com asas brancas viu sorrindo em vôos.
Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos
A fronte lhe acenderam, lhe estrelaram
Mágico da existência o firmamento.
Cantou, sonhou—amou: cantos e sonhos
Em amor converteu-os. De joelhos
Em fundo enlevo ele esperou baixasse
Alguma luz do céu, que amor dissesse

Anjo ou mulher! embora que ele a amara
C'o fogo queimador que o consumia
Com o amor de poeta que o matava!
Anjo ou mulher—embora! e em longas preces
Noite e dia o esperou—Mísero! Embalde!

Sonhou—amou—cantou: em loucos versos
Evaporou a vida absorta em sonhos—
E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos
Que sobre as mortas ilusões já findas
Pálido derramara—
Amou! E um peito
Junto ao seu não ouviu bater consoante
C'os amores do seu! Ninguém amou-o
E nem as mágoas lhe afogou num beijo!

E morreu sem amor.—Bateu-lhe embalde
O pobre coração em loucas ânsias.
Passou ignoto, solitário e triste
Entre os anjos do amor, só viu-lhe risos
Em braços doutros—e invejosa mágoa
Essa alheia ventura só lhe trouxe.
Nunca a mão dele de uma fronte branca
A alva coroa fez cair da virgem—
Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rosas da vida—mas nenhuma
Nem deu-lhe um riso—nem do moço pálido
No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se à terra saudades não deixara
Não levou-as também—do peito o orgulho
Que ninguém quis amar, ninguém amou.
—Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o,
Tentou-o ao menos. —E que importa um morto?
— Doido é quem geme em lagrimar estéril
Quando o luto findou e alegre o baile
Corre entre flores no valsar, quem lembra
O defunto que é podre no jazigo?
—Morrera-lhe o sonhar—por que chorá-lo?

E morreu sem amor! E ele contudo
Tinha no peito tanto amor e vida!
Alma de sonhos, tão ardentes, cheia!
E anelante do amor do peito—em outro
Em horas ternas e fundir em beijos!

E às vezes quando a fronte pela febre
Pesada e quente sobre as mãos firmava,
Quando esse delirar febril da insônia
Em vertigens travava de sua alma,
Um negro pensamento lhe passava
Como um fuzil no cérebro fervente,
E pensava dos loucos no delírio,
Na escura treva da vertigem tonta!
Temia—a morte não—mas—a loucura.

Álvares de Azevedo

Foto:Norman Jean Roy

Não canto porque sonho



Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade

Foto:Stanmarek

Os sete sapatos sujos



O primeiro sapato:
a ideia que os culpados são sempre os outros
e nós somos sempre vítimas.

Segundo sapato:
a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho

Terceiro sapato:
O preconceito de quem critica é um inimigo

Quarto sapato:
a ideia que mudar as palavras muda a realidade

Quinto sapato:
A vergonha de ser pobre e o culto das aparências

Sexto Sapato:
A passividade perante a injustiça

Sétimo sapato:
A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

Mia couto (retirado daqui)

Imagem daqui

Informação

Estranhamente apareceu há alguns dias este blog no meu perfil.
Não sei como aconteceu, o blog não é meu e não uso o nick-Kathleen Burch.
Se alguém souber como tirar aquilo do meu perfil, agradeço ajuda.
Obrigada.

A sombra sou eu



A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros

Foto:Stanmarek

Elegia



Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.

Nuno Júdice

Foto:Oleg Seleznev

terça-feira, janeiro 02, 2007

Haiku



Fora de mim
imagino na paisagem
a imagem do que fui.

Alice Ruiz

Foto da artista "poeta" da fotografia:-)

Eu e tu somos iguais



Saiu pela noite,
Pelas ruas do Porto,
Procurando os seus olhos
Num copo já morto.
Perdeu-se na vida
Encontrou-a na Foz,
Entre o Molhe e a Avenida
Há tanta gente a sós.
E eu e tu somos iguais.
Esconderam palavras
Por trás das palavras,
Disseram amor
Sem se perceberem.
Dançaram na estrada,
No asfalto dos loucos,
Entre o céu e o nada
Foram morrendo aos poucos.
E eu e tu somos iguais.
E pediram-se um beijo,
Uma mão que os agarre,
Parados no tempo,
Para que o tempo não pare.
E eu e tu somos iguais.

E quando perceberam
Que a noite era só deles,
Mataram desejos
E rolaram beijos
Colados ao corpo,
Perdidos no chão.

Então os dois foram um,
E o tempo nenhum
Para o que tinham para se dar,
Põe o teu corpo no meu,
Deixa a noite acabar.

Então de um fez-se dois,
E o tempo depois
Foi tão pouco para viver,
Põe o teu corpo no meu
Sente o meu a amanhecer.

Hei, hei, hei,
Eu e tu somos iguais...

Enrolou um cigarro
Que fumaram a dois,
Revivendo o prazer
Que viria depois.
Beberam olhares,
Lugares de veneno,
Nas paredes do quarto
O mundo é tão pequeno.
E eu e tu somos iguais.
Partiram no carro
A voar na cidade,
Encantados nas luzes,
Despistando a vontade.
Deram-se as mãos,
E os corpos também,
A 200 à hora
Não os vai vencer ninguém.
E eu e tu somos iguais.
E pararam o mundo
Numa rua qualquer,
Num abraço sereno
Sem ninguém perceber...
E eu e tu somos iguais.

Pedro Abrunhosa

Foto:Paul Bolk

Sísifo



em passos dispersos
por vezes inoportunos
sempre ao viés da vida
nos interstícios dos acasos
perpendicular a mim
por estradas
ora reais ora imaginadas
compulsivamente

caminho para me encontrar.

Poema:HFM



Fotos:Margarida Delgado

Paz:)



Utopia ou não, neste vídeo foi possível.
Arrepiei-me toda a ver.
Cliquem aqui por favor, para terem acesso ao mesmo.

PS:Recebido por mail.

Agarrei no ar...



Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.

Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.

Ruy Cinatti

Foto:Illych

segunda-feira, janeiro 01, 2007

A pouco e pouco, aloja-se-me no coração



A pouco e pouco, aloja-se-me no coração
a cicatriz da espera.
Alheio-me da minha cronologia porque o passado
se tornou permanente. Caminho tão perto do mar,
que Ulisses avalia a direcção do vento pelos vestígios
do meu respirar, lento ou apressado.

Graça Pires

Foto:José Marafona

Paz



1. Excesso de noite nos olhos de uma estrela.
Linha de luz e silêncio.
paralela à que os anjos fazem
quando voltam pra casa.
(Região desconhecida onde Deus faz suas orações).
Momento interno da alma
quando todos os sentidos perdem os sentidos.

2. Diz-se dos mísseis, das bombas e dos abrigos
subterrâneos
quando estão dormindo sob a terra em chamas
e os homens se queimando
numa guerra fria.

3. Espécie de cefaléia crônica:
doença muito comum aos loucos, nefelibatas,
poetas e soldados.

4. PAZ: ausência de conflitos entre pessoas míopes
(querendo fazer as pazes)
e que,
mesmo longínquas,
possuem a humanidade bélica dos kamikases
e a fraternidade suicida dos átomos.

5. PAZ: revelação provisória do nada absoluto,
esperança eterna, o último fruto
dos cogumelos do apocalipse.

6. PAZ: se houver Futuro,
uma criança apascentando as árvores.
Uma legião de chefes de estado
em estado de fotossíntese.

Antonio Barreto

Tela:René Magritte(Le grand guerre)

PS:Ironicamente hoje é o Dia Mundial da Paz.

Fantastic machine

Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

Foto:Stanmarek

PS:Sei que a maior parte das pessoas edita este poema, mas de facto é tão bom que é inevitável ser O escolhido:-)



Se não conseguirem ver, por favor cliquem aqui.

Desejo a todos um Bom Ano 2007, de preferência melhor que este que agora finda:)


Foto:Wind