quarta-feira, junho 24, 2015

Lisbon revisited (1923)



 Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos? 

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

O céu azul — o mesmo da minha infância! —,
Eterna verdade vazia e perfeita!
O macio Tejo ancestral e mudo.
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
O mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

Imagem retirada do Google

4 comentários:

FireHead disse...

Esse heterónimo do Pessoa só confirma que o homem era completamente despassarado. Mas afinal o sujeito poético é monoteísta ou politeísta??

O Pessoa não era católico. Aliás, ele era profundamente anti-católico. Mas considerava-se cristão, porém gnóstico. Já alguém me disse que ele era muito possivelmente rossacruciano, uma seita pseudo-cristã. Não é de todo impossível que ele tenha sido um completo alucinado a nível religioso.

De resto, e eu acho que vou cometer aqui um acto de lesa-pátria, eu não gosto do Pessoa.

Beijinhos.

wind disse...

Firehead, já escrevi aqui várias vezes que interessa-me o poema em si e não se o autor é politeista, monoteísta, ou anti-católico.
Isto que fique de uma vez bem esclarecido!

Fatyly disse...

Este poema/grito de Pessoa mostra bem como funciona os blá, blás apelativos para... numa cabeça cansada, destruída à beira do precipício. Nada como estar presente em silêncio.

Magnífico e dá que pensar mesmo!

Beijocas e um bom sábado

FireHead disse...

Mas aqueles que escrevem também gostam de buscar influências aos outros. E, nesse processo, convém perceber certas coisas.