domingo, abril 06, 2014

Amor e seu tempo



Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Observador disse...

A isto chama-se um soneto com classe.

Nilson Barcelli disse...

Não conhecia este soneto do autor.
Gostei muito.
Isabel, tem uma boa semana.
Beijos.

FireHead disse...

O amor começa tarde? Depende do conceito temporal de cada um. O que é que o Andrade quis dizer com isso? Será que começar aos 20 anos é tarde? :P

Fatyly disse...

Já conhecia e não me canso de ler Drummond. Este é profundo, sonante e muito verdadeiro.

ADOREI!

Beijocas