sábado, fevereiro 01, 2014

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Observador disse...

O regresso de Ramos Rosa...

Fatyly disse...

Potente...e belo!

Beijocas e bom domingo

FireHead disse...

É um homem mas descreve-se com adjectivos no feminino?

wind disse...

Lê bem, o poeta começa por escrever que é uma voz, logo feminino:)