sábado, outubro 15, 2011
sexta-feira, outubro 14, 2011
quarta-feira, outubro 12, 2011
Dizes

Pedes um cigarro
para acalmar a febre
que lavra nos dedos
dizes "meu amor
tomara que a vida
arda mais depressa"
fogem-te das mãos
pássaros de fogo
que rumam às estrelas.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.51
Imagem retirada do Google
segunda-feira, outubro 10, 2011
Glosa à chegada do Outono

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
Imagem retirada do Google
sábado, outubro 08, 2011
Advertência

Dizem-me distante da terra
e, qual judeu errante,
não pude criar raízes
(leia-se amigos
confrontos
países).
Que não vos espante
me sejam tão fáceis
os adeus.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág. 10
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quinta-feira, outubro 06, 2011
Subitamente

Subitamente
em pleno acto de amor
pediu-lhe um rosto
a mais crepuscular
prova de vida.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.35
Imagem retirada do Google
quarta-feira, outubro 05, 2011
Habilidades
Façam click e tenham uns bons momentos de descontração. As habilidades são impressionantes!
http://www.youtube.com/watch_popup?v=Vo0Cazxj_yc&vq=medium
PS:Desligar o som do blog no lado direito.
http://www.youtube.com/watch_popup?v=Vo0Cazxj_yc&vq=medium
PS:Desligar o som do blog no lado direito.
segunda-feira, outubro 03, 2011
A lucidez do amante que adormece...

A lucidez do amante que adormece
sobre o seio da amada é a respiração da palavra
que movendo-se se deita sobre o seu ténue leito
que é uma nuvem que avança e no ar se dissipa
Mas o seio da palavra é o seu horizonte
que está para além de uma montanha branca
de silêncio e vagarosa luz
e quando se abre é plumagem de uma ave
que não tem corpo e é o que não há
num cintilar de nulo sortilégio
em que a lucidez encontra o seio e o horizonte
que vibram com a côncava harmonia
de não serem mais que a ténue integridade
de uma matéria que se tornou ritmo e puro espaço
António Ramos Rosa
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sábado, outubro 01, 2011
Sem luz

Os dedos doridos
dançam na minhas mãos
ao som da música
que ainda sabemos entoar.
Mesmo doridos (os dedos) e as tuas mãos
em mim, são palavras de amor,
de esperança
e - talvez - de um fogo de nós.
Não me deixes sem luz.
Paula Raposo, in"Insubmissa", pág.27
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quinta-feira, setembro 29, 2011
terça-feira, setembro 27, 2011
A janela

A janela deve estar aberta
mesmo que a chama trema no pavio
e que os risos andem à solta
pelo quarto.
Mesmo que os vivos tenham frio
a janela deve estar aberta.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.36
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domingo, setembro 25, 2011
Arte poética

Andara muito, noutro tempo, por Lisboa
até que as ruas de repente se inclinaram
e ficaram viscosas e caladas.
Reparou que nas noites de verão
as esquinas cheiram intensamente a mijo.
Por isso foi ficando pela casa
que se encheu devagar de copos sujos
e de cuecas e meias pelos cantos.
Debruça-se agora muito mais
sobre o que escreve.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.48
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sexta-feira, setembro 23, 2011
Reparei

Na incandescência
do sol forte do meio-dia
reparei que a casa estava vazia
e as paredes reflectiam a tua ausência.
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.29
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quarta-feira, setembro 21, 2011
Por um instante

Na sala de espera, mulheres. A maioria acima dos quarenta. Cuidando de suas vidas. Sós. Exceto duas, sentadas ao lado dos maridos. Dois casais. Um, urbano, classe média, elegante. Outro, do interior, roupas simples, faces marcadas de sol e rugas. E por um instante, só por um instante, aquele em que, quase simultaneamente, as duas entraram na sala de exames, de mãos dadas com os companheiros, a solidão descompassou os corações das outras mulheres, sentadas sós, na sala de espera.
Márcia Maia
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segunda-feira, setembro 19, 2011
Como se faz o poema

Para falarmos do meio de obter o poema,
a retórica não serve. Trata-se de uma coisa simples, que não
precisa de requintes nem de fórmulas. Apanha-se
uma flor, por exemplo, mas que não seja dessas flores que crescem
no meio do campo, nem das que se vendem nas lojas
ou nos mercados. É uma flor de sílabas, em que as
pétalas são as vogais, e o caule uma consoante. Põe-se
no jarro da estrofe, e deixa-se estar. Para que não morra,
basta um pedaço de primavera na água, que se vai
buscar à imaginação, quando está um dia de chuva,
ou se faz entrar pela janela, quando o ar fresco
da manhã enche o quarto de azul. Então,
a flor confunde-se com o poema, mas ainda não é
o poema. Para que ele nasça, a flor precisa
de encontrar cores mais naturais do que essas
que a natureza lhe deu. Podem ser as cores do teu
rosto – a sua brancura, quando o sol vem ter contigo,
ou o fundo dos teus olhos em que todas as cores
da vida se confundem, com o brilho da vida. Depois,
deito essas cores sobre a corola, e vejo-as descerem
para as folhas, como a seiva que corre pelos
veios invisíveis da alma. Posso, então, colher a flor,
e o que tenho na mão é este poema que
me deste.
Nuno Júdice
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sábado, setembro 17, 2011
Espuma

Que me marque
uma vaga branca de espuma
e o mar deixe o verde
odor da maresia.
Que me lembres
os passos na areia
e as conchas me ensinem
o que não sei.
Desejo navegar
e perder-me em cada porto
que não encontro.
Paula Raposo, in"Insubmissa", pág.42
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quinta-feira, setembro 15, 2011
Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa
de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz
do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá
irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
Rui Knopfli
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terça-feira, setembro 13, 2011
Pardal

A morte de um pardal
é certamente
uma pequena morte.
-E vai para o céu?
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág.13
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segunda-feira, setembro 12, 2011
sábado, setembro 10, 2011
Livre circulação

Andou livremente na cidade
até que a morte lhe pôs a sua máscara.
Guiado pelo néon azul-pálido
e pelas camas de cartão dos sem-abrigo
estragou a alma em condensados de tabaco
e as mangas com gordura e vinho tinto.
Foi seduzido pelas putas e faquistas
que partilham silenciosos as esquinas
e mais-que-bêbedo tropeçou na Lua-cheia
"hei-de marcar-te a face um dia destes..."
Manuel Filipe, in"O Rosto Remoto", pág. 25
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