domingo, maio 24, 2009

Poeminha tentando justificar minha incultura



Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.

Millôr Fernandes

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sábado, maio 23, 2009

Ausência



Fala

Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está.

Daniel Faria

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sexta-feira, maio 22, 2009

Sextina



Tanto de amor se disse que não sei
Como dizer que amor é outra coisa
Que nem só o teu corpo me fez rei
Nem tua alma só me deu a rosa
Tanto se disse menos o dizer
Esta paixão que é de todo o ser

E ao fim do ser ainda a outra coisa
Mais do que corpo e alma e ser não ser
Como entre vida e morte e sexo e rosa
Um morrer e um nascer. Como dizer
Este reino em que sou o servo e o rei
Como dizer se tanto e ainda não sei

Como dizer este Elsenor sem rei
Se tanto disse menos o dizer
Esta paixão que sabe o que não sei
Em Elsenor de ser e de não ser
Senão que amor ainda é outra coisa
Como entre o corpo e a morte o anjo e a rosa

Como dizer do sexo a alma e a rosa
Se amor é mais que ter e mais que ser
Um morrer ou nascer ou outra coisa
Entre a vida e a morte e um não dizer
Senão que disse tanto e ainda não sei
Como dizer de amor se servo ou rei

Se disse tanto menos o dizer
Esta paixão da alma que não sei
Se é o sexo ou seu anjo ou só o ser
Entre a vida e a morte o breve rei
Deste reino que fica à beira-rosa
Do teu corpo onde amor é outra coisa

Como dizer de amor ser e não ser
Se amor mais do que amor é outra coisa
Mais do que ser e ter mais que dizer
Um morrer e nascer entre anjo e rosa
Ou entre o corpo e a alma o servo e o rei
Como dizer se tanto e ainda não sei.

Manuel Alegre

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quinta-feira, maio 21, 2009

Dona Eulália



Quando cheguei, a casa mortuária estava cheia de gente.

No centro da sala, forrada de preto, havia uma essa entre quatro enormes tochas acesas, e sobre a essa um caixão, dentro do qual D. Eulália dormia o último sono.

Já tinha passado a hora do saimento.

Faltava apenas o padre.

O padre não aparecia.

O viúvo, comovido, mas calmo, perfeitamente calmo, perguntou a um parente, que pelos modos tinha se encarregado do enterro:

- Então?.. . esse padre?..

- Já cá devia estar. O Tio Eusébio quer que eu vá buscá-lo?

- É favor, Casuza.

E o parente saiu muito apressado.

Dez minutos depois, o Ensébio aproximou-se de mim e disse-me baixinho:

- E nada de padre! Estava escrito que este dia não passava para mim sem alguma contrariedade...
* * *
Justifiquemos esse grito do coração.

O Eusébio não foi um marido feliz; D. Eulália, que tinha muito mau gênio, transformara-lhe a vida num verdadeiro inferno.

O pobre homem não tinha voz ativa dentro de casa; era repreendido como um fâmulo quando entrava mais tarde; devia dar contas de um níquel, de um miserável níquel que lhe desaparecesse do bolso!

Apesar de casado havia já quinze anos, ele não se pudera habituar a essa existência ridícula, e sentia-se envelhecer prematuramente na alma e no corpo.

Não tinha filhos, - e era melhor assim, porque com certeza, D. Eulália não lhos perdoaria. Pensava bem: pudesse ela contrariar a natureza, e fecundá-lo-ia, para humilhá-lo ainda mais!
* * *
Durante os primeiros tempos de regime conjugal, o Eusébio tentou reagir contra o mau gênio de D. Eulália; num dia, porém, que lhe falou mais alto e lhe bateu o pé, recebeu em troca uma tremenda bofetada, cujo estalo ressoou em todo o quarteirão. Durante quinze dias a vizinhança não se ocupou de outra coisa.

O marido que apanha da cara metade está perdido; o que apanha e chora, está irremessivelmente perdido. O Eusébio apanhou e chorou...

Daquele dia em diante foi-se-lhe toda a autoridade marital: tornou-se em casa um manequim, um pax vobis, um joão-ninguém.

Era, entretanto, um homem simpático, virtuoso, apreciadíssimo por numerosos amigos e muito conceituado na repartição de onde tirava o necessário para que nada faltasse a D. Eulália.
* * *
De todas as maçadas a que estava afeito o nosso Eusébio, nenhuma o ralava tanto como a de procurar cozinheira, o que lhe acontecia a miúdo, porque, graças ao mau gênio da dona da casa, a cozinha estava constantemente abandonada.

Como as impertinências de D. Eulália já tinham fama no bairro, e nenhuma criada queria servir aquela ama, o Eusébio era obrigado a procurar cozinheira muito longe de casa.

O que ele queria era alugá-la, mas bem sabia que, na venda, a recém-chegada seria logo posta ao corrente de tais impertinências.
* * *
Um dia o pobre marido foi muito cedo arrancado da cama pela mulher.

- Levante-se, tome banho, vista-se e vá procurar uma cozinheira!

- Quê!... pois a Maria...?

- Acabo de pô-la no olho da rua!

- Por quê?

- Não é da sua conta! Mexa-se!...

- Uma cozinheira que não estava em casa há oito dias!...

- Basta de observações! Quem manda aqui sou eu! Vamos! vista-se! E nada de agências, hem? olhe que se me traz cozinheira de agência, não passa da porta da rua!
* * *
Nesse dia o Eusébio teria purgado todos os seus pecados, se os tivera, e se D. Eulália não fosse já um purgatório bastante.

O pobre-diabo, que morava no Rio Comprido, foi, levado por informações, procurar uma cozinheira em São Francisco Xavier. Já estava alugada; entretanto, lá lhe disseram que no Morro do Pinto havia outra, muito boa, que lhe devia servir.

O desgraçado almoçou numa casa de pasto, encheu-se de coragem e subiu o Morro do Pinto.

A cozinheira não estava em casa; tinha ido passar uns dias com uma parenta, na Rua de Sorocaba, em Botafogo; mas um vizinho aconselhou o Eusébio a que não adiasse a diligência; a mulher trabalhava primorosamente em forno e fogão, era morigerada e estava morta por achar emprego.

Abalou o Eusébio para Botafogo, e encontrou, efetivamente, a mulher na Rua de Sorocaba, em casa da parenta, pronta já para sair. Por pouco mais, a viagem teria sido baldada.

Era uma mulata quarentona, muito limpa, de um aspecto simpático e humilde, que à primeira vista inspirava certa confiança.

Ela, pelo seu lado, simpatizou com o Eusébio, a julgar pela prontidão com que se ajustaram.

- Bem; amanhã lá estarei, meu patrão.

- Amanhã, não: há de ser hoje, porque se entro em casa sem cozinheira, minha mulher...

O Eusébio interrompeu-se - ia deitando tudo a perder, - e emendou:
... minha mulher, que é muito boa senhora, mas nem sempre acredita no que eu digo, há de supor que me remanchei.

- Nesse caso, meu patrão, é preciso que eu vá primeiramente ao Morro do Pinto.

- Pois vamos ao Morro do Pinto... respondeu resignado o resignado Eusébio.
* * *
Era quase noite fechada, quando o infeliz marido, fatigadíssimo, doente, sem jantar, entrou em casa acompanhado da mulata.

D. Eulália recebeu-o com duas pedras na mão:

- Onde esteve o senhor metido até estas horas? oh! que coisa ruim... que homem insuportável... Só a minha paciência!...

- A senhora não calcula como me custou encontrar esta mulher, mas, enfim... parece que desta vez ficamos bem servidos.

- Pois sim, resmungou D. Eulália, - vão ver que é alguma vagabunda!

E, voltando-se para a mulata, disse-lhe com a sua habitual arrogância:

- Chegue-se mais! Não gosto de gritar e quero que me ouçam!

A cozinheira aproximou-se com um sorriso humilde de subalterna.

- Como se chama? perguntou D. Eulália.

- Eulália.

- Eulália?!

- Eulália, sim, senhora!

- Eulália?! Rua! Rua!

E voltando-se para o marido:

- Pois o senhor tem a pouca vergonha de trazer para casa uma cozinheira com o mesmo nome que eu? Que desaforo!...

- Mas, senhora.

- Cale-se! Não seja burro!
* * *
Creio que o Eusébio está justificado: a morte de D. Eulália não poderia contrariá-lo.

Artur Azevedo

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quarta-feira, maio 20, 2009

Suicídios ou nem por isso...



Joaquim Sevício decidiu pôr termo à vida atirando-se da janela de sua casa. Como morava no rés-do-chão teve de saltar saltar onze vezes até conseguir despedaçar-se no asfalto.

Fernando Gomes, visto na Minguante.

Foto retirada do Google

terça-feira, maio 19, 2009

O novo Homem



O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, maio 18, 2009

Haiku LXVIII



O cântico da terra:
-Muito ao longe as estrelas escutam
o grilo, a coruja, a rã
.

Manuel Filipe, in"O Sol nos Olhos", pág.29, Apenas Livros

domingo, maio 17, 2009

***



"As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade."

Victor Hugo

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sábado, maio 16, 2009

Como odeio banalidades



Eu, que sou mais banal e vulgar que a mais banal das mulheres.
Eu, que sou tão comum que nem preciso olhar-me ao espelho,
Igual que sou a tantas outras mulheres,
Com que me cruzo e das quais não me distingo.
Eu odeio a banalidade!
Odeio as frases feitas de quem pergunta:
- Olá como está? E nem quer saber.
Odeio os bons dias, as boas tardes, as boas noites,
Ditos sem pensar,
Ou a pensar em coisa nenhuma,
Ou a pensar noutra coisa qualquer que não o desejo,
Que o dia, a tarde, ou a noite nos corram bem e sejam bons.
Eu odeio frases feitas!
Odeio as vizinhas à janela,
As amigas e amigos nos cafés, nos bares, nos autocarros,
Com vidas tão fúteis e pequeninas que dissecam as dos outros,
Que cortam a casaca dos melhores amigos pedaço a pedaço
Achando que os amigos são os melhores amigos, e nunca cortariam as deles.
Mas cortam!
E são más-línguas, maus caracteres, sem carácter!
Eu odeio vizinhas a bisbilhotar à janela!
E as pessoas que passam?
E a multidão anónima que percorre as ruas em zig-zag evitando pedintes e mãos que se estendem?
E que colam a mala ao corpo achando que ser pobre é ser ladrão.
E se aconchegam na roupa comprada na zara, ou nos mercados de rua,
Mas muito sua!
E que são caridosos, piedosos, apiedados,
Compreensivos com a desgraça alheia se não tiverem de dar um cêntimo
E a caridade for só da boca para fora!
Eu odeio a caridade hipócrita da multidão!
E os gajos?
Os gajos mesmo gajos!
Os gajos na verdadeira acepção da palavra!
Os que se sentam em esplanadas ou se encostam em montras esperando as mulheres,
As deles,
E discretos apreciam pernas e cus das outras,
As que passam.
E lambem os beiços, e coçam os tomates e pensam ou dizem:
- Esta gaja é muita boa!
Como odeio a frase” esta gaja é muita boa”!
Dita por gajos que em casa têm mulheres que nem olham.
E às quais nem falam.
E que na cama despacham sexo e mulher,
Despejando o desejo das gajas boas que comeram com os olhos.
Na rua.
Ah! Como eu odeio estes gajos!
E as gajas?
As santinhas, as pudicas, as que têm sempre na ponta da língua um:
Ai credo, um julgamento, uma condenação.
As que são contra o aborto, contra a pílula, contra a educação sexual,
Contra tudo que seja sexo!
Escrito, pintado, feito ou falado.
E quando têm “maus pensamentos” correm às sacristias:
- Sr. Padre sonhei que estava a fazer sexo oral, confessam.
Como se sexo oral fosse um pecado capital,
Esquecendo que só o peixe morre pela boca.
E lavam as mãos nas pias,
E cumprem todas as penitências,
Mas falam do sexo da vizinha que é uma descarada.
E são donas de verdades absolutas.
E nunca têm dúvidas.
E só dizem…
B a n a l i d a d e s!
Ah! Como odeio falsas santinhas e ratas de sacristia!
E eu?
Eu que sou banal, normal, vulgar, mas odeio a vulgaridade,
Eu que mando à merda quem me chateia
Eu que escrevo asneiras se me dá na gana,
E que para um sacana sou sacana e meia!
Eu odeio sacanas!
Aqueles de falas mansas e que parecem santos,
E que dão a roupa toda e pelos outros ficam em pêlo,
Mas em casa vão ao pêlo às mulheres,
E deixam-nas:
Negras de pancada,
Negras de dor,
Negras de pavor.
Ah …Se pudesse dava um tiro nos cornos desses sacanas!
E de outros:
Os abusadores, os ladrões de inocências,
Os que roubam infâncias e semeiam pesadelos.
Esses castrava-os a todos!
Os do passado, do presente e do futuro,
Já que a justiça não castra senão a esperança de justiça!
…
Eu, que sou mais banal e vulgar que a mais banal das mulheres,
Eu, que por fora ninguém distingue ou olha duas vezes ao passar.
Odeio banalidades!

Encandescente, visto no Palavras D'Ouro

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sexta-feira, maio 15, 2009

Bolsas de água



Rompeu-se a bolsa.
Ficou meu filho solitário
Sem o aguado travesseiro.

A minha gata, essa,
É ela quem rasga.
Gestos ternos, precisos.
Lambidela sábia.
Cada gatinho desenrolado da capinha ténue,
Um quase nada que os torna vivos.

A minha bolsa rasgou-se.
Água transparente e muco
(ou seria baça, nem recordo)
A bolsa de águas solta,
Sem mimo e sem segredo,
Instantes antes que viesses ao mundo.

Maria de Fátima

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quinta-feira, maio 14, 2009

A arte de ser amada



Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.

Natália Correia

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quarta-feira, maio 13, 2009

Haiku XLVII



Crepúsculo verde-
as algas seguem o Sol
e resplandecem no mar.

Manuel Filipe, in"O Sol nos Olhos", pág.21, Apenas Livros

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terça-feira, maio 12, 2009

Um sorriso para Cibele



Aqui não há nada, Cibele,
a não ser uma alameda estreita
com renques de flores à esquerda e à direita.

As flores são daquelas de que eu não gosto, Cibele.
Pretensiosas.
Zínias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.
As flores de que eu gosto são das que ninguém planta nem semeia,
daquelas que a gente passa e diz: "Olhe, faz-me favor.
Sabe-me dizer como se chama esta flor?"

Não gosto delas, não,
mas à falta de melhor, Cibele,
é nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs quando aqui passo para as ver
acaricio-as à flor da pele
e balbucio as palavras que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

António Gedeão, in"Poesia Completa António Gedeão", pág.143, Ed. João Sá da Costa LDA

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segunda-feira, maio 11, 2009

3ª. Edição do Prémio Literário da Lusofonia

3ª. Edição do Prémio Literário da Lusofonia.

Regulamento para quem gosta e sabe escrever.

Salvador Dali (11 de Maio de 1904-23 de Janeiro de 1989)

Insinceridade



Quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura

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domingo, maio 10, 2009

***



"Não são as catástrofes, assassinatos, mortes, doenças, que nos envelhecem e nos matam; é a forma como as pessoas olham e riem, e apressam os passos para os ônibus."

Virginia Woolf

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sábado, maio 09, 2009

Haiku XLVIII



Fora, cai a chuva.
Dentro, os amantes desejam
que ela nunca acabe.

Manuel Filipe, in"O sol nos Olhos", pág.21. Apenas Livros

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sexta-feira, maio 08, 2009

Escuridão



Entrei e fechei a porta.

Se tocarem,
Não atendo.
Não entra ninguém.
Chega de querer
Impossíveis
De percorrer
Imensos corredores
De um lado para o outro
E gastar o soalho
Com o meu peso...
Basta de escuridão,
Agora mereço
Um pouco de luz!

Paula Raposo, in"Nevou este Verão", pág. 26, Apenas Livros

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quinta-feira, maio 07, 2009

Dominó Original



Fantástico.