segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rotina



A angústia cola-se ao corpo
Como se fosse pele.
E o corpo torna-se errante,
Erróneo e estrangeiro.
As horas arrastam-se,
E o tempo é certeza
Que vivendo o dia,
Não o vivi inteiro.
Há a vontade da partida,
De despir a angústia,
De abandonar o corpo.
E voltar a um tempo que não me lembro.
Ou partir,
E esquecer quem fui.

Encandescente, in"Bestiário", pág.26, Edições Polvo

Foto:Elena Vasilieva

Encontro



Procuro os que sabem de mim.
Os que disseram ter me ouvido falar.
Os que me encontram, quando me perco.

Em quantos poemas estou presente?
Em qual deles era verdade?

Perco-me um pouco todo dia,
para me encontrar em tantos outros.
Não revelo, nem disfarço.
Apenas passo.
Mas há momentos em que me demoro.

Celso Brito

Foto:Sergey Militsky

Visto a esta luz



Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como não querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade.

Mário Cesariny

Foto:Niko Guido

Gozo e dor



Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
– Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso do gozo é dor.
Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a razão.

Almeida Garrett

Foto:Paul Dzik

Literatura explicativa



O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol.

Ruy Belo

Foto:Wayne Willis

domingo, janeiro 20, 2008

Poema que aconteceu



Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Rakesh Syal

Vai-te, Poesia!



Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!

José Gomes Ferreira

Foto:Piotr Kowalik

O sorriso



Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro,apetecia
entrar nele,tirar a roupa,ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr,navegar,morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Foto:Yuri Bonder

Lenda dos sonhos



Noite
lenta, eterna, magia dos espíritos...
Apalpo a distância do movimento...
O brilho profundo do luar
Aquece o gesto sentido do amor
E transformo-te na lenda dos sonhos.
As estrelas cantam o brilho sublime
Dentro da ternura do teu olhar
Reflectindo sobre a imensidão do oceano
O calor sensual do teu abraço.
Murmúrios delicioso povoam os céus
Embalando a doçura dos teus beijos
E o arco-íris eleva-se no horizonte
Colorindo as ondas quentes dos teus cabelos
Por onde navegam as verdades dos teus sentimentos.
Os sentidos flutuam pelo aroma verdadeiro
Da simplicidade da tua generosidade
Criando a simbiose dos teus desejos.
Na canção embriagante dos sinos celestiais
Envolvo-me na tua sinceridade
E torno-te eterna dentro do meu peito.

Jorge Viegas

Foto:Niko Guido

sábado, janeiro 19, 2008

Poema da menina tonta



A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
p'ra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...

E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Manuel da Fonseca

Foto:Yuri Bonder

Poema XLIV



Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

Foto:Adolfo Valente

Seus olhos



Seus olhos --- se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett

Foto:Stanmarek

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Andava a lua nos céus



Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A ainda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.

António Botto

Foto:Vladimir Labaj

Antítese



Na exatidão
sou a distância maior
entre dois pontos distintos

No sonho
sou o medo daquele
que está sempre acordado
a espreitar o inimigo

Na vida
sou o saltimbanco
que apresenta seu espetáculo
para uma platéia entorpecida

No filme
sou a cena de ação
onde morre o mocinho

Na fuga
sou a distância que separa
o ataque da presa

No amor
sou a semelhança cômica
entre a careta do orgasmo
e a agonia da morte

Na noite
sou a prostituta sem nome
de sexo carnudo
servido a todas

No beijo
sou a boca de homem
com lábios fortes
apertando a alma
sem sentimentos

Na hipótese
sou a dúvida
que desmente a tese
e mantém o problema

No fim
serei poeta
para poder tudo outra vez.

Celso Brito

Foto:Piotr Kowalik

Infinitamente presente



No voo
pela noite dos leves mistérios
Onde as estrelas se transformam em anjos,
O sonho liberta um calor profundo,
Enchendo o infinito de fogo e paixão.

O murmúrio dourado dos teus olhos,
Transforma-se no raio de luz
Que multiplica a estrada da vida
Clarificando a imagem do amanhã.

Os segredos vão voando docemente
Por entre vagas de suspiros,
E as recordações vagueando
Pelos recantos da memória transparente.

Simples histórias quentes,
Remexendo com o passado recente,
Crepúsculo de energia crescente
Paraíso da sereia apaixonada.

No esplendor da viagem
Encontro o brilho da canção
Sorrindo alegremente
E descubro a pureza da tua imagem.

Jorge Viegas

Foto:Yuri Bonder

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Chove!



Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

Foto:M Jo

Cidade Noturna



Crescem seios e sexos
nos banheiros públicos
das praças de silicone

uma rua leva ao cais
outra ao caos

distribuo panfletos católicos
em avenidas de nossa senhora
os sinos contam histórias
que me excitam e empalidecem

visito dom zico
em taberna de palha
e teto de zinco
que me serve café com notícias

um relógio mede o tempo
e o fedor da carniça
a noite revela o que o dia esconde:
o vai e vem das esquinas

Celso Brito

Foto:Alex Sade

Pediste e te dei



Tu, pediste a rosa,
Dei-te.

Uma vez em meus braços,
pediste-os,
eu dei.

Com, doçura pediste,
fidelidade,
e dei.

Quando falei vantagens,
dos sonhos meus,
tu pediste,
e os dei.

Para o mundo andar,
minhas pernas,
as dei.

O tempo fez uma volta,
o arco reluziu,
te dei.

Meu tronco,
o abraçaste,
e a ti o dei.

O horizonte infinito,
tal qual a desejo,
e o dei.

Minha cabeça,
junto os pensamentos,
a ti dei.

Nada mais restando,
para te dar,
devolveste-os.

E, novamente,
não pediste a rosa
mas a ti dei.

Uma vez pediste-me,
por inteiro,
e me dei.

Eis o ciclo do amor:
esse se dar,
receber-se de volta,
e, de novo, dar-se.

José do Vale Pinheiro Feitosa

Foto:Antonio Díaz

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Entre a sombra...



Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.

Maria Alberta Menéres

Foto:Yuri Bonder

Quanto de ti, Amor...



Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

Jorge de Sena

Foto:Niko Guido