sexta-feira, dezembro 09, 2005

Meshidoki ya toguchi ni aki no irihi kage



Hora do almoço.
Pela porta, com os raios de sol,
As sombras do outono.


Chora


Imagem daqui

Aforismo



"Prisioneira do corpo, a alma vive em guerra com o carcereiro."


C. Drummond de Andrade, alma


Foto:ArturMaksymilian

Motivo



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles

Foto:José Marafona

quinta-feira, dezembro 08, 2005

O anão triste



De pau em riste
O anão Cidão
Vivia triste.
Além do chato de ser anão
Nunca podia
Meter o ganso na tia
Nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:
O porongo era longo
Feito um bastão.
E quando ativado
Virava... a terceira perna do anão.
Um dia... sentou-se o anão triste
Numa pedra preta e fria.
Fez então uma reza
Que assim dizia:
Se me livrasses, Senhor,
Dessa estrovenga
Prometo grana em penca
Pras vossas igrejas.
Foi atendido.
No mesmo instante
Evaporou-se-lhe
O mastruço gigante.
nenhum tico de pau
Nem bimba nem berimbau
Pra contá o ocorrido.
E agora
Além do chato de ser anão
Sem mastruço nem fole
Foi-se-lhe todo o tesão.
Um douto bradou: Ó céus!
Por que no pedido que fizeste
Não especificaste pras Alturas
Que lhe deixasse um resto?
Porque pra Deus
O anão respondeu
Qualquer dica
É compreensão segura.
Ah, é, negão? Então procura.

E até hoje
Sentado na pedra preta
O anão procura as partes pudendas...
Olhando a manhã fria.

Moral da história:
Ao pedir, especifique tamanho
Grossura quantia.

Hilda Hilst

Imagem daqui

Gostas da palavra litote?



Gostas da palavra litote?
é um tropo.
e não gostas da palavra tropolitote?
então diz comigo:
tropolitóóóóóóóte !
litote
tropope
tropolipope
tripopopote
tripolitripolitote
tripolitripolipoli
toliloli
tropopopoli
tripopeli
popoli
poplili
popli
popliiii.

Ana Hatherly

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Reflexos



Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.

Ana Luísa Amaral

Imagem daqui

quarta-feira, dezembro 07, 2005

E subitamente é noite



Cada um de nós está só no coração da terra
atravessado por um raio de sol;
e subitamente é noite.


Salvatore Quasimodo

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Encantamento



Vi as mulheres
azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.

Nuno Júdice

Foto:Frida Kahlo

terça-feira, dezembro 06, 2005

Ar de nocturno



Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Lorca

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Devo igualar-te a um dia de verão?



Devo igualar-te a um dia de Verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival em breve instante.

muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza,

Só teu verão eterno não se acaba
nem a posse de tua formosura;
de impor-te a sombra a Morte não se gaba

Pois que esta estrofe eterna o Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há de viver meu verso e te dar vida.

William Shakespeare

Foto: Andrzej Dragan

domingo, dezembro 04, 2005

doze haikais de interior



1
são garagens da
eternidade, onde os
passos progridem.

2
carros parados
alinham como tumbas
brilhantes, lisas.

3
pode avançar-se
na ordem perfeita da
geometria?

4
sombras nos bancos
são encostos, ou gente
tumulada aqui?

5
desconhecemos
qual o olhar cego que
se fixou em nós.

6
quando darás o
irreversível passo,
boca ofertada?

7
é impossível
conter a equídea
força que virá.

8
reluzem gotas,
volumes simétricos;
acendem luzes.

9
a mente activa
as cúpulas, os claustros,
lâmpadas altas.

10
colunas vivas
começam agora a
veloz ancensão

11
anjos voltejam
entre telhas dispersas,
nuvens vermelhas.

12
no teu abraço
mulher interminável,
quero descansar.

v.o.j.
2005

Vítor Oliveira Jorge

Foto:Wesoły Oberżysta

Sem título



" Le travail est l'opium du peuple et je ne veux pas mourir drogué. "

(o trabalho é o ópio do povo e não quero morrer drogado)

Boris Vian

Imagem daqui

Parabéns Jacky:)



Porque és uma pessoa que merece, porque és simpática, porque estás sempre pronta a ajudar, porque és PESSOA, parabéns Jacky;)
beijos.

E junto vai um poemita:


Poesia-cão




Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.


Alexandre O'Neill


Imagem daqui

sábado, dezembro 03, 2005

Cavalheiro só



Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
e as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
e as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
e os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam minha casa solitária,
inimigos jurados de minha alma,
conspiradores em traje de dormir,
que trocaram por senha grandes beijos espessos.

O Verão radiante conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos
de pares gordos magros e alegres tristes pares:
sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
há uma vida contínua de calças e galinhas,
um rumor de meias de seda acariciadas,
e seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
seduziu sua vizinha inapelavelmente
e a leva agora a cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou são príncipes apaixonados,
e lhe acaricia as pernas, véu macio,
com suas mãos ardentes, húmidas que cheiram a cigarro

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
se unem, dois lençóis que me sepultam,
e as horas de após almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
e os animais fornicam sem rodeios
e as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
e os primos brincam de estranho jeito com as primas,
e os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
e as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
e inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
sobre leitos altos, amplos como embarcações;
seguramente, eternamente me rodeia
este respiratório e enredado grande bosque
com grandes flores e com dentaduras
e raízes negras em forma de unhas e sapatos.

Pablo Neruda (Tradução de José Paulo Paes)

Foto:Vivienne Westwood

Leio-te:



Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola:
— Do seu cabelo o delicado cheiro,
Da sua voz o timbre prazenteiro,
Tudo do livro sinto que se evola ...

Todo o nosso romance: - a doce esmola
Do seu primeiro olhar, o seu primeiro
Sorriso, - neste poema verdadeiro,
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.

Sinto animar-se todo o meu passado:
E quanto mais as páginas folheio,
Mais vejo em tudo aquele vulto amado.

Ouço junto de mim bater-lhe o seio,
E cuido vê-la, plácida, a meu lado,
Lendo comigo a página que leio.

Olavo Bilac

Foto:Marta Glinska

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Digam que foi mentira



Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum.

Ruy Belo

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Soneto



Fresca, lozana, pura y olorosa,
gala y adorno del pensil florido,
gallarda puesta sobre el ramo erguido,
fragancia esparce la naciente rosa.

Mas si el ardiente sol lumbre enojosa
vibra, del can en llamas encendido,
el dulce aroma y el color perdido,
sus hojas lleva el aura presurosa.

Así brilló un momento mi ventura
en alas del amor, y hermosa nube
fingí tal vez de gloria y de alegría.

Mas, ay, que el bien trocóse en amargura,
y deshojada por los aires sube
la dulce flor de la esperanza mía.

José de Espronceda

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Amor



"Nossa capacidade de amar é limitada, e o amor infinito; este é o drama."


Carlos Drummond de Andrade, amor

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quinta-feira, dezembro 01, 2005

O amor e o outro



Não amo
............... melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquesito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
...............até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente..

Affonso Romano de Sant'Anna

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Yo no soy yo



Soy este
que va a mi lado sin yo verlo;
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces, olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
el que perdona, dulce, cuando odio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pié cuando yo muera.


Juan Ramon Jimenez

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