sábado, março 01, 2014

Poema aos homens constipados



Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,

Já vejo a morte nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.


António Lobo Antunes

Imagem retirada do Google

4 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Este poema é magistral.
E põe a nu a mariquice que há em cada homem...
Tem um bom fim de semana.
Beijos.

Fatyly disse...

Um clássico e quando o leio farto-me de rir... porque é um espelho para a maioria dos homens hehehehe

Beijocas e um bom domingo

Observador disse...

Mariquices ... :)

FireHead disse...

O problema é a falta da Lurdes! :)