quinta-feira, setembro 11, 2008

A vazia sandália de S.Francisco



A gratidão da macieira e a amnésia do gato
nunca pautaram o curso dos meus dias.
Fiquem onde estão!
foi a minha ordem para a macieira e para o gato,
anda bem exteriores ao meu fraco por eles.

Salvei-os(e salvei-me!)de uma fábula
cuja moral necessariamente devia ser eu,o parlante
amigo de macieiras e conhecidos de gatos.

Dá um certo desconforto malbaratar assim amigos
em dois reinos da natureza.
Mas também dá liberdade.

Há uma gente que desponta do outro lado do vale.
Está a correr para cá.
São os meus semelhantes.
Com eles vou desentender-me(mais que certo!),
mas a ideia que deles faço
é ainda um laço.

Repousem em paz as macieiras e os gatos.

Alexandre O'Neill

Foto:Mario Spalla

11 de Setembro

América-11/09/01-Torres Gémeas



Chile-11/09/73-Morte de Salvador Allende



Fotos retiradas do Google

quarta-feira, setembro 10, 2008

Andava a lua nos céus



Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinho..., até cair.

António Botto

Foto retirada do Google

Brandi Carlile- The Story



Porque sim.

***



Código

Não sabia ler, mas nunca o confessara a ninguém. Entrava na mercearia muito altiva e comprava tudo como as outras pessoas. Conhecia os títulos de cor e adivinhava o conteúdo pelas cores. Um dia, mudaram as embalagens. Não sabia que produto comprar, mas não se queixava. Comprava o mesmo que os outros e depois vinha trocar.

Ana Mendes

O desejo

Ela chega outra vez com seus sorrisos, seus fantasmas, as frases desconcertantes, o cabelo preso porque tem algo importante a dizer. Acende um cigarro porque vai parar de fumar e me diz coisas cruéis. Depois me beija e quer conversar, conversar, conversar. Me fala sobre seu dia, sobre a situação mundial e sobre como não liga pra nada disso. Depois caminha descalça no quintal sob a lua cheia e canta algo inesperadamente antigo, me deixando calado diante de seu caos criativo, seus poemas curtos, seus quadros indecifráveis. Ela é um mistério do qual deveria me manter longe, longe, longe, não fosse esta maldita curiosidade.

Avery Veríssimo

Sorri, amor – pediu ela. Já arrependido do pacto de suicídio, ele foi incapaz de satisfazer esse seu último desejo.

Depois de acariciar demoradamente a lamparina mágica, a sensual fada satisfez seus desejos três vezes.

A bofetada deixou-lhe a marca dos dedos na face. Ao pensar em lhe pedir desculpas, desejou sentir novamente aquela mão em sua cara.

Ele viera de outro planeta com uma missão. Mas agora que conhecera o sabor de uma mulher, ser mais um maldito terráqueo era seu único desejo.

Carlos Seabra

Visto na Minguante

terça-feira, setembro 09, 2008

O Analista de Bagé



Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu...

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha...

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas...

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

~//~

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

— Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira... Mas acabou concordando.

— Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?

— Bem — disse o home — é que nós tivemos um desentendimento...

— Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

— Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

— Não fala comigo!

— Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

— Ela tem um problema de carência afetiva...

— Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

— Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...

— Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

— Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

— Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

— O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

— Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

— Eu?

— Ela. Tu espera na salinha.

Luís Fernando Veríssimo

Foto:Divã de Freud visto na wikipédia

segunda-feira, setembro 08, 2008

***



DESEJOS ATLÉTICOS

"Desejo que esta carta te vá encontrar de saúde..."
Foi até onde Almerindo conseguiu ler porque um fulminante ataque cardíaco atirou-o para as urgências hospitalares.
Supersticiosa e sem papas na escrita, Isolina aderiu à correspondência on-line, que habitualmente termina assim:
"Se leste este e-mail até ao fim, parabéns. Conseguiste ser mais rápido que o próximo enfarte. Desejos de imensas e velozes corridas."

DESEJO RECONHECIDO

Conheceram-se numa propícia manhã de Sol, caindo nos braços um do outro de imediato, tremendo de desejo. "Desejo tanto possuir-te!" exclamou ele. "E eu a ti! E eu a ti ainda mais!" atalhou ela de rompante. Porque não desejavam iniciar a posse com uma discussão, foram ao notário: que ficasse exarado em certidão quem possuía quem e pela ordem desejada.

Alberto Oliveira visto na Minguante

domingo, setembro 07, 2008

Curtinhas



De quem é a culpa?
Do chão escorregadio?
Ou do piso liso do sapato?
Da natureza quebradiça dos ossos?
──────────────────────────────
Mal chegastes!
E estais saindo....
Afinal, o que é isto?
Uma cheguida.
─────────────────────────────
Um burguês, inchando de ter,
Teve tudo e tudo lhe teve.
Esqueceu que a morte é apenas ZZZZIIIIPPPT.
E é certa que vem.
──────────────────────────────
Januária e Joana juntas na janela, jamais.
Brigaram, brigona, brava.
Assuntos assim, sempre serão sucesso,
Pois choram a ubiqüidade ultrapassada.
──────────────────────────────
Só existe uma alternativa
Para o vazio estabelecido,
Pela inexorável despedida.
Preencher o vazio.
──────────────────────────────
Não sei se:
O rabo está na cabeça,
Ou vice-versa.
O chão no céu,
Ou o céu no chão.
A água é fogo,
Ou o fogo é água.
O gás é líquido,
Ou o sólido é pensamento

José do Vale Pinheiro Feitosa

Imagem retirada do Google

sábado, setembro 06, 2008

Por Mares Nunca D'antes Navegados



Decididamente,
escola não era o lugar de Camões...
Que me perdoem os mestres
com suas erudições,
mas, epopéia, era sair cedo da cama,
só para encontrar Vasco da Gama.
Cheia de sono,
nem o lia:
mal abria Os Lusíadas,
ao abandono de divagar
eu me entregava.
E como viajava:
Coimbra, Ceuta, Goa,
Índia, Moçambique, Lisboa...
Esta sim era a vida que eu sonhava...
E que vidinha boa!
Não a de estudos,
sisudos,
miúdos.
A certa altura,
logo depois da formatura,
quando cessou tudo o que a Musa antiga cantou
que outro valor mais alto se alevantou,
de Camões me perdi.
E só há pouco entendi
quanta aprendizagem havia
nas v(ad)iagens que eu, turista,
empreendia.
Então num movimento saudosista
— bem português —,
agora cheia de lucidez e nostalgia,
suspiro,
ao ver que de mim se distancia
por toda a parte, sem engenho, a arte.
E a conclusão final que eu tiro,
pá,
é de que mesmo sem eu ler poesia,
para o seu Reino, cheio de magia,
Camões, fidalgo, me levava lá...

Leila Míccolis

Imagem retirada do Google

Caprichos



Sozinho no universo
a procura de um paraíso,
recolho-me ao meu cantinho escuro
e como num descompasso desregrado
não atino com as consequências
do exagerado sonho meu.
Sofro nas entrelinhas
de pequenos caprichos,
mas na evolução natural
o meu mundo é perfeito,
perfeitamente completo
na insana busca da felicidade.

Germano Rocha

Foto:Gianni Candido

sexta-feira, setembro 05, 2008

Sei os teus seios



Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em desesperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser

Alexandre O'Neill

Foto:Hataiiia Hataiiia

Bucólica e Não



Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?

Jorge de Sena

Foto:Razaq Vance

quinta-feira, setembro 04, 2008

You've Got A Friend---carole King,Celine,Gloria,Shania



Porque é linda.

Tu Pensas que os Cardeais



Tu pensas
que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.

Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!

Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.

Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.

Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.

António Ramos Rosa

Foto:REUTERS/Jeff J Mitchell

quarta-feira, setembro 03, 2008

Kelly Osbourne ft. Ozzy Osbourne - Changes



Porque gosto.

Praia do Paraíso



Era a primeira
vez que nus os nossos corpos
Apesar da penumbra à vontade se olhavam
Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros
Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa
E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras
Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas
Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo
É preciso afinal chegar aos cinquenta anos
Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

David Mourão-Ferreira

Foto:jeh182_2nd

terça-feira, setembro 02, 2008

Comentário da Fatyly ao post anterior



- Levando para o campo da ditadura:com esse material todo, ela poderia esperar sentada pelo pior, mas quantas e quantas nunca receberam NADA e ainda hoje estão convencidas que se perderam no mundo!

- Levando para o campo do amor: acontece usarmos todo o material para uma fuga, quando se deixam sentimentos tão mal tratados.

- Levando para a actualidade: olha, olha o meu ômi voltou tão rico e cheio de prendas em "ouro" e tadinho trabalhou que se fartou.
Trimmm, Trimmm

O meu marido
saiu de casa no dia
que voltou tão rico.
Levava as mãos atadas
calças, camisola e cuecas
todas suadas
Como não tive mais notícias,
aguardo que volte com
com o mesmo tino
e com uma bonita guia
"termo de identidade e
continência"
ou será incontinência?
Atchim! Atchim
Oh Alexandre tu desculpa
mas hoje estou assim!

Fatyly

Imagem retirada do Google

A bicicleta



O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

Alexandre O'Neill

Foto retirada do Google

segunda-feira, setembro 01, 2008

Tão linda e serena e bela



Tão lenta e serena e bela e majestosa
[vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção
A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos.

Mário Quintana

Não há vagas



O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

o poema, senhores,
não fede
nem cheira

Ferreira Gullar

Imagem retirada do Google