domingo, setembro 29, 2013

Inventei a dança para me disfarçar.



Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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quarta-feira, setembro 25, 2013

Balança



No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.


Eugénio de Andrade

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segunda-feira, setembro 23, 2013

Lua

Entre a terra e os astros, flor intensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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sábado, setembro 21, 2013

Tua nudez


A rosa:
tua nudez feita graça.

A fonte:
tua nudez feita água.

A estrela:
tua nudez feita alma.

Juan Ramón Jimenez

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quinta-feira, setembro 19, 2013

In the morning you always come back


A fresta da madrugada
respira pela tua boca
ao fundo das tuas desertas.
Luz gris os teus olhos,
doces gotas da madrugada
nas colinas escuras.
O teu passo e o teu hálito
como o vento da madrugada
submergem as casas.
A cidade arrepia-se,
exalam cheiro as pedras –
és a vida, o despertar.

Estrela perdida
na luz da madrugada,
brisa que zune,
calidez, hálito -
a noite chegou ao fim.

És a luz e a manhã.

Cesare Pavese

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terça-feira, setembro 17, 2013

Dançam; dançam


Como se no mar as ondas
não se arqueassem o bastante.

Como se na terra as pedras
não se elevassem o bastante.

Como se no ar as nuvens
não rodassem o bastante.

Como se o azul planetário
não fosse o longe bastante.

Dançam.

Fiama Hasse Pais Brandão

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domingo, setembro 15, 2013

Quadrado


Deixai-me com a sombra
Pensada na parede
Deixai-me com a luz
Medida no meu ombro
Em frente do quadrado
Nocturno da janela

Sophia de Mello Breyner Andresen

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sexta-feira, setembro 13, 2013

O sorriso


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

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quarta-feira, setembro 11, 2013

Uma voz na pedra


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

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segunda-feira, setembro 09, 2013

sábado, setembro 07, 2013

quinta-feira, setembro 05, 2013

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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terça-feira, setembro 03, 2013

domingo, setembro 01, 2013