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quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Notas de ânimo leve



1

Miguel acabou de ler de manhã o livro que começara também de manhã. Procurou a lista telefónica, na lista o número e no número alguma coragem. Da editora não chegaram sequer a dizer-lhe que não (“Liga para aqui cada doido, valha-nos Deus!” Clique, som contínuo. Som intermitente). Inquirira com delicadeza se aos senhores editores seria possível providenciarem e remeterem-lhe por correio o mesmo volume, mas em branco... Suspirou. Dum livro assim, era-lhe importante conhecer o peso da tinta.

2

Ângelo é um escritor de última geração que recorre a métodos ao mesmo tempo moderníssimos e estranhamente primitivos (ou antes – muitos dirão – espantosamente desadequados). Começa sempre por imprimir a laser uma página perfeitamente negra. Com finas lixas, x-actos e agulhas, procede então à remoção de toda a tinta em excesso. Liberta assim o texto que permanecia, desde o início, aprisionado nas trevas. Um raspão mal medido sobre uma vírgula pode arruinar-lhe horas de trabalho. Escreve pouco, naturalmente.

Carlos Tijolo visto na Minguante Nº8

Imagem daqui

domingo, janeiro 13, 2008

Cabeça de vento



Todos estranhavam os brincos que ela usava. Enormes, pesados, cheio de badulaques pendurados. Só ela sabia que assim sua cabeça não ia parar nas nuvens!

Angela Schnoor visto na Minguante Nº8

Foto:Vladimir Labaj

sexta-feira, setembro 14, 2007

De porta em porta



-Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

-Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô

-Dinheiro? Isso não!
Já sei,pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele tem não tem mãe
e não é do Norte...

-Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

Alexandre O'Neill

Foto:Sorin Lazar

segunda-feira, agosto 27, 2007

A saca de orelhas



Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1

Não te ataques com os atacadores dos outros.

Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.

0 mesmo deves fazer com os açaimos.

E com os botões.

2

Não te candidates, nem te demitas. Assiste.

Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.

Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3

Tira as rodas ao peixe congelado,

mas sempre na tua mão.

Depois, faz um berreiro.

Quando tiveres bastante gente à tua volta,

descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4

Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre

um caixote com serradura à tua espera.

Pode haver. Se houver, melhor...

Esta deve ser a tua filosofia.

5

Tudo tem os seus trâmites, meu filho!

Não faças brincos de cerejas

sem te darem, primeiro, as orelhas.

Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6

Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que

te puseram em cima da cabeça?

Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.

É provável que te sintas logo muito melhor.

Sai, então, de baixo da pedra.

7

Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.

Poderias atrapalhar os trabalhos.

Os de pedra sobre pedra, entenda-se.

Mas dá sempre um "Bom dia!" ao pessoal do estaleiro.

Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8

Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre

com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo

a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.

Oxalá o consigas!

(...)

11

Resume todas estas sentenças delirantes numa única

sentença:

Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa

Alexandre O'Neill

Imagem daqui

sábado, abril 07, 2007

Merda e ouro



Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

Paulo Leminski

Imagem daqui

PS:Desculpem mas não resisto às "tiradas" deste poeta:)

quinta-feira, março 15, 2007

Border+Line



Borderline!
Borderline?
Que raio é isto?
Bordar à linha?
Pensou ela.
Então passou à acção.
Bordou o seu corpo
Fez imensos desenhos
Em ponto de cruz.
(Engraçado até o seu apelido era cruz)
Teve sede
Bebeu água
Quando acabou
A água saiu pelos lindos pontos
Que tinha feito em si própria.

Wind

Foto:Lubomir Arabadjiev

domingo, março 04, 2007

Hortelã



Ela tinha o cheiro das hortelãs ao sol e cabelos tão bem penteados que pareciam
quase não existirem. O vento cobria-a de tal forma, que ela parecia
poder voar ali mesmo, à frente de todos, senão fossem os seus cinquenta
quilos. Ao falar-lhe víamos que os argumentos daquela menina não tinham
qualquer lógica, só açúcar. Mas, era impossível resistir-lhe ao encanto, mesmo
que dissesse só baboseiras. Até que um dia arrancou o próprio coração
com as mãos e deixou-o a dormir num ninho de cegonhas. E nisto, o coração
iluminou-se tanto que incendiou.

Retirado daqui

Foto:mholm (manuel h)/ Manuel Holgado, o meu fotógrafo preferido do Flickr, a quem chamo Mestre.