sábado, maio 07, 2005

Olhares



Olho.
O verde das árvores
Ao longe os prédios
O barulho de umas obras
O chilrear dos pássaros
Os carros que passam
Entrecruzar de barulhos.
É estranha esta calma aparente
Com todos estes sons.

Foto:Anna Pagnacco

sexta-feira, maio 06, 2005

Teoria do Amor



Amor é mais do que dizer,
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.

Poema de: Manuel Alegre

Foto: Wind
Tratamento digital: ognid

Sono



Sono
Que vontade de dormir
A moleza apodera-se
O corpo fica sem força
O raciocínio mais lento
Abro a boca
Sem dar conta.
Mas a vontade de escrever
Faz-me estar aqui
Olho sem saber o que fazer
Penso no nada.
Como não sei como terminar
Escrevo: Fim!

Imagem daqui

Chove!



Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira

Imagem daqui

quinta-feira, maio 05, 2005

Aquela praça



Lembras-te de há anos
Estarmos naquela praça
Os dois muito enamorados?
Não existiam os filhos ainda
Só nós os dois.
Os anos passaram.
Aquela praça ficou sem os bancos
onde nos sentávamos.
Os filhos cresceram
já não brincam naquela praça.
Nem nós já lá vamos.
Tudo acabou
Mas aquela praça continua.

Foto:Ilia

Magro, de olhos azuis



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage

Imagem daqui

quarta-feira, maio 04, 2005

Olhos



Que olhos são esses
Cheios de tristeza?
Chove lá fora
Não podes sair para brincar.
Não vês os pássaros,
os cães, os gatos.
Esse olhar é lindo
Pensas no que estás a perder.
Mas amanhã
Ouvi dizer
Que está sol.
Aí já podes
Sair para a rua.

Foto:DR

As sem razões do amor



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:João Freitas

terça-feira, maio 03, 2005

Vida triste



Triste de quem é triste
A vida por vezes
É madrasta
Doenças
Fome
Guerras
E os senhores de mundo
A tudo assistem
Impávidos e serenos.
Hoje não me apetece calar
A revolta está cá dentro
Podemos ser poucos
Mas dos poucos
Fazem-se muitos!

Foto:Pablo Bartholomew

Madrugada



É madrugada
Tudo é silêncio
Nem o barulho de uma mosca
Se ouve
É a paz.
Dá para pensar
Só em coisas boas.
O belo que é
Estar em paz
Com tudo o que me rodeia.

Imagem daqui

domingo, maio 01, 2005

Desespero



Desespero angustiante
Este de estar sem computador.
Não poder fazer nada
Nem apetecer ver televisão.
É um vício que me deixa
De pernas e mãos atadas.
Estar sem o pc
É como estar isolada
De tudo e de todos.
Hoje tudo me corre mal
Não quero esta solidão.

P.S. tenho o pc avariado. amanhã já deve estar tudo resolvido.

sábado, abril 30, 2005

Ausente



Hoje estou ausente

Foto: Wind

sexta-feira, abril 29, 2005

Amizade



Conheci N. há 20 anos.
Ainda estudava no curso que fiz.
Ela foi minha professora,
confidente,
amiga nas horas boas e más.
Íamos para a farra sózinhas
No tempo da maluquice
Havia uma grande cumplicidade.
Ainda hoje somos amigas
E partilhamos os mais íntimos segredos
É uma amizade que se celebra
Como duas mãos fechadas.

Resposta ao desafio da Jacky

A tua voz fala amorosa...



Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não.
Qual é a mão cariciosa
Que há de ser enfermeira minha —
Sem doenças minha vida ousa —
Oh, essa mão é morta e osso ...
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso.

Fernando Pessoa

Imagem daqui

quinta-feira, abril 28, 2005

Tempo e espaço



Tempo e espaço
Preciso deles:
Tempo para me organizar,
espaço para mim.
Quero conhecer-me
Ver como reajo
Situar-me
Pensar
Evoluir
Estar bem comigo
E com os outros.
Voar
Descer à terra
Ser Pessoa.

"riscos" do (C) TCA - selfmirror

Casa de sol onde os animais pensam



Casa de sol onde os animais pensam
erguida nos ares com raízes na terra
ampla e pequena como um pagode
com salas nuas e baixas camas
casa de andorinhas e gatos nos sótãos
grande nau navegando imóvel
num mar de ócio e de nuvens brancas
com antigos ditados e flores picantes
com frescura de passado e pó de rebanhos
ó casa de sonos e silêncios tão longos
e de alegrias ruidosas e pães cheirosos
ó casa onde se dorme para renascer
ó casa onde a pobreza resplende de fartura
onde a liberdade ri segura

António Ramos Rosa

Foto:Rui Bonito

quarta-feira, abril 27, 2005

Estrelas



Estrelas da noite
Que me iluminam
E fazem sonhar
Brilham
São a luz da madrugada
Descansada observo-as
Passam as horas
Nascerá o sol
Mais um dia virá
E a vontade de o viver
Carpe Diem!

Imagem daqui

Lírica



No meu
jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive....
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado
Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti......

Miguel Torga

Foto:Claire Kayser roubada ao xupacabras

terça-feira, abril 26, 2005

Branco



Palavras em branco
No écran sem nada
Deixa-me uma vontade
De o preencher
Sinto que é necessário
Transmitir algo.
Mas só sinto
As ideias não saem.
Esta vontade de ocupar
Um espaço em branco
Faz-me estar tranquila.

Foto:Dionys Moser

Gozo IX



Ondula mansamente a tua lingua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!

Maria Teresa Horta

Foto:Klaus Goffelmeyer