sábado, outubro 20, 2007

Noite-Pétala



Posso estar aqui
eu posso estar aqui perfeitamente pobre
um círio me acende espora aguda
o vento ritmo negro assassinou-o

posso estar aqui
-o musgo é lento como a sombra-
e sei de cor a voz cega das canções
(viola de silêncio acorda-me)

que eu posso estar aqui perfeitamente pedra
insone
e um longo segredo impessoal
bordando a minha solidão.

Luísa Neto Jorge

Foto:zet_ka aa (zet)

Nunca são as coisas mais simples



Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

Foto:Howard Schatz

sexta-feira, outubro 19, 2007

Diana Krall - A Case of You



Just before our love got lost you said
I am as constant as the northern star
And I said, constantly in the darkness
Where's that at
If you want me I'll be in the bar

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh, Canada
With your face sketched on it twice

Oh, you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and you taste so sweet
Oh, I could drink a case of you, darling
And still be on my feet
I'd still be on my feet

Oh, I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't
I remember that time you told me
Love is touching souls
Surely you touched mine
Part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh, you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and you taste so sweet
Oh, I could drink a case of you,
I could drink a case of you, darling
And still be on my feet
And still be on my feet

I met a woman she had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said, go to him
Stay with him if you care
But be prepared to bleed

Oh, you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and you taste so sweet
Oh, I could drink a case of you, darling
And still be on my feet
I'd still be on my feet

Divinal!

Do pôr-do-sol, afinal...



Do pôr-do-sol, afinal,ficaram aves;
ou se quiserem, um vago chilrear...

Mas inda há pouco, flamejante, ardia o ar
e nele fervia uma pulsão intemporal.

Povoas o meu mundo de surpresas!
Iluminas e confundes as certezas,
nesta luz feroz, solsticial.

Manuel Filipe, in "Poemas de Manuel Filipe", Pág.156, Edição de Autor

Foto:Yuri Bonder

S/T

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto:Rene Asmussen

quinta-feira, outubro 18, 2007

***



Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Foto:Ludo Dijckmans

Rosa Rosae



Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Yuri Bonder

Nenúfar?



Leve e volátil
o teu corpo sobre a água
és um prisma
que reflecte o arco íris

És uma pétala doce
uma fragrância
ditoso cisne
a sorrir face a um íbis

Sabes a pouco
quando o sol
morre à tarde

Sabes a tanto
quando o meu desejo
arde.

Luís Graça visto no Palavras D'Ouro

Foto daqui

quarta-feira, outubro 17, 2007

Jeito de escrever



Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.

Irene Lisboa

Foto:Manuel Schaeffer

No silêncio da terra



No silêncio da terra.Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber,respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me,sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me,flectindo-me
no intervalo aberto.Não sei se principio.
Um rosto se desfaz,um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido,unido,silencioso umbigo
do ar.

Aí
o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.

António Ramos Rosa

Foto:Piotr Kowalik

terça-feira, outubro 16, 2007

Poema que aconteceu



Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.


A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:José Marafona

Entre as duas e as três



Entre as duas e as três
nada me ocorre

(além de insônia e poemas)

releio Ana Luísa
não me reencontro

à varanda só a noite
e o latir de um cão na vizinhança

(nem saudade)

onde os versos
que eu compunha?

onde o amor
antigo e louco que eu sentia?

(desisto)

talvez me voltem os versos
com o dia

(há louça suja à minha espera
na cozinha)

e o amor não passa de um
fantasma maltrapilho

conversa fiada de quem passou
acordada a madrugada.

Márcia Maia

Foto:Yuri Bonder

Adriano Correia de Oliveira (9 de Abril de 1942-16 de Outubro de 1982)

Trova do vento que passa



Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
o vento nada me diz.

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la, [Refrão]
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la. [Bis]

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Letra:Manuel Alegre
Música:António Portugal

segunda-feira, outubro 15, 2007

Haja névoa



Haja névoa!
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.

Reinaldo Ferreira

Foto:Zacarias Pereira da Mata

Estação



Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça.

Mário Cesariny

Foto:Hanna Björkstedt

domingo, outubro 14, 2007

Dulce Pontes & Júlio Pereira - Os Índios da Meia-Praia



Fabulosa interpretação de uma grande música!

Escrito com Tinta Verde



A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

Octávio Paz

Foto:Haleh Bryan

"Roubado" à Gi e mais uma vez aconselho a verem o seu magnífico blog, onde a Arte impera.

Se quiseres eu cubro a tua alma de açúcar



Se quiseres
eu cubro a tua alma
de açúcar

E se tiveres ainda
falta
de glucose

Deixa-me dar-te
ao fim do dia
um olhar doce

Luís Graça

Foto:Thorsten Jankowski

sábado, outubro 13, 2007

Estranha forma de vida



Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais

Amália Rodrigues

Foto:Elena & Vitaly Vasilieva

Deus que me fez e fizera



Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.

Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.

Reinaldo Ferreira

Foto:Paul Dzik