"O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer." Einstein
Rosa e todas as rimas Rosa e os perfumes todos Rosa no florindo espelho Rosa na brancura branca Rosa no carmim da hora Rosa no brinco e pulseira Rosa no deslumbramento Rosa no distanciamento Rosa no que não foi escrito Rosa no que deixou de ser dito Rosa pétala a pétala despetalirosada
Não sei que diga. E a quem o dizer? Não sei que pense. Nada jamais soube. Nem de mim, nem dos outros. Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas... Seja do que for ou do que fosse. Não sei que diga, não sei que pense. Oiço os ralos queixosos, arrastados. Ralos serão? Horas da noite. Noite começada ou adiantada, noite. Como é bonito escrever! Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto o jeito. Ao acaso, sem âncora, vago no tempo. No tempo vago... Ele vago e eu sem amparo. Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas! E por mais não ter que relatar me cerro. Expressão antiga, epistolar: me cerro. Tão grato é o velho, inopinado e novo. Me cerro! Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados, solta a outra, de pena expectante. Uma que agarra, a outra que espera... Ó ilusão! E tudo acabou, acaba. Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda? Silêncio. Nem pássaros já, noite morta. Me cerro. Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e solidão. Da indiferença. Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada. Noite vasta e contínua, caminha, caminha. Alonga-te. A ribeira acordou.
No silêncio da terra.Onde ser é estar. A sombra se inclina. Habito dentro da grande pedra de água e sol. Respiro sem o saber,respiro a terra. Um intervalo de suavidade ardente e longa. Sem adormecer no sono verde. Afundo-me,sereno, flor ou folha sobre folha abrindo-se, respirando-me,flectindo-me no intervalo aberto.Não sei se principio. Um rosto se desfaz,um sabor ao fundo da água ou da terra, o fogo único consumindo em ar.
Eis o lugar em que o centro se abre ou a lisa permanência clara, abandono igual ao puro ombro em que nada se diz e no silêncio se une a boca ao espaço.
Pedra harmoniosa do abrigo simples, lúcido,unido,silencioso umbigo do ar.
Aí o teu corpo renasce à flor da terra. Tudo principia.
Haja névoa! Dancem os véus na minha alma (E externos nas luzes próximas, Que se recusam como estrelas na distância). Haja névoa! Paire nela a memória dos maníacos Sonhando na penumbra dos portais Assassínios brutais. Haja, haja névoa! Aqui e além no mar. No mar, nos mares, para que todas as viagens, Para que todos os barcos em todas as paragens, Na iminência dos naufrágios improváveis - Improváveis, possíveis -, Se gastem nos avisos aflitos Das luzes, dos rádios, dos radares, Dos gritos Dos apitos. Haja, haja névoa... Desgastem-se os contornos Das coisas excessivamente conhecidas. Não haja céu sequer. Névoa, só névoa! E eu, nas ruas distorcidas, Livre e tão leve Como se fosse eu próprio a névoa Da noite longa duma existência breve.
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te vou perdendo a noção desta subtileza. Aqui chegado até eu venho ver se me apareço e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada De outras, esperei-me eu e não apareci embora bem procurado entre os mais que passavam. Se algum de nós vier hoje é já bastante como comboio e como subtileza Que dê o nome e espere. Talvez apareça.
A tinta verde cria jardins, selvas, prados, folhagens onde gorjeiam letras, palavras que são árvores, frases de verdes constelações.
Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram como uma chuva de folhas a um campo de neve, como a hera à estátua, como a tinta a esta página.
Braços, cintura, colo, seios, fronte pura como o mar, nuca de bosque no outono, dentes que mordem um talo de grama.
Teu corpo se constela de signos verdes, renovos num corpo de árvore. Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa: olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.
Octávio Paz
Foto:Haleh Bryan
"Roubado" à Gi e mais uma vez aconselho a verem o seu magnífico blog, onde a Arte impera.
Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. Não se mate, oh não se mate, reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão, se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico, a noite passou em você, e os recalques se sublimando, lá dentro um barulho inefável, rezas, vitrolas, santos que se persignam, anúncios do melhor sabão, barulho que ninguém sabe de quê, praquê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical. Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho, Carlos, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Deixo aqui o link dum post da Eli, sobre a homenagem que se vai fazer a Adriano Correia de Oliveira e onde se ouve a música "Pensamento". Podem também dar uma vista de olhos pelo seu blog Novelos do Silêncio, onde as palavras e a fotografia se "casam":)
A Gi e o Mocho surpreenderam-me ao darem-me o Prémio de Visitante
"Este é um prémio que se destina a todos os nossos visitantes, porque sem eles a blogoesfera perdia toda a sua beleza, toda a importância desta inesgotável partilha de sentimento, ideias, poemas, histórias mais ou menos bizarras e tudo o que nos dá na real gana. Que piada é que isto tinha se ninguém nos lesse e se não houvesse quem opinasse sobre o muito que por aqui se escreve? Este prémio é sem dúvida, um prémio muito bem esgalhado e de grande homenagem a todos os nossos visitantes que guardam sempre um tempinho desta vida agitada, para nos visitar e claro está, ler...mesmo que não comentem!" Palavras do Mocho.
Por estas razões dou o prémio a todos os que lêem este blog:)
PS:Hoje dia 13 a Cristina Também me deu este prémio e agradeço-lhe:)
Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora. Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.