quinta-feira, outubro 11, 2007

Dedo apontado



Aponto o dedo para a Lua,
e a luz branca escorre, lenta,
pelo escuro.
No Tejo uma falua,
desgarrada,
que, condenada,
foge do próprio futuro.
Nem uma nuvem tolda o meu presente,
que desliza, inconsciente,
para o nada.
O silêncio é a verdade nua e crua.
Algures, morre o passado,
e eu estou ausente.
Com o dedo apontado para a Lua.

Manuel Filipe, in "Tempo de Cinza", pág.51, Apenas Livros

Foto:Leszek Scholz

quarta-feira, outubro 10, 2007

10 de Outubro-Dia europeu contra a pena de morte



Esqueci-me deste dia, mas melhor que eu podem ver por favor este post do Papagueno.

Cartoon: Visto no Zé Oliveira

A mão suja



Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.

A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.

E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.

Ai, quantas noites
no fundo de casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
não limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.

Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
- o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.

Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura - transparente -
colar-se a meu braço.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Paul Dzik

Teu corpo claro e perfeito



Teu corpo claro e perfeito,

– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Quem em antigas se derrama...

Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Manuel Bandeira

Foto:Stanmarek

Edith Piaf - Milord (19 de Dezembro de 1915 /10 de Outubro de 1963)



Allez, venez, Milord!
Vous asseoir à ma table;
Il fait si froid, dehors,
Ici c'est confortable.
Laissez-vous faire, Milord
Et prenez bien vos aises,
Vos peines sur mon coeur
Et vos pieds sur une chaise
Je vous connais, Milord,
Vous n'm'avez jamais vue
Je ne suis qu'une fille du port,
Qu'une ombre de la rue...
Pourtant j'vous ai frolé
Quand vous passiez hier,
Vous n'étiez pas peu fier,
Dame! Le ciel vous comblait:
Votre foulard de soie
Flottant sur vos épaules,
Vous aviez le beau role,
On aurait dit le roi...
Vous marchiez en vainqueur
Au bras d'une demoiselle
Mon Dieu!... Qu'elle était belle...
J'en ai froid dans le coeur...

Allez, venez, Milord!
Vous asseoir à ma table;
Il fait si froid, dehors,
Ici c'est confortable.
Laissez-vous faire, Milord,
Et prenez bien vos aises,
Vos peines sur mon coeur
Et vos pieds sur une chaise
Je vous connais, Milord,
Vous n'm'avez jamais vue
Je ne suis qu'une fille du port
Qu'une ombre de la rue...

Dire qu'il suffit parfois
Qu'il y ait un navire
Pour que tout se déchire
Quand le navire s'en va...
Il emmenait avec lui
La douce aux yeux si tendres
Qui n'a pas su comprendre
Qu'elle brisait votre vie
L'amour, ca fait pleurer
Comme quoi l'existence
Ça vous donne toutes les chances
Pour les reprendre après...

Allez, venez, Milord!
Vous avez l'air d'un mome!
Laissez-vous faire, Milord,
Venez dans mon royaume:
Je soigne les remords,
Je chante la romance,
Je chante les milords
Qui n'ont pas eu de chance!
Regardez-moi, Milord,
Vous n'm'avez jamais vue...
...Mais... vous pleurez, Milord?
Ça... j'l'aurais jamais cru!...

Eh ben, voyons, Milord!
Souriez-moi, Milord!
...Mieux qu' ca! Un petit effort...
Voilà, c'est ca!
Allez, riez, Milord!
Allez, chantez, Milord!
La-la-la...
Mais oui, dansez, Milord!
La-la-la... Bravo Milord!
La-la-la... Encore Milord!... La-la-la...

terça-feira, outubro 09, 2007

Penélope



Talvez o olhar negro e animal
que se afunda,
ressuscita,
em cada vaga,
talvez o cão, o arco, a aljava,
-guardiães inúteis da cal-
reconheçam minha mão,
talvez um beijo...

Talvez agora desfaças o novelo,
no qual enrolas,
desenrolas,
o desejo.

Manuel Filipe, in "Escrever é um lugar perto" Vol. III, (Reencontros à mesa do café) pág.38, Apenas Livros e Autores

Foto:Kharlamov Sergey

PS:O único poema neste livro, de Manuel Filipe, que gentilmente mo enviou.

Sémen de Poeta sabe a Arco íris



Há quem derrame prosa como sémen
ignorando a tesão da Literatura
pois a criação é casta como a neve

A esses beijo apenas a inocência
de não saber mais do que o banal
e nunca ejacular mais do que sílabas

São milhões como um exército de larvas
e bebem cálices de orgulho e preconceito
no luar tenebroso das certezas

Sabei, senhores, e digo-vos de borla
escrever assim não é raiz do amanhã
é somente parir monstros sem cabeça

Vós padeceis de mal muito antigo
ignorais sem maldade e por desleixo
que Literatura é mais do que punheta

O sémen verdadeiro dos poetas
bebe-se às taças como manjar de semi deuses
e frutifica em arco íris de ternura.

Luís Graça visto no Palavras D'Ouro

Foto:Lárus Sigurðarson

Che Guevara (14 de junho de 1928 - 9 de Outubro de 1967)

Faz hoje 40 anos que o mataram com apenas 39 anos.







Não quis saber de poder e lutou sempre pelo povo.

"Hasta la vitória, siempre!"

"Os poderosos podem matar uma, duas até três rosas, mas nunca deterão a Primavera."

Che Guevara

Nathalie Cordone-Hasta Siempre

segunda-feira, outubro 08, 2007

Desde quando alguma vez anoiteceu



Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.

Reinaldo Ferreira

Foto:José Marafona

Das paixões



A nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.

Ademir Antonio Bacca

Foto:Gabriele Rigon

domingo, outubro 07, 2007

O essencial é ter o vento



O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

Reinaldo Ferreira

Tela:Lévi-Dhurmer (The gust of wind) Retirada daqui

sábado, outubro 06, 2007

Essa miúda



Essa miúda é uma fogueira
Que te acende as noites em qualquer lugar
E tu desejas arder com ela
Enquanto bebes o perfume
Que ela deita nos seus trapos de cor
Para te embriagar

Essa miúda é um exagero
Diz que sem ti não sabe voar
Mas tu adoras voar com ela
Enquanto inventas espaços novos
Ela vai arquitetando uma teia
P´ra te aconchegar

Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora trás
Principalmente p´ra ti

Essa miúda é uma feiticeira
Prende-te a mente e põe-se a falar
E tu bem tentas compreende-la
Mas o que sai da sua boca
Não parece condizer com o que ela
Te diz com o olhar

Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora trás
Principalmente p´ra ti

Jorge Palma

Foto:Yuri Bonder

sexta-feira, outubro 05, 2007

Fome de traça



Passeio-me nos livros como verme que sou
sei devorar os clássicos por ordem
Já comi Jane Austen, Agustina Bessa-Luís,
Anais Nim, Margarida Rebelo Pinto.

Até já comi as irmãs Brönte
no Alentejo, em cima de um monte
num dia de vendavais
bah! Bacanais...

Já comi a Bíblia, em papel “couché”
já comi o “Drácula” em papel bíblia
já comi os volumes todos do “Tempo perdido”
já comi “O homem sem qualidades”.

Tenho boa boca. Como de tudo.

Já comi os sonetos de Shakespeare
a lírica camoniana
e até duas camónes
que eram de Louisiana

Como de tudo.

“Gargântua e Pantagruel”. Já comi.
Alfredo Saramago. Já provei.
José Saramago: comi e vomitei.
Caiu-me na fraqueza.

Não se deve comer Saramago em jejum.
Já comi “Os miseráveis” com pasta de atum.
Passeio-me nos livros como verme que sou.
Sei devorar os clássicos por ordem.

Como de tudo. Tenho boa boca.

Já comi o “Tubarão” sem ver o filme.
Comi o “Ben-Hur”, o “Quo Vadis” e “A Túnica”.
Comi os 12 Césares duma vez
e pus Suetónio a suar na sauna do Holmes Place.

Tenho apetite pela Literatura.
Um dia destes vou comer as gajas todas à traição
quando estiverem a dormir no “Kamasutra”.

Luís Graça visto no Palavras D'Ouro

Imagem daqui

O exemplo das rosas



Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
- Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

Manuel Bandeira

Foto:Ellen van Deelen

5 de Outubro de 1910




Imagens daqui

quinta-feira, outubro 04, 2007

Poema para o último voo



Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sendo azul
se era o azul do céu
ou era o mar

Sempre soube
o oceano inteiro
nos teus olhos

Em lágrimas de sal
e risos de marfim
recheados de pérolas

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

Sempre soube
o teu voo de águia
sobre as águas

O teu corpo como carpa
a saltitar feliz
no meio da corrente

Nunca soube a razão
do teu adeus
a rebentar nas ondas

Olhos nos olhos
eu e tu sabemos
as palavras em falta

Como gotas a escorrer
de mágoas numa caverna
que nos corta a alma

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

O oceano inteiro
do teu voo de gaivota
a beijar a brisa

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sempre soube
o teu lugar de pássaro
é no céu

Luís Graça visto no Palavras d'Ouro

Foto:Lucy Hollis

quarta-feira, outubro 03, 2007

O Abismo



Entre mim e a minha consciência
Há um abismo
Em cujo fundo invisível corre
O barulho de um rio longe de sóis
Cujo som em si é escuro e frio-
sim, sobre a pele do nosso imaginar
A alma, frio e escuro e terrivelmente antigo,
Ele mesmo, não no seu aparentar.

Meu ver substituiu o ouvir
Dessa torrente funda e sem lugar;
Seu ruído mudo sempre a impedir
Meu pensamento do seu poder de sonhar.
Realidade terrível deve pertencer
A esse rio de vago e mudo cantar
Que nenhuma realidade vem dizer,
Mas só do seu ir para nenhum mar.

Mas, ai! Com olhos de sonhado ouvir
Ouço o rio invisível arrastar
Consigo, para onde não pode ir,
Todas as coisas de que é feito o pensar-
O Pensar mesmo, o Mundo e Deus
Nessa impossível torrente a flutuar.

Sim, as ideias de Deus e do Mundo,
Do Mistério e do meu próprio Ser,
Como que lançadas de muro invisível
Com esse rio para o mar a correr,
Mar de não haver e nunca alcançar,
E que são do seu nocturno mover.
Mas, oh, aonde esse sol na praia
Desse oceano impossível de chegar!

Fernando Pessoa

Foto:Zacarias Pereira da Mata

PS:Roubado descaradamente da Gi:)

Necessidades Sexuais



Eu nunca havia entendido porque as necessidades sexuais dos homens e das mulheres são tão diferentes.

Nunca tinha entendido isso de "Marte e Vênus". E nunca tinha entendido porque os homens pensam com a cabeça e as mulheres com o coração.

Uma noite, semana passada, minha mulher e eu estávamos indo para a cama. Bom, começamos a ficar a vontade, fazer carinhos, provocações, o maior "T" e, nesse momento, ela parou e me disse:

- Acho que agora não quero, só quero que você me abrace...

Eu falei: - O QUEEE???

Ela falou: - Você não sabe se conectar com as minhas necessidades emocionais como mulher.

Comecei a pensar no que podia ter falhado. No final, assumi que aquela noite não ia rolar nada, virei e dormi.

No dia seguinte, fomos ao shopping. Entramos em uma grande loja de departamentos... Fui dar uma volta enquanto ela experimentava três modelitos caríssimos.

Como não podia decidir por um ou outro, falei para comprar os três. Então, ela me falou que precisava de uns sapatos que combinassem a R$ 200,00 cada par. Respondi que tudo bem. Depois fomos a seção de joalheria, onde escolheu uns brincos de diamantes.

Estava tão emocionada!! Deveria estar pensando que fiquei louco. Acho até que estava me testando quando pediu uma raquete de tênis, porque nem tênis ela joga. Acredito que acabei com seus esquemas e paradigmas quando falei que sim.

Ela estava quase excitada sexualmente depois de tudo isso. Vocês tinham que ver a carinha dela, toda feliz!

Quando ela falou:

- Vamos passar no caixa para pagar, amor?

Dai eu disse:

- Acho que agora não quero mais comprar tudo isso, meu bem... Só quero que você me abrace.

Ela ficou pálida! No momento em que começou a ficar com cara de querer me matar, falei:

- Você não sabe se conectar com as minhas necessidades financeiras de homem.

Vinguei-me, mas acredito que o sexo acabou para mim até o Natal de 2010.

Luiz Fernando Veríssimo

Foto:Geoffroy Demarquet

PS:Recebido por email

Metafísica



De cada vez que nos teus braços
Por uns momentos morro,
Nos abismos de mim o meu amor pede socorro
Como se à força alguém lhe desatasse os laços.

De cada vez apreendo
Que fica em muito pouco, ou nada, aquele tanto
Que o querer ter promete, enquanto
Se não tendo.

Desejar é que é ter! mas não nos basta.
Sonhar é que é possuir sem tédio nem cansaços.
Sei-o, mas só já morto nos teus braços.
Sofre a carne de ter, ou de ser casta.

Sobre o desejo farto, a alma se debruça,
Contempla o nada a que o fartá-lo aponta.
E atrás do mesmo nada eis que ela mesma, tonta,
Vai, se a carne reacende a escaramuça.

Entrar num corpo até onde se oculte
O para Lá do corpo - eis o supremo sonho.
De que desejos o componho,
Se ei-lo se descompõe quando o desejo avulte?

Sôfrega, a carne pede carne. Saciada,
Pede, ela própria, o que jamais sacia.
Para de novo se inflamar, é um dia.
Para de novo desgostar, um nada.

Ai, como não te amar e não te aborrecer,
Carne de leite e rosas, - terra inglória
Do longo prélio-entendimento sem vitória
Que é carne e alma, ter-não ter?

José Régio

Foto:Stanmarek

segunda-feira, outubro 01, 2007

Quarto em desordem



Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Enigma Photography