sexta-feira, abril 06, 2007

Boa Páscoa:)



Boa Páscoa a quem a celebra.

Cartoon:Sergei

Sem Título



Foste entrando sem pedires
E marcaste os teus sinais
Tatuaste a minha vida
Ferro e fogo e muito mais
Vasculhaste os meus segredos
e eu deixei
Sem reverdes nem pudor

Invadiste os meus sentidos
o qu'eu não fiz por amor
e deixaste a minha vida
mãe perdida
Neste beco sem saída (1)

Sei que vou chorar a cada ausência tua eu vou chorar, mas cada volta
Tua há-de apagar o que essa ausência tua me causou eu
Sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver a espera de viver ao lado teu por
Toda a minha vida.(2)

E partiu,
Sem me dizer o nome,
Levando-me o perfume
De tantas noites mais.(3)

Não.não voltarei...a ser fiel... Fiel
Procuro a loucura na noite fingida
Nem sequer já me importa o que possas dizer
Represento a verdade que eu bem entender (4)

1- Dei-te Quase Tudo-Paulo Gonzo

2- Vinícius de Moraes-Eu Sei Que Vou Te Amar

3- Eu Não Sei Quem Te Perdeu-Pedro Abrunhosa

4- Não Voltarei a Ser Fiel-Santos & Pecadores


Foto:Yuri B

PS:Uma simples tentativa de fazer um poema através de letras de várias músicas.
Embora seja um bocado de plágio de letras, não é com má intenção.

Eros é a água



Entre as tuas pernas
o mar revela-me estranhos recifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de búzios concha nácar
o teu molusco de sal persegue a corrente
a pequena água inventa-me barbatanas
mar da noite com luas submersas
tua ondulação brusca de polvo congestionado
acelera nas minhas guelras um latejar de esponja
e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
aos altos lança-te sobre o meu flanco leve
recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas
cerco o teu riso com a minha boca espuma
ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar final
e erguemo-nos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.

Gioconda Belli (Tradução de José Agostinho Baptista)

Foto:Francois Benveniste

quinta-feira, abril 05, 2007

Esta vida é uma viagem



Esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem.

Paulo Leminski

Foto:Frédéric Karikese

Guerra Junqueiro em 1896



"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a
energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as
moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,
nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque
sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um
lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter,
havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a
infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem
que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [.]

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado
de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela
abdicação unânime do País. [.]

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de
fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes,
[.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos
nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades
do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão
que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma
sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896

Imagem daqui

Recebido por email

Carta a F.



És tu quem me conduz, és tu quem me alumia,
Para mim não desponta a aurora, não é dia,
Se não vejo os dois sóis azuis do teu olhar.
Deixei-te há pouco mais dum mês, ? mês secular
E nessa noite imensa, ah, digo-te a verdade,
Iluminou-me sempre o luar da saudade.
E nesses montes nus por onde eu tenho andado,
Trágicos vagalhões dum mar petrificado,
Sempre adiante de mim dentre a aridez selvagem,
Vi como um lírio branco erguer-se a tua imagem.
Nunca te abandonei! Nunca me abandonaste!
És o sol e eu a sombra. És a flor e eu a haste.
Na hora em que parti meu coração deixei-o
Na urna virginal desse divino seio,
E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho
Dentro em meu peito, como uma rola em seu ninho!

Guerra Junqueiro

Foto:Allan Jenkins

quarta-feira, abril 04, 2007

É assim que te quero, amor



É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

Foto:Alex K

Mulher das águas



És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.

Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.

No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.

Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.

Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.

És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.

Douglas Mondo

Foto:Gabriele Rigon

Não chores por mim, não chores!



Não chores por mim, não chores!
Meu amor
Não mereço as tuas lágrimas
Sorri antes pelas lembranças
Não alimentes a ausência...

Não chores por mim, não chores!
Recorda os nossos passeios pelo campo
As folhas caídas no Outono
O cheiro da terra
Sabias que isto ia acontecer
Palavra de médico...

Não chores por mim, não chores!
Estou bem
Secando as tuas lágrimas
Até adormeceres em paz
Na minha presença
Todas as noites...

Poema feito a quatro mãos por Wind que o alinhavou e Jacky que o rematou.

Foto:Georg Suturin

terça-feira, abril 03, 2007

Selva de amor



Quero que venhas simplesmente
com teu instinto de homem,
mas deixa meus pensamentos loucos
governar este dia.
Vem somente com teu desejo e paixão,
para nesta hora de lascívia
te entregar
aos meus caprichos de amor.

Vem com a velocidade do tigre
que alcança sua presa,
mas com a maciez de um coelho,
deita comigo,
para ser envolvido,
como a rosa envolve a abelha.

Enquanto as luzes do dia se vão,
vem ser a luz que atordoa a mariposa,
mas vem amar-me devagarinho,
com a pressa de uma preguiça.
E assim ébrio de amor,
vem sentir o prazer do urso que lambe o mel,
deitado no céu.

Rosa Clement

Foto:Anna.Edyta Przybysz (aprzybysz)

O meu destino



Vivo de inquietações…
De sombrios desejos…
As minhas ambições,
andam traduzidas
nos rúbidos lampejos,
dos meus olhos em fogo!

Não cedem à agonia do meu rogo…
Andam fugindo ao meu destino.
Nem sentem os meus nervos estalar!
E os meus braços desgarrados
procuram em desatino –
sem nada encontrar!

Rasgo nas mãos doloridas,
escorrendo de luar,
as sombras espavoridas
que me ensombram o olhar!

Anda a loucura a desgrenhar-me –
o corpo e o pensamento…
As minhas horas, vão escurecendo
no destrambelho dos meus cuidados…
E eu vou andando
vagarosamente
os olhos roxos de sombra,
amargurados
demandando
tristemente,
o caminho,
do negro labirinto,
onde se perdem
os alucinados!

Judith Teixeira

Foto:Yuri B

Mas que sei eu



Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha.

Ruy Belo

Foto:Yuri B

A lucidez perigosa



Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector, a descoberta do mundo
[poemas que (não) são de Clarice - arranjos em verso de Antônio Damázio]

Foto:Stanmarek

PS:Poema "roubado" descaradamente a * Eli - n' um dia mais *:)

segunda-feira, abril 02, 2007

My lady story



My lady story
My lady story

My lady story
Is one of annihilation
My lady story
Is one of breast amputation

My lady story
My lady story

I'm a hole in love
I'm a bride on fire
I am twisted
Into a starve of wire

My lady story
My lady story

Lie in road for you
And I've been your slave
My womb's an ocean full of
Grief and rage

My lady story
My lady story
My lady story
My lady story

And still you're coaxing me
To come on out and live
Well I'm a crippled dog
I've got nothing to give

My lady story
My lady story
My lady story
My lady story

I'm so broken babe
But I want to see
Some shining eye
Some of my beauty
My lostest beauty
My lostest beauty

Antony and the Johnsons

Lindo:)

Espero



Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto:Georg Suturin

Pequena morte



Sofro
Não estou contigo
Sinto
O fato de nunca
Estarmos visíveis
Embora sejamos
(Seremos sempre)
Amantes e mínimos
Na memória fluida
Desse terno
Abismo.

Rodolfo Dantas

Foto:Oleg Gedevani

Pretextos para fugir do real



A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços
*
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Alexandre O'Neill

Foto:Eric Kellerman

domingo, abril 01, 2007

Que música escutas tão atentamente



Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

Foto:Yuri B

You are my sister



You are my sister, we were born
So innocent, so full of need
There were times we were friends but times I was so cruel
Each night I'd ask for you to watch me as I sleep
I was so afraid of the night
You seemed to move through the places that I feared
You lived inside my world so softly
Protected only by the kindness of your nature
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
We felt so differently then
So similar over the years
The way we laugh the way we experience pain
So many memories
But there's nothing left to gain from remembering
Faces and worlds that no one else will ever know
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
I want this for you
They're gonna come true (gonna come true)

Antony & The Johnsons

PS:Perdoem, mas é paixão mesmo:)))

Por não estarem distraídos



Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

Foto:ClanOfXymox