sexta-feira, julho 21, 2006

Feitiço



Eu gostava de olhar para ti
E dizer-te que és uma luz
Que me acende a noite, me guia de dia e seduz...

Eu gostava de ser como tu
Não ter asas e poder voar
Ter o céu como fundo, ir ao fim do mundo e voltar...

Eu não sei o que me aconteceu...
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim de alguém
Como tu...

Eu gostava que olhasses
para mim
E sentisses que sou o teu mar
Mergulhasses sem medo, um olhar em segredo, só para eu
Te abraçar...

Eu não sei o que me aconteceu...
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim de alguém
Como tu...

O primeiro impulso é sempre mais justo, é mais verdadeiro...
E o primeiro susto dá voltas e voltas na volta redonda de um beijo profundo...

Eu...
Eu não sei o que me aconteceu...
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim de alguém
Como tu...
Eu...
Não sei o que me aconteceu...
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim de alguém
Como tu...
Como tu...

André Sardet

Foto:Maury Perseval

Erótico puritano



As pontas dos meus seios apontam para o céu
inchados e duros
pequenos e brancos
reluzem e gritam
enquanto as estrelas queimam e umedecem
meus santos orifícios
com seus toques inesperados.
sou cega, muda, espasmódica.
pernas abertas por um mundo melhor.

Niandra LaDez

Foto:Stanmarek

Amor, pois que é palavra essencial



Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

Foto:Gregor Podgorski

quarta-feira, julho 19, 2006

Frase/Pensamento



Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.


Bernard Shaw

Imagem daqui

Excerto de "Estação Dourada"



[…]

Abriu-se a porta do quarto e, ainda enlaçados, entram em desiquilíbrio numa insólita suite, cheia de divãs verdes, com duas tapeçarias do Camarinha atrás do enorme tálamo, e vários desenhos estilizados de António Carneiro na parede do fundo, onde branquejam os vaporosos cortinados de musselina que caem pesadamente os reposteiros, emoldurando a grande janela ogival, que deve dar para o jardim.
Sentam-se na beira da cama, que é de facto imensa, com colcha de damasco, e que range.
- Vê lá se essa janela está bem fechada. Que frio!
- Vê-se daqui a poeira das estrelas a cair sobre um muro branco, lá longe. O muro branco do nada.
- Lá estás tu…Já não me queres beijar? Os beijos não são contagiosos.
- Pois não. Agora o resto…creio que não tenho preservativos. Chatice! Estás a ver, não ando sempre preparado para as ocasiões.
- Não gosto de te ouvir falar assim.
- Não sei o que tenho Madalena. Decepção?
Depois fita-a, como se de repente fosse perdê-la, a engolir a palavra indesculpável, e deita-a sobre o leito imenso, nem afasta a colcha, que é também pesada. Desaperta botões, puxa-lhe a camisola de caxemira pela cabeça, quase lhe rebenta os atilhos do soutien, até expor às luzes veladas do quarto os seus mamilos erectos, as axilas escuras de tentadora, toda a morna solidão da sua pele. Até lhe tocar, com os dedos a tremerem, o sexo húmido de orvalho.
- Pára, por favor.
- Não sei se consigo, Madalena.
- Beija-me o umbigo, aí onde tenho o sinal da maldade.
Apertam-se, largam-se, despem-se completamente, quase ao desafio, tornam a beijar-se, lânguidos, saboreando-se, brincam, beliscam-se, lambem-se, a lua roça-se pelos canaviais, o sangue da paixão bate-lhes nas veias, rega as mãos com que eles já se possuem, talvez chame alucinações ou se misture aos lírios da pureza quando eles sorriem.
É em delírio, como num sonho mau, mas onde o mal é o bem e o bem é o mal, quando António se arqueia sobre ela, qual a estaca vermelha se enterra não na boca, como previsto, mas na obscura flor do ventre de Madalena.
O orgulho dela loucura divina dissipe-se quando os lábios comovidos de ambos se unem sobre o ardor da batalha.
[…]

Urbano Tavares Rodrigues, in Publicações Europa-América, Lisboa, 2003

Foto:Joris Van Daele

terça-feira, julho 18, 2006

Into My Arms



I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms.

Nick Cave & The Bad Seeds

Foto:Michel Pilon

Amo o teu túmido candor de astro



A tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

António Ramos Rosa

Foto:Gianni Candido

segunda-feira, julho 17, 2006

Frase/Pensamento



As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física."


Nietzsche

Foto: Philippe Cometti

domingo, julho 16, 2006

Excerto de "A balada da praia dos cães"



[...] Às vezes pasmo, Melanie, com a exactidão com que estes momentos me vêm à memória. Estou a ver o elevador, é como se tivesse sido ontem. O portão de grades trabalhadas em cobre, o guarda-vento de vidros foscos com umas flores lavradas que pareciam jarros do oriente. E os espelhos aos lados? E o banquinho de veludo na parede do fundo, tão virginal, tão romântico? Oh, era uma cestinha de arcanjos, aquele elevador, todo em ouros e brancos esmaltados. Mas o inesquecível era a máscara do diabo que havia no tecto a olhar cá para baixo! Assustava e enternecia. Tinha uns corninhos de fauno, saídos do conjunto da figura que era em relevo dourado e com uma mascarilha vermelha. Tantas minúcias, eu bem digo…Não te parece estranho?
E todavia tudo se passou fora do tempo e do espaço! Tudo, ma chèrie, Tudo! Ainda mal tínhamos fechado a porta já o Gaston-Philippe se colava a mim a percorrer-me desvairadamente com as mãos. Contornava-me, cingia-me com um braço e procurava-me as coxas e as nádegas por baixo da roupa. Eu própria levantei o vestido, colando-me mais a ele, e imagina a surpresa que o tomou quando sentiu nos dedos a verdade do meu ventre!
Sim, minha Melanie, eu estava nua por baixo do vestido! Não me perguntes porquê, mas no bar, por um impulso inexplicável, tinha ido ao toilette com esse propósito. Um presságio? Só sei que estava feliz com o meu instinto, felicíssima. O assombro e o deslumbramento do Gaston-Philippe por aquela surpresa não tiveram limites e eu sentia isso através da sua mão que era grata e ardente. E que hábil, que mão! Que imaginativa e que extensa, Melanie! Penetrava com tais segredos que me levava para lá da ascensão do próprio elevador e logo me esgotava e me fazia afundar à medida que voltávamos a descer.
Impossível calcular as vezes que percorremos para baixo e para cima aqueles cinco andares. Uma verdadeira escalada do paraíso! Subíamos e mergulhávamos, e tornavamos a subir…a nossa viagem parecia não ter fim, pois o Gaston.-Philippe era daqueles amantes afortunados nos quais l’amour fou é servido por um talento prático ajustado às circunstâncias e, assim, manobrava o manípulo do elevador no momento exacto em que ele se ia a deter.
Mas entontecedor ainda foi que dei por ele de joelhos, abraçado às minhas pernas e abrindo-me toda ao mesmo tempo, nem sei, com o rosto mergulhado nas minhas coxas! Então senti-me trespassada por algo muito vivo e voraz, por uma espessura revolvente e arguta que me descobria por dentro e me dilatava, sugando-me. E eram mais coisas, minha querida, os dentes percorrendo os pelos e os músculos , o calor do rosto contra o meu ventre, as mãos explorando-me as nádegas, tanta coisa!
Eu, de pé, um perna em cima do ombro dele, via-me ao espelho e não me reconhecia. Esquecida, esquecida, liberta pelo espaço…"

José Cardoso Pires, Excerto de "O texto" em A Balada da Praia do Cães, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1982.

Foto:Elena Vasileva

Dá-me o tempo



Deita-te em mim,
Descobre onde estás,
Escuta o silêncio,
Que o meu corpo te traz.
Não me deixes partir,
Não me deixes voar,
Como um pássaro louco
Como a espuma do mar.

Sente a força da noite
Como facas no peito,
Como estrelas caídas
Que te cobrem o leito.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.

Dá-me o tempo,
Dá-me a paz,
Viver por ti não é demais.
Dá-me o vento,
Dá-me a voz,
Viver por ti, morrer por nós.

Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
Perdidos no quarto
Sem dizermos adeus.
Adiamos a noite,
Balançamos parados,
Pela última vez
Os nossos corpos colados.

Sente a força que temos
Quando estamos assim,
Um segundo é o mundo
Que nos separa do fim.
Porque tens de partir
Quando há tanto a dizer?
Eu não sei começar,
Não te quero perder.

Refrão

(Eu gosto das formas que tomas,
Como o toque do cristal,
E dos vidros, dos poemas,
Da febre do metal)

Pedro Abrunhosa

Foto:Eric Richmond

sábado, julho 15, 2006

Poema canino



Ontem vesti um par de boxers
Cada um deles me comeu
Um tomate
Eram vegetarianos.


In "De boas erecções está o Inferno cheio" poesia satírica de Dick Hard

Imagem daqui

Poema para Medgar Evers



(Líder negro dos EUA assassinado a bala quando entrava à noite em sua casa)

1

Sound
Our
Soul

– bell

Sound
Our
Soul

– bell

Sound
Our
Soul

– bell.

Em algum ponto do mundo é noite
e um homem negro tomba morto.

KU
KLUX
KLAN
– Alabama.

KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.

2

Negra
Noite
oculta
a fala.

Negro
corpo
oculta
a bala.

Negro
forro
é negro
morto.

KU
KLUX
KLAN
– Alabama

KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.

3

O Senhor é meu pastor
HALLELLUIA ! HALLELLUIA !
Mas um lobo me atacou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
No vale da escura noite
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Meu corpo se amortalhou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Sobre as taças do inimigo
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
O meu sangue transbordou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
O senhor é meu pastor
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Mas um branco me matou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!

KU
KLUX
KLAN
– Aleluia

KU
KLUX
KLAN
– Alabama.

4

No Alabama
É onde o homem é menos homem
É onde o homem quando é branco
– é lobo e homem

e o homem quando é negro
– é lodo e lama.
No Alabama
Um homem quando é negro
sabe que seu sangue porque é negro
– é drama

e cedo ou tarde pelas pedras
– se derrama.

No Alabama
É onde o homem é menos homem.
Dali é que nos chega
O sangue inscrito em telegrama.
Dali é que nos chega
Um nome que era negro e escuro
E agora se transfunde em pura chama.

KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.
KU
KLUX
KLAN
– Alabama.

Affonso Romano de de Sant'Anna

Imagem daqui

Resposta ao Anjo Gabriel



Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua.

Iracema Macedo

Foto:Stanmarek

sexta-feira, julho 14, 2006

Provas da inexistência de Deus (por ele mesmo)



Sonhei que Deus dava autógrafos
À saída do Céu
Depois de uma sessão
De poesia

Nos copos da assistência
Escorria uísque
E o patrocinador era
A Coca-Cola

"Eu não existo"
Disse Deus, modesto
Um coro de vozes bradou
"Você é o maior!"

Sorrindo beatífico de barbas
Deus ganhou fôlego
E prosseguiu
Lampeiro

"Eu não existo
Sou invenção dos povos
Aos quais agradeço
A deferência

Eu não existo
Sou um sonho nocturno
Para muitos
A referência"

Os aplausos ribombaram
E na Terra houve trovoadas
Que duraram
Três dias e três noites

Na livraria Barata
Surgiu um livro curioso
"Eu não existo"
Assinado por Deus

Edição de autor
Discreta, top de vendas
Mística e
De boa leitura

In "De boas erecções está o Inferno cheio" poesia satírica de Dick Hard

Foto:José Marafona

Fantasia assinada



Tínhamos, não sei por que nem quando, combinado que ele ia fazer meu retrato, mas nunca dava tempo e nenhum dos dois se organizava pra conseguir uma brecha na agenda. Um dia era ele que esperava a visita de um galerista importante, outro era eu que não acreditava em duendes e tinha que trabalhar. Enquanto isso, rodando como um fundo musical, uma euforia que ainda não era concretamente um tesão; mais parecida era com a excitação pela idéia de fazer o que jamais havia feito: posar para um pintor.

Nada que justificasse tanto alvoroço. Ninguém tinha combinado que eu deveria me despir para posar. Mas, lá no íntimo, já eu partia desse pressuposto. Querendo. Imaginando muito mais. Temendo.

Até quando nos encontramos numa festa. Ele veio conversar e baixinho, rouco, como se conspirando, perguntou quando eu poderia ir vê-lo em seu atelier. Olhei para os lados pra me certificar se meu namorado não estava nas proximidades e marquei dia e hora. Selamos o acordo.

Sem nada assumir, escolhi calcinhas de cetim verde escuro quase preto, combinando com um sutiã rendado. Meias novas e um figurino irretocável, sugerindo pecado. Banho, ao começar a me aprontar, perfume gostoso espalhado pelo corpo inteiro, inclusive entre os dedos dos pés. Surpresa me critiquei: Ainda não conseguiram pintar a imagem dos cheiros.

Consumindo-me em fantasias, depois de tanta preparação, ali estávamos um em frente ao outro. Ele, de macacão salpicado de tinta de todas as cores e ocasiões, mas o rosto barbeado e, se não me engano, exalava um leve cheiro de madeira perfumada como os perfumes da moda.
Foi me explicando como fazia suas próprias tintas, como com elas invadia as telas. Segurou-me com carinho pelo queixo, a luz do sol examinou meu rosto e minha mão, para decidir qual matiz seria o mais apropriado. Pôs-se a trabalhar, enquanto eu, caladinha, sentada no único divã de veludo cor de maravilha, alisava o tecido, observando. Mais tarde veio conferir a tonalidade que encontrara para minha cor: entre cambraia e pêssego, comentou, quase inaudível. Em seguida, parecia que eu já não estava mais ali. Concentrava-se para esboçar-me.

Pincelava na tela meu rosto que não se parecia comigo de início para depois começar a parecer-se. Vinha e apalpava meus olhos com os polegares. Voltava ao cavalete. Olhava-me. Olhava a tela à distância. Examinava-me longa e lentamente; gesto sempre despudorado. Aproximava-se e me acariciava o nariz, medindo-o. Voltava a seu posto. Trocou de pincel, pegando agora um bem mais delicado. Desceu aos lábios de forma aplicada. Voltou a manipular as tintas numa paleta que trouxe para perto, e me explicou que estava inventando uma cor para meus lábios, descrevendo-os com gulosa luxúria. Experimentando a cor, passou o tímido pincel pelos contornos de minha boca, ato demorado, cuidadoso, ilícito; me deixando arrepiada, me obrigando a suspirar alto, quase me traindo. E para que ele não adivinhasse o estado de minhas calcinhas, fechei os olhos e o deixei servir-se, modular-me. Voltou à tela e depois de me pincelar à vontade, foi até a janela e decidiu que o sol já não mais o satisfazia. Continuaríamos no dia seguinte. Eu estava tonta. Rubra. Afogueada. Ele notou e indagou com cinismo se no dia seguinte eu conseguiria ficar como agora. Ria pelo cantinho da boca quando o deixei, respondendo: talvez.

Ao chegar o tal dia seguinte, ele tinha se adiantado e já desenhado meu pescoço. Contou-me que passou a noite inteira a fazer isso, me imaginando. Dizendo assim passava os dedos pelas minhas linhas, na tela, mais uma vez me arrepiando cá, me umedecendo lá.

Chegando perto ainda mais ousado, deslizou o olhar por mim inteira, descendo pela curva dos seios por entre o decote, adivinhando-os em tamanho e formato, desenhando-os demoradamente. Acariciava um depois o outro com o pincel. A partir daí me olhava com o rabo de um só olho, enquanto com a cabeça do polegar esfumava sombras em meus mamilos, que em mim se iam encolhendo, ficando durinhos. E ele a me fitar como se estivesse percebendo o arco-íris por baixo de minha blusa.

Acho que está ficando seca. Vou molhá-la mais. Estava se referindo à tinta. Deu lambidinhas nas linhas do pescoço, descendo até um dos meus peitos em figura, enquanto passava os dedos pelo outro, com ternura.

O corpo dele se avolumava também me querendo, fazendo de seu macacão uma tenda armada, assim como o meu o queria, regando-se. Mas graças à diferença eu estava absolutamente confiante que ele não sabia do que acontecia em mim, pois meu corpo não se denunciava como o dele, assim. Maliciosa, ria do que nele se passava, e ele não podia se rir igualmente de mim por ser masculino, expressionista.

Foram muitas essas sessões entre tardes ensolaradas ou escuras. De todas elas eu saía excitada, sentindo um não sei o quê, que vinha não sei de onde, e doía não sei por quê. Era tudo feito muito vagarosamente, prolongando os momentos. Fatalmente chegou o dia em que ele, já depois de ter me definido o umbigo e me acariciado o ventre com seus instrumentos, revelou minhas coxas e o que está entre elas, meu sexo, feixe das emoções mais fortes dessa vida. Me fez de pêlos louros e ralos, como sou. Me fez de pernas largas e abertas esperando sua visita, como estava. E para se certificar de que seria bem-vindo, acrescentou ao quadro duas gotinhas soltas descendo pela minha virilha esquerda, sugerindo já saber dos líquidos que de mim se geravam, mistérios da alma indiscreta que denuncia o querer feminino, cheio de ambivalências impressionistas.

Querendo comparar criação e criatura, quando o retrato ficou pronto, me pediu agora, finalmente, para tirar a roupa toda. Precisava ver-me. Eu precisava dele.

Nua, me conduziu pelos ombros, colocando-me ao lado da obra, na mesma posição da imagem. Como outras vezes já tinha feito, tomou distância para avaliar o resultado. Enquanto olhava para nós também se desnudava. Seu pincel, seu sexo já se preparavam para o ato final. Foi só quando veio a completar esse seu trabalho, satisfazendo-lhe o último detalhe, imprimindo em meu dentro sua assinatura e no canto inferior direito do quadro, seu orgasmo.

Joyce Cavalccante

Foto:Stanmarek

quarta-feira, julho 12, 2006

A Mulher Que Virou Homem



Meu pai me disse: meu filho tá muito cedo
Eu tenho medo que você case tão moço
Eu me casei e olha o resultado
Eu tô atolado até o pescoço

Minha mulher apesar de ter saúde
Foi pra Hollywood, fazer uma operação
Agora veio com uma nova bossa
Com a voz grossa que nem um trovão
Quando eu pergunto o que é isso, Joana?

Ela responde: você se engana
Eu era Joana antes da operação
Mas de hoje em diante meu nome é João
Não se confunda nem troque meu nome
Fale comigo de homem pra homem
Fique sabendo mais de uma vez
Que você me paga tudo que me fez

Agora eu ando todo encabulado
E essa mágoa é que me consome
Por onde eu passo todo mundo diz:
Aquele é o marido da mulher que virou homem


Eu nunca vi mulher machona
Eu já vi muita bichona, já vi muito travesti
Já vi macho virar fêmea se operando lá em baixo
Mas mulher virando macho acho que eu nunca vi

Eu já lhe disse meu nome é João
E depois da operação eu sou cabra muito macho
E tu me paga por tudo que me fizeste
Tu vai ver o cabra-da-peste
Tu vai sossegar o facho

Porque um diacho desse jeito foi acontecer comigo?
Mas só pode ser castigo
Virou tudo pelo avesso
A minha sina é tomar conta da fachina
Pra esposa masculina
Ai meu deus, eu não mereço

Não reclame mais da vida
E vá fazer minha comida
Porque tu fez carne moída e eu pedi carne de sol
Ponha tudo na bandeja
E não se esquece da cerveja
Cala a boca e não me beija
Que eu to vendo futebol

Gabriel Pensador

Foto:Pierre és Gilles

Sexualidade



Eu sou heterossexual
sou roxo.
Eu sou homossexual
sou cor de rosa.
Eu sou bissexual
sou violeta neon.
Eu sou trissexual
abro meu leque na mão.
Eu sou quadrissexual
sou amarelo – limão.
Eu sou quinssexual
sou laranja – dourado.
Eu sou seis vezes
a cor do pecado.
Vou mudando de cor
até chegar no estado puro dos tons.
Sou branco virgem
na tonalidade assexuada.

Cristiane Neder

Foto:Howard Schatz

terça-feira, julho 11, 2006

A fruta aberta



Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.

Thiago de Mello

Foto:Elena Vasileva

Reportagem



Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...

António Botto

Foto:Stanmarek

segunda-feira, julho 10, 2006

Ausência



Procurei o meu corpo ao acordar
Encontrei-o cansado. Deitado numa posição estranha.
Nada habitual.
Quando o vesti tinha um cheiro que não o meu
E doíam-me na pele marcas que não me lembro.
Soube que me tinhas sonhado.
Ausente de mim no sono
O meu corpo vagueou nas tuas mãos.

Encandescente in Erotismo na Cidade, página 23

Foto:Maury Perseval