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domingo, setembro 21, 2008

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1. PENSOU QUE ERA GIN TÓNICO

"Afinal, a sede é só o desejo de beber", apontou o escritor, e tomou o golo de cicuta.

2. PENSOU QUE ERA UM MOINHO

Algo estranho acontecia, todas as noites, durante três meses: gemidos na biblioteca, o barulho das estantes a abanarem e, quando lá chegava e acendia a luz, os livros remexidos.
Sentei-me para pensar, estalei os dedos, criei suspeitas, treinei um andar rápido e silencioso. Uma noite, ouvi o barulho e acendi a luz antes que ele acabasse. Como desconfiava: o Quixote, em cima da Bovary. E os outros a aplaudirem. Até a Anne Frank!
Separei-os, de castigo. Agora durmo tranquilo – ao meu lado, só a Bíblia.

3. PENSOU QUE ERA OUTRO PROGRAMA

JORNALISTA: O que deseja de Portugal?
SÓCRATES: Que Atenas não me expulse.
JORNALISTA: E uma confidência?
SÓCRATES: A sede é só o desejo de beber.

4. PENSOU QUE ERAM PEQUENAS

Na casa de um amigo, mesmo problema de barulho, mais a contínua descoberta matinal da semi-destruição de um álbum fotográfico. O método-surpresa, uma outra vez, venceu: era um Lilliputiano com os calores da Primavera.

5. PENSARAM QUE ERA UM BALOIÇO

Um parque de diversões. Meninos sobem à forca.

Jorge Vaz Nande visto na Minguante

quarta-feira, setembro 10, 2008

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Código

Não sabia ler, mas nunca o confessara a ninguém. Entrava na mercearia muito altiva e comprava tudo como as outras pessoas. Conhecia os títulos de cor e adivinhava o conteúdo pelas cores. Um dia, mudaram as embalagens. Não sabia que produto comprar, mas não se queixava. Comprava o mesmo que os outros e depois vinha trocar.

Ana Mendes

O desejo

Ela chega outra vez com seus sorrisos, seus fantasmas, as frases desconcertantes, o cabelo preso porque tem algo importante a dizer. Acende um cigarro porque vai parar de fumar e me diz coisas cruéis. Depois me beija e quer conversar, conversar, conversar. Me fala sobre seu dia, sobre a situação mundial e sobre como não liga pra nada disso. Depois caminha descalça no quintal sob a lua cheia e canta algo inesperadamente antigo, me deixando calado diante de seu caos criativo, seus poemas curtos, seus quadros indecifráveis. Ela é um mistério do qual deveria me manter longe, longe, longe, não fosse esta maldita curiosidade.

Avery Veríssimo

Sorri, amor – pediu ela. Já arrependido do pacto de suicídio, ele foi incapaz de satisfazer esse seu último desejo.

Depois de acariciar demoradamente a lamparina mágica, a sensual fada satisfez seus desejos três vezes.

A bofetada deixou-lhe a marca dos dedos na face. Ao pensar em lhe pedir desculpas, desejou sentir novamente aquela mão em sua cara.

Ele viera de outro planeta com uma missão. Mas agora que conhecera o sabor de uma mulher, ser mais um maldito terráqueo era seu único desejo.

Carlos Seabra

Visto na Minguante