terça-feira, junho 24, 2014

A magnólia



A exaltação do mínimo, 
e o magnífico relâmpago 
do acontecimento mestre 
restituem-me a forma 
o meu resplendor. 

Um diminuto berço me recolhe 
onde a palavra se elide 
na matéria - na metáfora - 
necessária, e leve, a cada um 
onde se ecoa e resvala. 

A magnólia, 
o som que se desenvolve nela 
quando pronunciada, 
é um exaltado aroma 
perdido na tempestade, 

um mínimo ente magnífico 
desfolhando relâmpagos 
sobre mim. 

Luiza Neto Jorge

Imagem retirada do Google

domingo, junho 22, 2014

Corpo de aroma



Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como uma lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância, linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.

António Ramos Rosa

Imagem retirada do Google

sexta-feira, junho 20, 2014

Os cinco sentidos



São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
      Em toda a natureza
      Não vejo outra beleza
      Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
      Não oiço a melodia,
      Nem sinto outra harmonia
      Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
      Não percebe, não toma
      Senão o doce aroma
      Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
      Famintos meus desejos
      Estão... mas é de beijos,
      E só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
      Sentir outras carícias,
      Tocar noutras delícias
      Senão em ti - em ti!

      A ti! ai, a ti só os meus sentidos
      Todos num confundidos,
      Sentem, ouvem, respiram;
      Em ti, por ti deliram.
      Em ti a minha sorte,
      A minha vida em ti;
      E quando venha a morte,
      Será morrer por ti.

Almeida Garrett

Imagem retirada do Google