quinta-feira, fevereiro 27, 2014

A todos e a cada um dos meus amigos


Por um  por todos  por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum  por todos ou por um
eu dou o meu poema  o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum  por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho  sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.

Joaquim Pessoa

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terça-feira, fevereiro 25, 2014

sábado, fevereiro 15, 2014

Foi para ti que criei as rosas.



Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume. 

Eugénio de Andrade


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quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Paraíso



Deixa ficar comigo a madrugada, 
para que a luz do Sol me não constranja. 
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja. 

Arranja uma pianola, um disco, um posto, 
onde eu ouça o estertor de uma gaivota... 
Crepite, em derredor, o mar de Agosto... 
E o outro cheiro, o teu, à minha volta! 

Depois, podes partir. Só te aconselho 
que acendas, para tudo ser perfeito, 
à cabeceira a luz do teu joelho, 
entre os lençóis o lume do teu peito... 

Podes partir. De nada mais preciso 
para a minha ilusão do Paraíso. 

David Mourão-Ferreira


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terça-feira, fevereiro 11, 2014

De palavra em palavra



De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.  

Eugénio de Andrade


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sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Arte de amar



Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não. 


Manuel Bandeira

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quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Tarde



A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
citilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.


Carlos de Oliveira

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segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Há muitos metros entre um animal que voa



Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita


Daniel Faria

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sábado, fevereiro 01, 2014

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

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