terça-feira, abril 30, 2013

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"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia
encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da
outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não
ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o
próximo ou então ter muito cuidado com o que se come."


Ana Hatherly

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domingo, abril 28, 2013

Eu nunca fui dos que a um sexo o outro



Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.
Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.
Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.
Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.
Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos.


Ricardo Reis

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sexta-feira, abril 26, 2013

Um Carnaval



Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris

Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber

Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças

Vem ao baile, oh tens que vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caires de borco
A tua alma é mais pura

Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile
E vais ver o que é bailar.


Alexandre O'Neill

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quinta-feira, abril 25, 2013

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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quarta-feira, abril 24, 2013

Écloga



Encontrei o segredo, a chave de vidro
das palavras que escrevo; e tenho medo.
Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo;
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.


Nuno Júdice

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segunda-feira, abril 22, 2013

Denúncia



Sonharei, no teu seio calmo,
O sonho invisível do cego de nascença.
Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,
Como um peixe desliza entre os ramos de árvore
Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,
O desejo de te acariciar sem perigo
- não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu
Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana
De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,
Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,
E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,
O mundo que vier inveja-nos
E o nosso espírito há-de perdoar-nos.


Jorge de Sena

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sábado, abril 20, 2013

Primavera


É anónimo o autor
Deste esplêndido poema
sobre a Primavera

Shiki

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terça-feira, abril 16, 2013

Ausente



Eu queria estar ausente,
simplesmente ausente
ou nulo,
como corda de viola, por tanger,
sem que nada se prendesse ao meu olhar
ou às mãos,
e que o presente
fosse o instante de esquecer.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.67

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domingo, abril 14, 2013

Dedo apontado



Aponto o dedo para a lua,
e a luz branca escorre, lenta,
pelo escuro.
No Tejo uma falua,
desgarrada,
que, condenada
foge do próprio futuro.
Nem uma nuvem tolda o meu presente,
que desliza, inconsciente, 
para o nada.
O silêncio é a verdade nua e crua.
Algures, morre o passado,
e eu estou ausente,
com o dedo apontado para a lua.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.62

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sexta-feira, abril 12, 2013

Meia-luz



Rua de luz baça.
Só borboletas da noite,
o gato que passa...

Um cego na viela,
com o futuro feito cão
na ponta da trela.

Tremo, fujo de lado,
mas a sombra que se alonga
é de um telhado.

O velho mocho pia.
Que outras pupilas abraçaram
tantas estrelas?

Manuel Filipe, in "À Beira de Cesário", pág. 58

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quarta-feira, abril 10, 2013

Velas



Velas,
prisioneiras do olhar,
quando as pálpebras se cerram
sobre a réstia de mar.

Manuel Filipe, in "À Beira de Cesário", pág. 30

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segunda-feira, abril 08, 2013

Andorinhas



A presença juvenil
das andorinhas,
faz esconder o inverno,
entre lençóis.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.18

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sábado, abril 06, 2013

Três haikus à chuva



Vento no telhado -
mãos travessas desmancham
as tranças da chuva.

Fora, cai a chuva.
Dentro, os amantes desejam
que ela nunca acabe.

O sol arde fugazmente
dentro das gotas da chuva:
- um arco - íris no céu.

Manuel Filipe, in "À Beira de Cesário", pág. 17

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quinta-feira, abril 04, 2013

Por vezes



Por vezes
conseguimos ver o céu
para além das luzes
da cidade.

Por vezes
conseguimos ver cidades
para além das luzes
do céu.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.70

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terça-feira, abril 02, 2013

Olvido



Há tranquilos espaços de olvido
entre aqueles que recordamos.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág. 65

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