domingo, março 31, 2013

Jardim Constantino



Sacudi o granizo do cabelo
que fundamente ainda vive sob o gelo
e disse assim:
- O meu sopro arrefece,
um anjo branco segue nos meus passos-

e porque o improvável acontece
afastei com as mãos os ramos velhos, 
cruzei os braços e sentei-me à sua espera
num dos bancos vermelhos
do jardim.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.43

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sexta-feira, março 29, 2013

Esplanada



Naquela noite, de tão apaixonado,
incendiei toda uma carteira de fósforos
ao dar-lhe lume.

Este episódio é muito certo
e verdadeiro - pelas risadas
toda a esplanada percebeu.

Manuel Filipe, in "Lisboa Oriental", pág.6

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quarta-feira, março 27, 2013

Jardim do Príncipe Real



(...)

A mínima luz presa
à sombra secular
e pequenos risos à solta
nessa luz.

(...)

Manuel Filipe, in"Lisboa Oriental", pág.12

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segunda-feira, março 25, 2013

Por distração



Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cultivamos como parte de nós próprios.

Mais tarde diremos "Bom dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.36

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sábado, março 23, 2013

Chiado



O balão soltou-se da mão do menino,
em contraste vermelho
com o céu azul.

Cruzou as vigas metálicas
de Santa Justa
perturbando os pombos lentos
e o seu voo agonizante
ao sol mortífero.

Por um instante
todos os olhares se uniram
todos os pensamentos
ficaram presos por um fio.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.26

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quinta-feira, março 21, 2013

O segredo do WC



O grande segredo de todas as mulheres a respeito da casa de banho é que, quando eras pequenina, a tua mamã levava-te à casa de banho, ensinava-te a limpar o tampo da sanita com papel higiénico e depois punha tiras de papel cuidadosamente no perímetro da sanita.Finalmente instruía-te: “nunca, nunca te sentes numa casa de banho pública!” E depois ensinava-te a “posição”, que consiste em balançar-te sobre a sanita numa posição de sentar-se sem que o teu corpo tenha contacto com o tampo.“A Posição” é uma das primeiras lições de vida de uma menina, importante e necessária, que nos acompanha para o resto da vida. Mas ainda hoje, nos nossos anos de maioridade, “a posição” é dolorosamente difícil de manter, sobretudo quando a tua bexiga está quase a rebentar.
Quando TENS de ir a uma casa de banho pública, encontras uma fila enorme de mulheres que até parece que o Brad Pitt está lá dentro. Por isso, resignas-te a esperar, sorrindo amavelmente para as outras mulheres que também cruzam as pernas e os braços, discretamente, na posição oficial de “tou aqui tou-me a mijar!”. Finalmente é a tua vez! E chega a típica “mãe com a menina que não aguenta mais” (a minha filhota já não aguenta mais, desculpe, vou passar à frente, que pena!). Então verificas por baixo de cada cubículo para ver se não há pernas. Estão todos ocupados.
Quando estás quase a rebentar, abre-se um e lanças-te lá para dentro, quase derrubando a pessoa que ainda está a sair…Entras e vês que a fechadura está estragada (está sempre!); não importa… Penduras a mala no gancho que há na porta… QUAAAAAL? Nunca há gancho!! Inspeccionas a zona, o chão está cheio de líquidos indefinidos e fétidos, e não te atreves a pousá-la lá, por isso penduras a mala no pescoço enquanto vês como balança debaixo de ti, sem contar que a alça te desarticula o pescoço, porque a mala está cheia de coisinhas que foste metendo lá para dentro, durante 5 meses seguidos, e a maioria das quais não usas, mas que tens no caso de…
Mas, voltando à porta… como não tinha fechadura, a única opção é segurá-la com uma mão, enquanto com a outra baixas as calças num instante e pões-te “na posição”…AH, que alívio… mas é aí que as tuas coxas começam a tremer… porque nisto tudo já estás suspensa no ar há dois minutos, com as pernas flexionadas, as cuecas a cortarem-te a circulação das coxas, um braço estendido a fazer força na porta e uma mala de 5 quilos a cortar-te o pescoço!
Gostarias de te sentar, mas não tiveste tempo para limpar a sanita nem a tapaste com papel; interiormente achas que não iria acontecer nada, mas a voz da tua mãe faz eco na tua cabeça “nunca te sentes numa sanita pública”, e então ficas na “posição de aguiazinha”, com as pernas a tremer… e por uma falha no cálculo de distâncias, um finííííssimo fio do jacto salpica-te e molha-te até às meias!!Com sorte não molhas os sapatos… é que adoptar “a posição” requer uma grande concentração e perícia.Para distanciar a tua mente dessa desgraça, procuras o rolo de papel higiénico, mas não há! O suporte está vazio!
Então rezas aos céus para que, entre os 5 quilos de bugigangas que tens na mala, pendurada ao pescoço, haja um miserável lenço de papel… mas para procurar na tua mala tens de soltar a porta… ?Duvidas um momento, mas não tens outro remédio. E quando soltas a porta, alguém a empurra, dá-te uma trolitada na cabeça que te deixa meio desorientada mas rapidamente tens de travá-la com um movimento rápido e brusco enquanto gritas OCUPADO!
E assim toda a gente que está à espera ouve a tua mensagem e já podes soltar a porta sem medo, ninguém vai tentar abri-la de novo (nisso as mulheres têm muito respeito umas pelas outras).Encontras o lenço de papel!! Está todo enrugado, tipo um rolinho, mas não importa, fazes tudo para esticá-lo; finalmente consegues e limpas-te. Mas o lenço está tão velho e usado que já não absorve e molhas a mão toda; ou seja, valeu-te de muito o esforço de desenrugar o maldito lenço só com uma mão.Ouves algures a voz de outra velha nas mesmas circunstâncias que tu “alguém tem um pedacinho de papel a mais?” Parva! Idiota!
Sem contar com o galo da marrada da porta, o linchamento da alça da mala, o suor que te corre pela testa, a mão a escorrer, a lembrança da tua mãe que estaria envergonhadíssima se te visse assim… porque ela nunca tocou numa sanita pública, porque, francamente, tu não sabes que doenças podes apanhar ali, que até podes ficar grávida (lembram-se?)….
Estás exausta! Quando páras já não sentes as pernas, arranjas-te rapidíssimo e puxas o autoclismo a fazer malabarismos com um pé, muito importante!Depois lá vais pró lavatório. Está tudo cheio de agua (ou xixi? lembras-te do lenço de papel…), então não podes soltar a mala nem durante um segundo, pendura-la no teu ombro; não sabes como é que funciona a torneira com os sensores automáticos, então tocas até te sair um jactozito de água fresca, e consegues sabão, lavas-te numa posição do corcunda de Notre Dame para a mala não resvalar e ficar debaixo da água.
Nem sequer usas o secador, é uma porcaria inútil, pelo que no fim secas as mãos nas tuas calças – porque não vais gastar um lenço de papel para isso – e sais…
Nesse momento vês o teu namorado, ou marido, que entrou e saiu da casa de banho dos homens e ainda teve tempo para ler um livro de Jorge Luís Borges enquanto te esperava.
“Mas por que é que demoraste tanto?” pergunta-te o idiota.
“Havia uma fila enorme” limitas-te a dizer.
E é esta a razão pela qual as mulheres vão em grupo à casa de banho, por solidariedade: uma segura-te na mala e no casaco, a outra na porta e a outra passa-te o lenço de papel debaixo da porta, e assim é muito mais fácil e rápido, pois só tens de te concentrar em manter “a posição” e a dignidade.

PS:Recebido por email

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quarta-feira, março 20, 2013

Escadinhas do Duque



Vou insistir,
Não me cansarei de descer
-com o olhar atento e desinquieto-
estes degraus
que nunca tentarei subir.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.24

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terça-feira, março 19, 2013

Há como que uma densidade


Há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia

e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível.

António Ramos Rosa

Foto:Eli

domingo, março 17, 2013

Escrita



Tamborilar de gotas no telhado:
-a escrita da chuva.

Manuel Filipe, in"Lisboa Oriental", pág.18

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sexta-feira, março 15, 2013

Um Amor



Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo. 
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade. Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio. 
Lembro-me do som dos teus passos, 
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, 
e a tua figura luminosa atravessando a praça 
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, 
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, 
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha 
essa doente sensação que 
me deixaste como amada 
recordação. 


Nuno Júdice

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quinta-feira, março 14, 2013

Bilhete



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve
ainda…

Mário Quintana

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quarta-feira, março 13, 2013

Sombras



Lembro a tua forma esguia
como a chama de uma vela,
fogo que tremeluzia,
luz que as sombras alongava.

Era noite.
A ventania
batia forte à janela.

Sei que o teu corpo tremia,
sei que o teu corpo queimava
e que ao nascer do novo dia
ainda a noite brilhava.

Manuel Filipe, in"À Beira de Cesário", pág.11

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segunda-feira, março 11, 2013

Tuas mãos



Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?
Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.
A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.
Pablo Neruda
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sábado, março 09, 2013

De esperas construímos o amor intenso e súbito


De esperas construímos o amor  intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos
No mais profundo silêncio. E, sem palavras,
Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.
Nuno Júdice

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quinta-feira, março 07, 2013

O sorriso



Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade

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terça-feira, março 05, 2013

O luar enche a terra de miragens



O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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domingo, março 03, 2013

A brusca poesia da mulher amada



Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente... 
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor - oh, a mulher amada é como a fonte! 
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo 
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido 
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? 
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente? 

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios 
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados... 

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias 
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.


Vinícius de Moraes

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sexta-feira, março 01, 2013

Assim o amor



Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

Sophia de Mello Breyner Andresen

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