domingo, julho 31, 2011

sexta-feira, julho 29, 2011

Quando a palavra é mais do que um corpo de sílabas



Quando a palavra é mais do que um corpo de sílabas
é porque o seu movimento tem o aroma do repouso
no extremo limite do obscuro
e o seu suor é deslumbrante
Nas suas hastes oblíquas cintila o translúcido sangue
ou ascende uma onda branca com a frescura de um naufrágio
Às vezes os dedos estremecem numa ternura de melodia
e o canto quase se evapora na sua líquida ossatura
Quando as sílabas fulguram como as artérias de um muro
abrem-se as janelas do mar e lêem-se os ramos do azul
Se o caminho se cala mas sem esquecer o branco
é porque as ancas nuas da água sob uma abóbada de pássaros
vão de praia em praia modelando as conchas clandestinas
Para a torrente sem leito a palavra estende uma tapeçaria
de musgo
e todo o ritmo da água será uma sequência de portas de
passagens de alianças
Mesmo nos músculos do incêndio pode fermentar o orvalhar
e a profundidade da pedra ocultar uma nascente
Na orla do seu próprio movimento
um gesto germinou sobre um solo calcinado
e desenhou uma rosa de nervuras verdes
nas voluptuosas virilhas de uma pedra vermelha

António Ramos Rosa

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quarta-feira, julho 27, 2011

Do tempo ao coração



E volto a murmurar Do cântico de amor
gerado na Suméria novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas sempre conservo entre as coisas mais puras

De uma genebra a mais num bar de Amesterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas mãos que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
de outros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença E da longevidade
do corvo do chacal do louco do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo ao coração minado pelo cancro
Dos rins ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração mas com pausa na pele
como «Roma by night» entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não que já não somos dois

Dos rins ao infinito A este que não outro
Ao que rola dos rins Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto à entrada do poço
De soletrar em mim a ler nas tuas mãos
como é rápido e lento e recto e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.

David Mourão-Ferreira

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segunda-feira, julho 25, 2011

Corpo e terra



Vejo o corpo grande, na solidão ignorada,
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a sua mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.

Entrar em ti, mulher ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
ó como o mar é claro nesta onda deitada!

Ó como eu sou um homem no meio-dia claro!

Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à tua sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação

Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
Tremendo na montanha fina da carne plena

Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as árvores no azul!

António Ramos Rosa

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sábado, julho 23, 2011

Erro de português



Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade

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sexta-feira, julho 22, 2011

Stranglers - Always the sun 1997



PS:Desligar o som do blog no lado direito.

quarta-feira, julho 20, 2011

Título por haver



No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso

Ana Luísa Amaral

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segunda-feira, julho 18, 2011

Ética



Chego em frente do mar, das suas ondas,
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.

Nuno Júdice

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sábado, julho 16, 2011

quinta-feira, julho 14, 2011

Árvores



O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

António Ramos Rosa

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terça-feira, julho 12, 2011

O ar dentro do grito



Exerce sobre mim todos os teus poderes,
os mais avassaladores e brutais,
os que deixam na carne a marca sem resgate
de uma morte prometida em cada gesto
e dá-me a perceber que
sempre que te toco é, afinal, o fogo
que estou a tocar, como se quisesse
bordar um monograma de lava
no lenço que cala o queixume dos lábios.
Deixa-me dos teus poderes
somente um rumor ou um aroma,
a inexprimível tentação que os faz
serem tão perenes e secretos,
tão sôfregos de entrega e infinito,
e depois derrota-me na arena
dos teus braços como tenazes de vento
sufocando nesta boca
o sopro que aprisiona o ar dentro do grito.

José Jorge Letria

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sábado, julho 09, 2011

Da voz das coisas



Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

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sexta-feira, julho 08, 2011

Os animais



Vejo ao longe os meus dóceis animais.
São altos e as suas crinas ardem.
Correm a procurar a tua boca,
a púrpua farejam entre juncos quebrados.

A própria sombra bebem devagar.
De vez em quando erguem a cabeça.
Olham de perfil, quase felizes
de ser tão leve o ar.

Encostam o focinho perto dos teus flancos,
onde a erva do corpo é mais confusa,
e como quem se aquece ao lume
respiram lentamente, apaziguados.

Eugénio de Andrade

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quinta-feira, julho 07, 2011

Poema pouco original do medo



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
*
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill

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quarta-feira, julho 06, 2011

Meio-dia



Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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segunda-feira, julho 04, 2011

Dança



Eram a delicadeza, a graça.
Mas também a fúria
da gataria ardendo nos telhados.

São jovens e dançam – formosos
como as dunas, os trigos, os cavalos.

Eugénio de Andrade

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domingo, julho 03, 2011

sábado, julho 02, 2011

A partir dos limites



A partir dos limites
das palavras
das árvores
o amor das árvores
as frases do desejo

as sombras
brancas
de outras palavras
outras
outras palavras
brancas

o trajecto
mais breve
de uma sombra a outra
pode ser
outra sombra

A partir das palavras
e do amor das árvores

António Ramos Rosa

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