quarta-feira, junho 29, 2011

A exaltação da pele



Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.

Natália Correia

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segunda-feira, junho 27, 2011

Michael Bublé-Home (live)



PS:Desligar o som no lado direito do blog.

domingo, junho 26, 2011

Trago na palma da mão a luz diurna



Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco.
O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto.
Ela, a minha múltipla companheira,
é uma coluna silenciosa e ardente.
A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria
e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.

António Ramos Rosa

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sexta-feira, junho 24, 2011

Abelhas



Gotas de luz e perfume,
Leves, tênues, delicadas,
Acesas no doce lume
De purpúreas alvoradas.

Pingos de ouro cristalinos
Alados na esfera, ondeando,
Dispersos por entre os hinos,
Da natureza vibrando.

Sorrisos aéreos, soltos,
Flavas asas radiantes,
Que levam consigo envoltos
Da aurora os sóis fecundantes.

Da aurora que a primavera
Faz cantar, brota no peito
E floresce em folhas de hera
O coração satisfeito.

Essa aurora produtiva
Do amor soberano e eterno,
Que é nas almas força viva
E nas abelhas falerno.

Nas doudejantes abelhas
Que dentre flores volitam
E do sol entre as centelhas
Resplendem, fulgem, palpitam.

Zumbem, fervem nas colméias
E rumorejam no enxame
Pelas flóridas aléias
Onde um prado se derrame.

Assim mesmo pequeninas
E quase invisíveis, quase,
Com as suas asitas finas,
De etérea de fluida gaze.

Ah! quanto são adoráveis
Os favos que elas fabricam!
Com que graças inefáveis
Se geram, se multiplicam.

Nos afãs industriosos
Que enlevo, que encanto vê-las
Com seus corpos luminosos
D'iriante brilho d'estrelas.

E nas ondas murmurosas
Dos peregrinos adejos
Vão dar ao lábio das rosas
O mel doirado dos beijos.

Cruz e Sousa

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quarta-feira, junho 22, 2011

Um amor



Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão.
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus, do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice

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segunda-feira, junho 20, 2011

Uma voz na pedra



Não sei se respondo ou se pergunto
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta
nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguem que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

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sábado, junho 18, 2011

Mas há a vida



Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

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sexta-feira, junho 17, 2011

quinta-feira, junho 16, 2011

Navegava no navio da matéria



Navegava no navio da matéria
a melodia da sede cintilava
sob o pólen branco do silêncio
Sobre o veludo unânime das veias
viu as corolas e os cálices dos fósseis
os pássaros de seiva
os diamantes de musgo
a voluptosa água da semelhança viva

O cristal da concha mais secreta
era negro sob a sombra ferida
e verde
e a sua língua era uma chama branca
aberta como um livro

Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra
entre sumptuosas luas
viu as sinuosas artérias entre as asas de areia
a oscilação rítmica de um ventre
como uma lisa viola de coral
e bebeu a espessa água da profunda floresta

Na sua sede extrema na sua fragilidade pura
acariciava os veios dos astros vegetais
o flutuante tronco primaveril e arcaico
em que lábios adormecidos se ofereciam
num cálido sopro polvilhado de pólen
Era uma ânfora na duna era um barco fendido
de cintilante mercúrio
era uma ilha de pálpebras
uma mulher de flancos de nascente
e de câmaras de verdura
era a lenta pátria da terra o continente azul
do silêncio do nascimento solar
para adormecer sem espelhos
aos rés do horizonte

António Ramos Rosa

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terça-feira, junho 14, 2011

Madrigal



Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

Foto:Eli

segunda-feira, junho 13, 2011

Entre-distância



De mim a ti ouço-te e convivo,
E dás-me o que és e perco-me e não conheço
enquanto mo não tires e não sejas
no dia-a-dia em que te perdes sendo.
A tua voz tão clara, as tuas mãos tão certas,
só de as lembrar são outras, como tu,
diferente que vai sendo, nem a mim me escutas,
e, de tocar-te, sabes que toquei.
Mesmo o que sabes, sabes que não sabes,
do não saber que é ter sabido outrora.
A uma distância infinda estamos, pois, tão perto,
por que? - Como as palavras ditas,
sinais, que foram, do que então morria,
nem no ar ficamos que entre nós medeia,
gestos que fiz os fiz, e a carne penetrada,
como a que penetra, em seu fervor conhece
o tenso contactar que de vibrar se esgota,
alheiamente atenta à própria forma ansiosa:
de nunca repetir nos repetimos,
de nunca possuir nos possuimos,
de nunca ouvir ao longe nos ouvimos,
e de não sermos mais que, frente-e-frente,
duas ausências que a não ser se assistem -
eu ouço-te, eu vejo-te, eu tenho-te,
convivo.

Jorge de Sena

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domingo, junho 12, 2011

Sonhei contigo



Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

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sábado, junho 11, 2011

Momento



Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música.

David Mourão-Ferreira

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quinta-feira, junho 09, 2011

Do amor I e II



I

A névoa disse à árvore:
tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe ser, figura.

II

Ver o cortejo de cedros
e acreditar que é o cenário.
Depois, estender a mão
através da longa perspectiva
oblíqua e poder apalpar,
na pele, que também os cedros
têm corpos húmidos, saliva,
à espera do Amor.

Fiama Hasse Pais Brandão

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terça-feira, junho 07, 2011

As rosas



Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites tranparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto:Eli

segunda-feira, junho 06, 2011

Tenho o nome de uma flor



Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Eugénio de Andrade

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domingo, junho 05, 2011

Sem Título



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo querer morrer.

José Luís Peixoto

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sexta-feira, junho 03, 2011

A água tanto pode ser uma guitarra de indolência



A água tanto pode ser uma guitarra de indolência
Como a agonia violenta de espumantes leões
Mas ela é sempre um ritmo fragrante um odor profundo
da penumbra insurrecta de uma garganta de pólen
Perante o mar a identidade desmorona-se e renova-se
Como se as grandes massas do universo irrompessem
da violência de um segredo de uma pátria insustentável
E quando se ergue como um tumultuoso túmulo
dir-se-ia que se arranca do centro ou que o expulsa
em ímpetos de uma violenta frescura primitiva
E é a sua agonia abundante no esplendor de um brocado
que nos bafeja a fronte e nos limpa o olhar
Mas à luz do poente a água é uma plácida
E melancólica cisterna no seu azul de planeta
e sempre a materna abundância do seu seio
nos reconcilia e retempera como se o seu corpo
fosse a fábula verde que regenera o mundo

António Ramos Rosa

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quinta-feira, junho 02, 2011

Tango à política portuguesa



:)

PS:Desligar o som do blog no lado direito.

quarta-feira, junho 01, 2011

Paráfrase



Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos constrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta

Pedro Mexia

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