quinta-feira, abril 30, 2009

A minha religião é o novo



A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, abril 29, 2009

Poema anti-chuva



Detesto a chuva,
Detesto poemas sobre a chuva,
Detesto a purificação da alma
Que leio nos poemas sobre a chuva.
A mim...
A chuva molha-me,
Cola-me a roupa ao corpo,
Provoca-me constipações.
Nunca me purificou a alma!
Mas já enlameada,
Me conspurcou o corpo.
Detesto os lugares comuns escritos sobre a chuva...
Em dias de chuva refugio-me nos lugares comuns:
Debaixo de varandas, entradas de prédios e cafés
Evitando assim ser baptizada, limpa e purificada
Pela água suja e fria que cai dos céus.

Encandescente, in"Palavras Mutantes", pág.32, Edições Polvo

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terça-feira, abril 28, 2009

Um poema de amor



Não sei onde estás, se falas
ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora contigo,
quando me pergunto onde estás:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dá este poema.

Nuno Júdice

Imagem retirada do google

segunda-feira, abril 27, 2009

A Ministra, o líder (A Ministra, vista por Bocage)



BAIXA, DE OLHOS RUINS, AMARELENTA
Usando só de raiva e de impostura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Um mar de fel, malvada e quezilenta ;

Arzinho confrangido que atormenta,
Sempre infeliz e de má catadura,
Mui perto de perder a compostura,
É cruel, mentirosa e rabugenta.

Rosto fechado, o gesto de fuinha,
Voz de lamento e ar de coitadinha,
Com pinta de raposa assustadinha,
É só veneno, a ditadorazinha.

Se não sabes quem é, dou-te uma pista:
Prepotente, mui gélida e sinistra,
Amarga, matreira e intriguista,
Abusa do poder... e é MINISTRA.

Quem é?

PS:Recebido por email e desconheço o/a autor/a da adaptação.

Imagem daqui

domingo, abril 26, 2009

Desejo



Gostava de escrever um poema
com rios dentro, e dentro dos rios,
marinheiros. Rumar ao mar
como quem se busca no poente.

Gostava de escrever um poema
com a naturalidade da criança
que salta à corda e é feliz:
Saudável, imprevidente, livre.

Gostava de escrever um poema
como quem canta, e do canto
fazer tempo, o de cantar e de partir
em busca da pureza apetecida.

Carlos Carranca, in"O Espírito Da Raiz", pág.49, Universitária Editora

Imagem retirada do Google

sábado, abril 25, 2009

Vampiros



No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
E não deixam nada

Zeca Afonso

Imagem daqui

sexta-feira, abril 24, 2009

Eu



Sou mulher fêmea amante
Sou gota de água lágrima e mar
Sou terra planta flor
E sou música voz e poema
E sou eu
Indefenível
No intervalo inesperado.

Paula Raposo, in"Nevou este Verão", pág.42, Apenas Livros

Foto retirada do Google

quinta-feira, abril 23, 2009

Nem a rosa, nem o cravo...



As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.

Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.

Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.

Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

Jorge Amado

PS:O texto acima foi publicado no jornal "Folha da Manhã", edição de 22/04/1945

quarta-feira, abril 22, 2009

Um outro Poema de Amor



No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice

Imagem retirada do Google

terça-feira, abril 21, 2009

Barca bela



Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

Almeida Garrett, in "101 Poetas", pág.58, Edições Caminho

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segunda-feira, abril 20, 2009

Alegoria



Junto do Mar canta a Cigarra.
Canta p'ra iludir
a fome e a solidão;
p'ra fingir que tem pão
e p'ra fingir que está acompanhada.

Tremeluzem os Astros no céu nítido:
Dona Cigarra faz serão.
Como há-de ela dormir, se a vida é curta?
-:Cigarra que se preza quando morre
não deve estar a meio da canção.

Ninguém pára a saber porque é que canta.
Ninguém lhe dá ouvidos nem conforto.
Melhor, assim:assim, não perde tempo
quem não pode cantar depois de morto.

A parte que lhe coube por destino,
tem de morrer deixando-a já cantada.
Que faz que a não escutem nem lhe acudam?
É preciso é sentir que se está vivo.
É preciso é que as asas que sosseguem
o tenham merecido.

Canta a Cigarra à sombra da montanha
e à sua voz a solidão alastra,
deixa-a mais longe, sempre, dos que dormem.
Só a noite a entende e a agasalha.
Mas a voz não acusa nem se cansa
nem laiva de azedume ou amargura.

Ei-la crucificada de indiferença.
Serve-lhe a Noite de mortalha.
Morno ainda do Canto,
seu coração evola-se em ternura
que vai poisar no sonho dos que dormem...

Sebastião da Gama, in"Pelo Sonho É Que Vamos", págs.81,82,Edições Arrábida

Imagem retirada do Google

domingo, abril 19, 2009

Para ti



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

Foto:Eli

sábado, abril 18, 2009

Mentiras



As das crianças, para não serem castigadas;
as dos apaixonados de uma noite
quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma,
para subir o preço desses bens;
as dos que inventam histórias inverosímeis
em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem
que já não é possível;
as dos candidatos a eleições;
as dos melhores actores, tão perfeitas
que se tornam verdade;
as dos padres de todas as igrejas
anunciando a salvação;
as mais inofensivas ou as mais perversas;

Fernando Pinto do Amaral, in"Poesia", pág.81, D.Quixote

Imagem daqui

sexta-feira, abril 17, 2009

A Grande inteligência é sobreviver



A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, abril 16, 2009

Credo do Contador de Histórias



Acredito que a imaginação pode
mais que o conhecimento.
Que o mito pode mais que a história.
Que os sonhos podem mais
que a realidade.
Que a esperança sempre
vence a experiência.
Que só o riso cura a tristeza.
E acredito que o amor pode mais
que a morte.

Robert Fulgum, in"Tudo o que eu devia saber na vida aprendi no Jardim de Infância"

Foto retirada do Google

Xutos e Pontapés - Sem Eira nem Beira



Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou - bem
Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir
Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar…

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer
É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir
Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar o povo que acreditou
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar…

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a foder
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

PS:Desligar o som do blog no lado direito.

quarta-feira, abril 15, 2009

Canção flautim (Excerto)



Se gostasses de mim,
ai, se gostasses,
se gostasses de mim
-serenim-
era tudo alecrim.

Se gostasses de mim
-mirandolim-
eu morria. Morria?
de gozo no sem-fim.

E gostaste. Gostavas?
de mim.
Era tão sem aviso,
era tão sem propósito
-trancelim-
e eu saltava, delfim.

E dançava, tchim,
sem notar, ai de mim:
Não era tanto assim.
Gonçalim.

Carlos Drummond de Andrade, in"101 Poetas", pág.139, Editorial Caminho

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terça-feira, abril 14, 2009

Menina dos meus olhos



Aberta a janela da menina dos meus olhos
O que fará essa menina na janela?
E quem será aquele que pensa:
Que linda menina na janela!
O que repara:
Ela está assomada na janela dos seus olhos.

Que fará ela debruçada na pálpebra?
E ele a passar por baixo?
E chove.
Chovem lágrimas naquele dia
E hoje
Caem lágrimas da janela da menina dos meus olhos.

A janela dos meus olhos é redonda
Como a lua que assoma de entre nuvens
Abro os olhos e não vejo mais do que
Aquilo que vejo é
Muito menos do que o
Tanto que assoma da janela da menina dos meus olhos.

Sem choros e sem lágrimas
Fico de alma debruçada
Assomada na janela da menina dos meus olhos.

Maria de Fátima

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segunda-feira, abril 13, 2009

Sobre mim mesma



Não sou uma pessoa rotulada,
Se eu não estou de bom humor, vou te mostrar isso!
Se eu não estou feliz, não vou me desmanchar em sorrisos!
Se eu não quero, não espere que eu aceite!
Se eu te amar, isso vai ser importante pra mim!
Se eu desejo, vou buscar!
Se eu chorar, é porque cheguei ao meu extremo!
Se eu me culpei, foi porque assumi os meus erros!
Se eu desisti, foi porque alguém assim quis!
Se eu tenho orgulho, é porque ainda preservo certas coisas!
Se eu sou assim, é porque também sou ser humano!
Se eu fiz alguém sofrer, já paguei esse pecado!
Se eu sou sincera, é porque odeio hipocrisia!
Se eu disse que te amava, é porque te amava!
Se eu disse que te odiava, é porque te odiava!
Se eu disse que é eterno, é eterno!
Se eu disse que não, foi por um bom motivo!

Alzira Paulino

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domingo, abril 12, 2009

Desejo



Desejo a você,
fruto do mato,
cheiro de jardim,
namoro no portão,
domingo sem chuva,
segunda sem mau humor,
sábado com seu amor,
filme do Carlitos,
chope com amigos,
crônica de Rubem Braga,
viver sem inimigos,
filme antigo na TV,
ter uma pessoa especial,
e que ela goste de você,
música de Tom com letra de Chico,
frango caipira em pensão do interior,
ouvir uma palavra amável,
ter uma surpresa agradável,
ver a banda passar,
noite de lua cheia,
rever uma velha amizade,
ter fé em Deus,
não ter que ouvir a palavra "não",
nem nunca, nem jamais adeus.
Rir como criança,
ouvir canto de passarinho,
sarar de resfriado,
escrever um poema de amor
que nunca será rasgado,
formar um par ideal,
tomar banho de cachoeira,
pegar um bronzeado legal,
aprender uma nova canção,
esperar alguém na estação,
queijo com goiabada,
pôr-do-sol na roça,
uma festa,
um violão,
uma seresta,
recordar um amor antigo,
ter um ombro sempre amigo,
bater palmas de alegria,
uma tarde amena,
calçar um velho chinelo,
sentar numa velha poltrona,
ouvir a chuva no telhado,
vinho branco,
bolero de Ravel...
e muito carinho meu!

Carlos Drummond de Andrade

Foto retirada do Google

sábado, abril 11, 2009

Meu Quintana



Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.

Manuel Bandeira

Foto retirada do Google

sexta-feira, abril 10, 2009

A tartaruga



A tartaruga que
andou
tanto tempo
e tanto viu
com
seus
antigos
olhos,
a tartaruga
que comeu
azeitonas
do mais profundo
mar,
a tartaruga que nadou
sete séculos
e conheceu
sete
mil
primaveras,
a tartaruga
blindada
contra
o calor
e o frio,
contra
os raios e as ondas,
a tartaruga
amarela
e prateada
com severos
lunares
ambarinos
e pés de rapina,
a tartaruga
ficou
aqui
dormindo
e não sabe

De tão velha
se foi
pondo dura,
deixou
de amar as ondas
e foi rígida
como o ferro de passar
Fechou
os olhos que
tanto
mar, céu, tempo e terra
desafiaram,
e dormiu
entre as outras
pedras.

Pablo Neruda

Foto retirada do Googgle

quinta-feira, abril 09, 2009

***



"Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas."

Victor Hugo

Imagem retirada do Google

quarta-feira, abril 08, 2009

O cerimonial das mãos



Mãe, onde foi que deixaste a outra metade,
a que anunciava o sol na turvação das noites,
a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?
Em que côncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho evadindo-se
do círculo de medos em que a fúria se jogava?
Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa,
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?
Mãe, eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos queria
separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.
Mãe, eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos liquefeitos da insónia
e sei que não sou eu quem lá está,
que não sou eu que lá quero estar.

José Jorge Letria

Imagem retirada do Google

terça-feira, abril 07, 2009

Resistência ao Vivo - Nasce Selvagem



Mais do que a um país
que a uma família ou geração
Mais do que a uma passado
Que a uma história ou tradição
Tu pertences a ti
Não és de ninguém
Mais do que a um patrão
A uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém

Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
De ninguém

Delfins

PS:Desligar o som do blog no lado direito.

segunda-feira, abril 06, 2009

***



"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

Clarice Lispector

Foto retirada do Google

domingo, abril 05, 2009

Há um ano a rolha é a ré - Beatles

video

PS1:Recebido por email.

PS2:Desligar o som do blog no lado direito.

Um dia



Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto retirada do Google

sábado, abril 04, 2009

Black



Leandrinho, o moço mais elegante e mais peralta do bairro de São Cristóvão, freqüentava a casa do Senhor Martins, que era casado com a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro.

Mas, por uma singularidade notável, tão notável que a vizinhança logo notou, Leandrinho só ia à casa do Senhor Martins quando o Senhor Martins não estava em casa.

Esperava que ele saísse e tomasse o bonde que o transportava à cidade, quase à porta da sua repartição; entrava no corredor com a petulância do guerreiro em terreno conquistado, e Dona Candinha (assim se chamava a moça mais bonita da rua do Pau-Ferro) introduzia-o na sala de visitas, e de lá passavam ambos para a alcova, onde os esperava o tálamo aviltado pelos seus amores ignóbeis.

A ventura de Leandrinho tinha um único senão: havia na casa um cãozinho de raça, um bull-terrier, chamado Black, que latia desesperadamente sempre que farejava a presença daquele estranho.

Dir-se-ia que o inteligente animal compreendia tudo e daquele modo exprimia a indignação que tamanha patifaria lhe causava.

Entretanto, o inconveniente, foi remediado. A poder de carícias e pães-de-ló, a pouco e pouco logrou o afortunado Leandrinho captar a simpatia de Black, e este, afinal, vinha aos pulos recebê-lo à porta da rua, e acompanhava-o no corredor, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

As mulheres viciosas e apaixonadas comprazem-se na aproximação do perigo; por isso, Dona Candinha desejava ardentemente que Leandrinho travasse relações de amizade com o Senhor Martins.

Tudo se combinou, e uma bela noite os dois amantes se encontraram, como por acaso, num sarau do Clube Familiar da Cancela. Depois de dançar com ele uma valsa e duas polcas, ela teve o desplante de apresentá-lo ao marido.

Sucedeu o que invariavelmente sucede. A manifestação da simpatia do Senhor Martins não se demorou tanto como a de Black: foi fulminante.

Os maridos são por via de regra menos desconfiados que os bull-terriers.

O pobre homem nunca tivera diante de si cavalheiro tão simpático, tão bem-educado, tão insinuante. Ao terminar o sarau, pareciam dois velhos amigos.

À saída do clube, Leandrinho deu o braço a Dona Candinha, e, como "também morava para aqueles lados", acompanhou o casal até a rua do Pau-Ferro.

Separaram-se à porta de casa.

O marido insistiu muito para que o outro aparecesse. Teria o maior prazer em receber a sua visita. Jantavam às cinco. Aos domingos um pouco mais cedo, pois nesses dias a cozinheira ia passear.

- Hei de aparecer - prometeu Leandrinho.

- Olhe, venha quarta-feira - disse o Senhor Martins. - Minha mulher faz anos nesse dia. Mata-se um peru e há mais alguns amigos à mesa, poucos, muito poucos, e de nenhuma cerimônia. Venha. Dar-nos-á muito prazer.

- Não faltarei - protestou Leandrinho.

E despediu-se.

- É muito simpático - observou o Senhor Martins metendo a chave no trinco.

- É - murmurou secamente Dona Candinha.

Black, que os farejava, esperava-os lá dentro, no corredor, grunhindo, arranhando a porta, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

Na quarta-feira aprazada Leandrinho embonecou-se todo e foi à casa do Senhor Martins, levando consigo um soberbo ramo de violetas.

O dono da casa, que estava na sala de visitas com alguns amigos, encaminhou-se para ele de braços abertos, e dispunha-se a apresentá-lo às pessoas presentes, quando Black veio a correr lá de dentro, e começou a fazer muitas festas ao recém-chegado, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

O Senhor Martins, que conhecia o cão e sabia-o incapaz de tanta familiaridade com pessoas estranhas, teve uma idéia sinistra, e como os dois amantes enfiassem, a situação ficou para ele perfeitamente esclarecida.

Não se descreve o escândalo produzido pela inocente indiscrição de Black. Basta dizer que, a despeito da intervenção dos parentes e amigos ali reunidos, Dona Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontapés valentemente aplicados.

O Senhor Martins, que não tinha filhos, a princípio sofreu muito, mas afinal habituou-se à solidão.

Nem era esta assim tão grande, pois, todas as vezes que ele entrava em casa, vinha recebê-lo o seu bom amigo, o indiscreto Black, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.

Artur Azevedo

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sexta-feira, abril 03, 2009

Lição sobre a água



Este líquido é água.
Quando pura
É inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
Sob tensão e alta temperatura,
Move os êmbolos das máquinas que por isso,
Se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções, mas de um modo geral,
Dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
E ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
Sob um luar gomoso e branco de camélia,
Apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
Com um nenúfar na mão.

António Gedeão

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quinta-feira, abril 02, 2009

Alguém



Não sei o que um alguém
representa para outro alguém
porque não sou esse alguém
nem o outro alguém
quando em alguém me transformo
no palco a que alguém pertence
e onde a peça escrita por alguém
fica em alguém retida
e eu não sei se esse alguém

é alguém que me conheça
ou só outro alguém
que eu desconheço,
entre um alguém e o outro alguém,
em alguém sobra o alguém de mim.

Paula Raposo, in"Nevou Este Verão", pág.3, Apenas Livros

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quarta-feira, abril 01, 2009

Para vivenciar nadas



Borboleta é um ser irrequieto.
Para vestes usa pólen.
Tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
Descola por ventos
e facilmente aterroriza em sonhos.
Borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
Para existir usa liberdades.
Desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
Usa com afinidades
o palco da natureza.
Nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. Como digo:
Pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
Borboleta dispõe de intimidades
com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
Para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
Borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

Ondjaki in"Poesia", págs.38,39; Editorial Caminho

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